quarta-feira, 14 de julho de 2010

Artigo.

Espelhos, paixões e outras identidades.


por Marlon Marques.





















A Copa do Mundo é o grande evento do futebol. Esse evento é tão poderoso que mobiliza até as pessoas que não gostam de futebol. Porém eu cheguei a uma conclusão analisando a Copa do Mundo de 2010 que é a seguinte: “o verdadeiro apaixonado pelo futebol é indiferente a seleção brasileira e a Copa do Mundo”. A paixão verdadeira é a pelo clube. Pois essa paixão – e as decepções, são sentidas o tempo todo e não de quatro em quatro anos. Há várias explicações, mas não vou me estender tanto nisso, uma delas diz que não há identificação entre o povo e a seleção devido ao alto nível de estrangeirização, no passado você via jogadores do seu time lá, logo se identificava. Já o clube não, por mais que sempre tenha jogadores de outros países, estão ali às cores, os hinos, a tradição que você reconhece e sente-se pertencente aquilo, aquela realidade, pois você participa, ou sendo sócio, ou indo aos estádios ou apenas emitindo boas vibrações do sofá de sua casa. A proximidade e a distância são elementos essências para regular as paixões. Quanto mais distante mora uma pessoa – e quanto menos esforço se faz para se aproximar, mais diminuta vai se tornado a paixão. O amor é como uma flor, para crescer e tornar-se cada vez mais forte e bela, precisa ser regada constantemente. O clube você acompanha pelo site, pelo noticiário no rádio e na tevê, além de ir ao estádio torcer, vibrar e se emocionar. Além do quê, torcer pela seleção não têm a mínima graça, pois uma das coisas boas do futebol é a gozação contra os adversários. Aqui em São Paulo, a divisão das torcidas se dá na seguinte ordem, primeiro Corinthians, seguido por São Paulo, Palmeiras e Santos. Logo por conta dessa proporção, em todos os lugares haverá torcedores desses quatro clubes. Então é muito legal depois do clássico, em plena segunda-feira, chegar ao trabalho ou na escola e olhar para cara do derrotado, ou exibir orgulhoso a camisa de seu clube, a sensação é ótima, a mesma de fazer um gol. Com a seleção não têm isso, pois você não convive diariamente com chilenos, tchecos ou finlandeses. O Brasil ganhou da Costa do Marfim na Copa, de quantos marfinenses você tirou um sarro? Claro que de nenhum, a menos que você brasileiro resida lá. Então essa relação de proximidade explica a rivalidade entre Brasil e Argentina, é essa a lógica dos derbys pelo mundo. Brasil e Argentina fazem fronteira, disputam liderança no cenário latino-americano, na cultura, e não haveria de não ser no futebol, desde quando Santos e Boca Juniors disputavam nos anos 60 o título de melhor time da América do Sul. A Copa sem Brasil ou Argentina, é o mesmo que um campeonato brasileiro sem Flamengo ou Fluminense, sem Grêmio ou Inter. A boa rivalidade se dá assim, quando o seu oposto – que às vezes é igual a você, rivaliza com você, disputa palmo a palmo um território, um campeonato, um jogo, uma dividida de bola. Ninguém quer perder, ninguém quer ser tripudiado pelo outro. O que aconteceu em termos de brincadeiras e gozações após a eliminação frente a Holanda? Nada. Não há holandeses no dia a dia, você não convive, logo não faz a menor diferença. No caso dos clubes não, há casos onde na família o pai é santista, um filho corintiano e o outro palmeirense, e quando se enfrentam entre si, a brincadeira, a tiração de sarro começa no seio da própria casa. Quando seu time se torna o melhor da cidade, ótimo sair com a camisa do clube pelas ruas, há um certo orgulho no ar, rivalizando com a inveja dos outros. No caso do Brasil não, qual a graça de sair com a camisa amarela na rua quando todo mundo também a usa? Todos são brasileiros, mas nem todos são palmeirenses, colorados, atleticanos ou vascaínos. O legal é a diferença, o outro, não o mesmo. E dentro dessa lógica, torcer para o Brasil só faz sentido no exterior, quando você está in lócus na competição, convivendo com os outros nacionais, também trajados com as camisas de suas pátrias, cantando seus hinos, evocando suas grandezas. No palco do futebol a coisa ainda se amplifica, pois vencer é evidenciar sua condição de melhor, de maior – mesmo que não o seja de um ponto de vista mais amplo. Fez todo sentido para o argentino que foi ao México em 86 e viu sua seleção vencer a Inglaterra, pois ali não era apenas as quartas-de-final da Copa do Mundo, era uma verdadeira revanche da Guerra das Malvinas. Os clubes são canais de identificação direta com os torcedores porque em muitos casos eles refletem as condições existenciais das pessoas, é só perceber na relação sócio-econômica. Fluminense, São Paulo, Real Madri, Galatasaray são clubes elitizados e ligados com as esferas do poder. Já Flamengo, Corinthians, Barcelona, Fenerbahçe, são clubes das camadas pobres, do povo e em alguns casos resistentes ao poder. A identificação catalã é maior do que a espanhola, logo o Barcelona é muito mais importante para o catalão do que a seleção da Espanha. Na Copa de 90, os italianos torcedores do Napoli, torceram pela Argentina de Maradona no confronto Itália x Argentina, pois Maradona é o ídolo de seu clube e nessa relação clube/seleção, a seleção sai desfavorecida. O clube é parte da vida das pessoas, em emblemas, adesivos, utensílios domésticos, conversas, etc., onde o individuo sofre, chora e ri pelo clube de uma forma honesta e constante, não sazonal como no caso da seleção. A seleção é uma enganação, é mais um grande esquema, um grande negócio – ainda maior do que os clubes, que se aproveita da insígnia nacional para obter vantagens privadas. Essa seleção cheia de estrangeiros, e comandada por um ditador, um rede de tevê – cheia de privilégios e uma marca de materiais esportivos em nada se parece com o povo brasileiro, pode até se parecer com uma parte do povo, mas não com todos. A seleção é como o país, injusta, corrupta (vide 98) e ruim, e por isso o futebol realmente age como espelho da realidade, basta ver também as seleções argentina, grega e zimbabuana e suas respectivas realidades.


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"A seleção é como o país, injusta, corrupta (vide 98) e ruim, e por isso o futebol realmente age como espelho da realidade, basta ver também as seleções argentina, grega e zimbabuana e suas respectivas realidades".





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"Os clubes são canais de identificação direta com os torcedores porque em muitos casos eles refletem as condições existenciais das pessoas, é só perceber na relação sócio-econômica. Fluminense, São Paulo, Real Madri, Galatasaray são clubes elitizados e ligados com as esferas do poder. Já Flamengo, Corinthians, Barcelona, Fenerbahçe, são clubes das camadas pobres, do povo e em alguns casos resistentes ao poder. A identificação catalã é maior do que a espanhola, logo o Barcelona é muito mais importante para o catalão do que a seleção da Espanha".



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