domingo, 24 de julho de 2011

O crepúsculo dos Deuses.

por Marlon Marques.

























O que é o limite da vida? Acredito que o limite seja aquele ponto em que a nossa vida chega e que temos apenas a opção de parar tudo que estamos fazendo e da forma como estamos fazendo pois o próximo passo pode custar à própria vida. Entretanto podemos morrer mesmo vivos, ou como os budistas [principalmente a escola tântrica]estamos morrendo um pouco a cada dia. Porém qual o objetivo da vida de um artista? Sucesso, fama, dinheiro, reconhecimento, luxo, extravagância ou um misto de tudo isso e mais um pouco? O rock nos oferece em abundância exemplos de artistas que vivem e viveram no limite de tudo, muitos deles pagaram com as próprias vidas, enquanto outros amargam o fundo de um posso que eles mesmos cavaram. Cartola já cantou que “o mundo é um moinho”, um grande triturador de ilusões e sonhos, que é tão implacável quanto o tempo, que devora as coisas e lega a obra [se é que podemos chamar assim em muitos casos] de muitos artistas ao mero esquecimento. Sid Vicious e Kurt Cobain são exemplos de vidas extremas, nas drogas e no sucesso repentino o primeiro tornou-se símbolo de um movimento [punk] e o segundo de uma geração [os anos 90], ambos, assim como Che Guevara, hoje estampam camisetas de milhares de jovens mundo a fora. O líder do Nirvana tornou-se o grande porta voz da geração sem rumo dos anos 90, cantou o desespero do fin de siécle disse o que todos queriam dizer, aos pais, aos amigos, ao mundo suas emoções eram a de qualquer adolescente, em Seatle, em Nova Iorque, em Nova Déli, no Afeganistão, em todos lugares, estavam cheios de um vazio existencial, e o tiro que ceifou a vida de Kurt, tirou também um pedaço da vida de cada jovem. Sid Vicious não, não serviu de arauto para os anos 70 (haviam outros), mas abusou de tudo por nós, nos levou ao limite [mesmo que falsamente] da desesperança no futuro, nos fez enxergar a porção de lixo que há em cada um de nós, mas foi vencido pelas drogas (overdose no banheiro de sua mãe). “É tão estranho, os bons morrem jovens, assim parece ser[…]”, cantou Renato Russo, como uma profecia mortal, que acometeu Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison (o próprio Russo – embora por outros motivos), porém no caso de Vicious e Kurt, trata-se de falibilidade dos ídolos, ou seja, expõe assim a faceta mais humana dessas personas [isso mesmo, pessoas], pois nós as elevamos como seres sobrenaturais, verdadeiros deuses e super-heróis. Será que Kurt Cobain achou que o tirou que transpassou o seu cérebro não o mataria, só aliviaria sua dor? E Viciuos, será que achou que a overdose só atingia os fãs dos Pilstols, mas a ele não? Muitas vezes canalizamos nesses ídolos tudo aquilo que queremos ser, vemos no outro a beleza que não vemos em nós, sofremos com a dor deles, rimos com seus sorrisos e nos realizamos com sua glória, mas eles se machucam também, são deuses de barro, quebram como nós e são finitos. Michael Jackson também é um caso extremo, de rei do pop à bobo de sua própria corte, teve tudo nas mãos, o sucesso, o mundo, a fama, o dinheiro, mas não soube lidar com isso, estragou sua carreira e jogou no ralo todo o prestígio que tinha por caprichos não humanos. Sua majestade brilhou mais do que o ouro de sua coroa, conclusão, tornou-se prisioneiro de sua própria vida, e como num espelho invertido, deseja hoje mais o ex-fãs [ou ainda fãs] do que os fãs o desejam.
























Jackson não morreu (o texto é de 2009) como Kurt e Vicious, mas está morto em vida, e é o que está acontecendo com Amy Winehouse. Amy tem talento sim, assim como Michael Jackson, é auto-destrutiva como Sid Vicious, e infeliz como Kurt Cobain, ou seja, ela possui características semelhantes as desses ícones da música pop do século XX, e parece escolher o mesmo caminho que todos, a destruição. Amy Winehouse parece não acreditar na finitude de sua vida, acredita que conseguirá preservar aquilo que ainda a sustenta, seu talento vocal veja Jackson por exemplo, hoje não consegue repetir o vigor de outrora, até nomes como Caetano Veloso (e Chico Buarque, João Gilberto, entre outros) declinam na qualidade com o passar do tempo (mesmo a qualidade deles ainda sendo superior a da maioria)isso indica que Amy pode sofrer também desse mesmo mal. Milton Nascimento já cantava belamente que “todo artista deve ir onde o povo está”, Amy Winehouse parece fazer o contrário, foge dos fãs e ainda os agride, o que é muito perigoso, principalmente por que Amy passará pela prova do terceiro disco (não deu tempo), e caso esse não repita o sucesso dos anteriores, o jogo pode começar a mudar para ela. Estou querendo dizer que o artista muitas vezes [e principalmente quando não gerencia sua carreira de forma correta], torna-se refém de seu próprio sucesso, e caso o mesmo não chegue, Amy poderá afundar-se ainda mais nas drogas além da normal perda de poder criativo que chega com o tempo. Talento é parte da capacidade que temos de agradar por longo tempo, agora genialidade é entrar para história, como Mozart e Beethoven (Bach e outros), que jamais morrerão, guardadas as devidas proporções, Kurt, Janis Joplin, Jim Morrison, Hendrix, Lennon, Elvis, Vicious, também não serão esquecidos, pois se neles faltou à genialidade, talento não faltou, para que suas obras se mantivessem vivas até hoje e seus rostos gravados em camisetas em todo mundo, agora te pergunto, será que em 100 anos ainda falaremos de Amy Winehouse ou veremos seu rosto estampado em camisas por todo mundo?




























































*Artigo originalmente publicado em iosbilario.blogspot.com em 6.03.2009.

Link da postagem original: http://iosbilario.blogspot.com/2009/03/ensaio.html






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