sexta-feira, 16 de julho de 2010


Artigo.

A ambiguidade da derrota.


por Marlon Marques.


























“Todas as derrotas são iguais certo? Errado”, começou assim sua coluna José Geraldo Couto. E ele tinha razão. As derrotas não são iguais, umas são mais sentidas do que outras, e acredito que para os brasileiros essa de 2010 foi uma das mais sentidas. Embora o futebol ainda brilhasse em 86, a Copa de 82 marca a morte do futebol arte e o começo do futebol resultado. E por incrível que pareça, mesmo as “vitórias” pós-82 não foram tão brilhantes, para alguns foram apenas exercícios de estatística, mero acumulatismo. Mas o que dizer das derrotas? Qual delas foi a mais doída? Refiro-me apenas as do futebol dito “moderno”, esse a partir de 74. Do tricampeonato de 70 para cá, foram 10 Copas, o Brasil ganhou duas dessas dez, 94 e 2002, dois times de força com pouca técnica. O futebol errou! Fez ganhar times medíocres como a Itália de 2006, e perder a Holanda de 74, a Hungria de 54 e o Brasil de 82. Se o Brasil ganhou duas de dez, logo perdeu oito – e dessas qual doeu mais? Eu não vivi todas essas para contar com contornos de verdade, mas baseando-se nos relatos dos que viram é mais fácil chegar próximo dessas dores. Todas têm um traço em comum, as críticas, mesmo Telê Santana com seu super time, mesmo Claudio Coutinho em 78, eliminado invicto, pois a derrota implica necessariamente em crítica. Como fora evidenciado, as derrotas são diferentes, sair lutando até o fim, sair nos pênaltis, perder com honra, dignamente é uma coisa. A apatia é que não é aceitável. O povo brasileiro sempre se vangloriou de suas características, “guerreiro”, “lutador”, “raçudo”, entre outras, sempre quer se ver em campo, quando isso não acontece a frustração torna-se raiva, cobrança. Em 2006 e 2010 o sentimento foi esse, raiva. O discurso pré-Copa era identificado com o povo brasileiro, face a face, vide as propagandas da Brahma. Mas o que se viu não foi isso. Porém essas Copas não foram as mais doloridas, tão pouco a burocrática de Lazaroni, mas sim a de 82. Copa emblemática em todos os sentidos. Os jogos, as jogadas, os gols, tudo, o time, o técnico, a escalação, tudo, tudo era perfeito e tudo andava perfeitamente bem. O título não só era certo, como era justo. E logo o futebol, que é por vezes o esporte mais injusto do mundo. E porque essa derrota é ambígua? Por uma razão simples, causou os dois tipos de sentimento no povo brasileiro, raiva e indignação, mas, depois de passada a dor o povo reconheceu que a derrota teve um gosto de luta. Raiva porque é natural após qualquer eliminação. A raiva também se deu porque não foi justo, não foi raiva do time ou da escolha errada de Telê (em princípio sim, mas depois não), substituindo Batista (mais marcador) por Cerezo (mais técnico), e mais uma vez por um desses caprichos do futebol, Cerezo errou em um dos gols de Rossi e deixou de acompanhá-lo em outro. Não foi justo. O time era perfeito, o escrete ideal. Então essa derrota foi encarada logo depois como injusta, mas foi aceita pela luta do time e não como uma derrota apática como a 2010. Já no sentido frustração, a questão é a que como um time tão bom pode perder. Ficou realmente no ar um sentimento de frustração, reforçado pela persistência da derrota de 86 e pela vitória de 94. Como um time inferior pode ganhar e um grande time pode perder. São esses caprichos do futebol como já dito, são essas imperfeições do destino. Quando você conta muito com uma coisa e ela não acontece à dor é grande, pois quando você não espera, você não esperava mesmo, com isso você se conforta. Basta vermos as reações do povo. O seleção uruguaia foi saldada quando chegou no país, o mesmo ocorreu com Gana, Paraguai, Holanda, Alemanha, entre outros nessa Copa de 2010, agora veja o Brasil como foi recebido. Com vaias, cobranças, indignação, sentimentos que brotaram na maioria do povo logo após o impacto da eliminação passar. Não se vê mais choro, sim descontentamento com o planejamento, com a preparação e no ar já está a cobrança para o próximo mundial. Portanto nossa derrota mais sofrida foi sem dúvida a de 82, pois foi injusta, o Brasil não merecia aquele desfecho, não da forma que foi. E nada como o tempo para redimir, para curar certas feridas, e muito embora ainda lembremos de 82 como a seleção que encantou e não ganhou, os mais sensatos a elevam a um status de grande seleção, mesmo não tendo levado de fato, pois para muitos (eu inclusive) aquele futebol representa o verdadeiro Brasil, a arte brasileira, como disse Cruyff e Beckenbauer (mal entendidos). Por isso eu apenas considero 94, e mais ainda 2002 como uma vitória menor, uma vitória numérica, sem brilho, pois é melhor perder em campo do que ganhar fora dele, ou como diz o ditado: “melhor morrer de pé do que viver de joelhos”.



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"E por incrível que pareça, mesmo as “vitórias” pós-82 não foram tão brilhantes, para alguns foram apenas exercícios de estatística, mero acumulatismo".



















"E muito embora ainda lembremos de 82 como a seleção que encantou e não ganhou, os mais sensatos a elevam a um status de grande seleção, mesmo não tendo levado de fato, pois para muitos (eu inclusive) aquele futebol representa o verdadeiro Brasil, a arte brasileira, como disse Cruyff e Beckenbauer".
























"O povo brasileiro sempre se vangloriou de suas características, “guerreiro”, “lutador”, “raçudo”, entre outras, sempre quer se ver em campo, quando isso não acontece a frustração torna-se raiva, cobrança. Em 2006 e 2010 o sentimento foi esse, raiva. O discurso pré-Copa era identificado com o povo brasileiro, face a face, vide as propagandas da Brahma. Mas o que se viu não foi isso".



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