sábado, 17 de julho de 2010

Artigo.

Música além colônia: um brinde aos Portugais.



por Marlon Marques.


























Acho extremamente anacrônica a rivalidade entre portugueses e brasileiros. Acredito não haver mais resquícios da colonização, e ter raiva dos portugueses por causa disso é o mesmo que os israelenses terem raiva dos alemães de hoje por conta do holocausto. É necessário levar em consideração o tempo, a época. Os alemães nazistas não são os alemães de hoje, e os portugueses colonizadores não são os portugueses de hoje – embora saibamos que hoje hajam pessoas que pensem com essa mentalidade antiga. Essa imagem mal formada faz com que os preconceitos tomem o primeiro plano e isso traz conseqüências enormes. Negar os portugueses é negar toda sua vasta cultura, da ótima gastronomia á literatura, das artes plásticas ao artesanato, e do cinema à música, sendo essa última nosso objeto principal. A música portuguesa é muito vasta. E falar sobre ela daria um artigo enorme, mas o que vamos abordar aqui é apenas um fragmento, mas um fragmento fantástico dessa rica cultura musical. Refiro-me á duas grandes cantoras contemporâneas, uma já consagrada e outra em busca de uma consagração além terras portuguesas. Uma já aportou por terras brasilis há muito tempo, a outra ainda não penetrou por aqui, mas sei que com certeza quando isso acontecer, o nosso povo irá se deleitar com sua voz e com as belas melodias que sua banda de acompanhamento cria.

Teresa Salgueiro – Você e Eu.

O disco “Você e Eu” é o segundo da carreira solo de Teresa Salgueiro, lançado em 2007. O álbum traz a soprano em um momento muito especial de sua carreira, podendo gozar de liberdade artística e explorando novas possibilidades sonoras. Há pintadas de jazz, de bossa-nova, de samba, mas com a matriz fincada nas origens, no fado tradicional e na base musical do seu antigo grupo Madredeus. O timbre de Salgueiro lembra em “Marambaia” o de Carmem Miranda, nessa linda canção de letra sublime. Ao ouvinte eu recomendo que preste bastante atenção a sutileza e ao cuidado dos instrumentais, caso de “Estrada do Sol”, linda. E não foi por acaso que eu escolhi esse disco. Porque se eu tenho a intenção de celebrar a união Brasil-Portugal, como Lamartine no hino do Vasco da Gama, teria mesmo de escolher um disco onde há canções brasileiras como a bela “Valsa de uma Cidade” e “Maracangalha” interpretadas com maestria por uma das grandes vozes lusas de todos os tempos. O disco todo é impressionante, é um verdadeiro libelo, uma ode á fina flor da canção brasileira. Teresa com sua voz de veludo trata nossas canções como uma orquídea de luxo, para citar Nelson Rodrigues, pois as canta com uma paixão, que só não é perceptível aos brutamontes sem alma. “Insensatez” e “Risque” são obras de um requinte sem igual, e não é exagero dizer que para alguns podem até superar as versões anteriores. Com base em um piano e um violino, Salgueiro reproduziu “Valsinha” de Chico Buarque, que parece ter sido composta para ela. O tom, o timbre, tudo, se encaixou perfeitamente bem, como uma caixa de bombons enrolada em fita de cetim. Eu sempre achei “Se Todos Fossem Iguais a Você” uma das grandes canções da história do Brasil, mas confesso que a grande guinada dessa canção para mim se deu com a interpretação emotiva de Maysa. Porém, considero essa uma segunda guinada, pois a versão desse disco ficou primorosa, com um dos instrumentais mais encantadores que eu já ouvi. Ouvir esse disco é um presente, conquista qualquer um, torna a vida mais bela, mais cheia de encanto, e se você já é fã do trabalho de Teresa Salgueiro, com certeza ficará ainda mais fã depois desse disco.


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Teresa Salgueiro - Você e Eu (EMI, 2007).

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Raquel Tavares – Raquel Tavares.

Esse disco – o primeiro de Raquel Tavares, é de 2006. Aqui realmente o que temos é fado, e fado dos bons. E como nunca podemos esquecer de Amália Rodrigues quando falamos em fado, Raquel Tavares com certeza honra essa tradição que essa diva elevou de forma tão magistral. Tavares ao contrário de Salgueiro, têm um timbre mais forte, mas não mais marcante, mas sua voz têm uma magia difícil de explicar. Seu sotaque carregado dá ainda mais beleza às canções ricamente acompanhadas das tradicionais violas de fado e guitarras portuguesas. O fado para mim é muito ambíguo, pois ao mesmo tempo em há canções doloridas há coisas alegres, festivas, evocando noites de dança e amor em Lisboa. Raquel Tavares é com certeza uma das maiores cantoras da atualidade, pois sua voz atinge notas altíssimas com uma qualidade lírica, sua pronuncia é voluptuosa, é viva, nos envolve de uma forma tão forte, que chega a nos colocar na música. Não dá para destacar muitas canções desse disco, pois fazê-lo seria um exercício de injustiça, pois tudo é belo e rico. Mas “Fado Raquel” e “A Tarde Já Morreu Nessa Janela” são lindas, aqui se têm de fato toda noção do que é capaz essa jovem lisboeta. Mas confesso que a canção que mais me chamou atenção em minha primeira audição desse disco há três anos atrás foi “Noite”. Um lindo madrigal, trilha sonora perfeita para amantes apaixonados observando a lua cheia imensa em algum lugar do Porto. Os dedilhados são perfeitos, fora o acompanhamento de fundo, para que a suave voz de Raquel penetre em nossos ouvidos delicadamente. Outra canção que me tocou muito foi a ritmada “Por Momentos”, com seu lindo verso: “por um momento, descuidou-se o seu olhar no meu”, poético, lindo, e ela ainda canta com uma emoção sem igual, não há como não se emocionar com isso. É claro que esse disco não traz um fado puro. Deve ser encarado como uma recriação do estilo para ouvidos do novo milênio, por isso eu considero esse disco uma boa introdução ao estilo. Dificilmente uma pessoa não vai achar “Quando Acordas” uma linda canção, não há como não ser tocado por ela, por sua beleza, é como acordar de manhã e observar um frondoso jardim e não admirá-lo. Mas sinceramente, acho também que os bitolados em suas “ilhas” sonoras não iram se dar a oportunidade de ouvir esses discos. Bom azar o deles, agora aqueles que se libertarem de seus preconceitos sociais e musicais ganharam muito com essa experiência, por isso dou um viva aos lusitanos.


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Raquel Tavares - Raquel Tavares (Movieplay, 2006).

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"Mas, se algum dia talvez a saudade apertar. Não se perturbe, afogue a saudade, nos copos de um bar. Creia. Toda quimera se esfuma, como a brancura da espuma. Que se desmancha na areia".


(Risque - Ary Barroso).





















"Quem canta sempre se ausenta da hora cinzenta da sua amargura. Não sente a cruz tão pesada na longa estrada da desventura".


(Fado Lisboeta - Amadeu do Vale/Carlos Dias).




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