quinta-feira, 2 de setembro de 2010


Artigo.

O som do mingau com canela.


por Marlon Marques.





















Música e sinestesia possuem uma relação íntima. É claro que não pretendo aqui penetrar nos meandros dessa relação tal qual um Oliver Sacks. Mas realmente é curioso como a lembrança é ativada pela música e como o cérebro através da lembrança, ativa os sentidos como uma experiência vívida. Lembro-me que quando eu era criança – dos 8 aos 11 anos, minha mãe me acordava bem cedo para me aprontar para ir à escola. Cuidadosa como sempre foi, não deixava que nenhuma gola ficasse torta ou manga de camisa amassada. Tais cuidados estendiam-se a um café da manhã saboroso. Copo de requeijão de leite com achocolatado, pães assados na frigideira, e uma imóvel janela por onde eu olhava o dia nascer, com um belo degradê no céu. Com a casa e o bairro ainda silenciosos – meus irmãos dormindo porque estudavam em outros horários, o relógio marcava dez para seis da manhã, meu pai já havia saído de casa para ir ao trabalho. Minha mãe ligava o rádio, e enquanto fazia essas coisas, ouvíamos música – sambas antigos, bregas, música popular brasileira, internacionais, etc. Eu me lembro de estar sentado à mesa (nessa época na cozinha), esperando o café. Tudo tinha um cheiro tão bom, lembrando um odor de uma fazenda que jamais havia pisado. Vivíamos tempos difíceis economicamente (fim do governo Collor), com a inflação descontrolada – e incontrolável a época, o custo de vida se elevava enquanto os salários se mantinham os mesmos. Isso exigia uma vida mais simples, porém não menos feliz por isso, ou por qualquer outro motivo. Se era feliz com o que se tinha em mãos, com os sonhos, com um mundo imenso de fantasias e inocência, com brincadeiras, doces, risos e uma felicidade inexplicável (ou não). Porém todos os dias, quase que acompanhando o relógio, as rádios que ouvíamos todas as manhãs, tocavam sempre as mesmas seqüências de músicas. Não por falta de afetividade, mas minha memória resolveu esconder comprimidamente em um canto hermético do meu cérebro essas lembranças, então eu não sei quais eram essas músicas, mas uma delas eu me lembro bem, “Everybody Wants To Rule The World” do Tears For Fears. Essa canção tocava todas as manhãs – seja penteando o cabelo ou subindo o zíper da blusa azul, ela tocava, como se o dia não pudesse começar caso não tocasse. Aquilo me enchia de esperança – não sei por que, e me enche ainda (continuo sem entender direito). Quando à tarde caia e eu observava pela mesma janela imóvel – lá pelas 17 horas, o céu se diluindo num laranja bonito, minha mãe preparava um mingau com canela delicioso. Até hoje ela faz esse mingau exatamente como no passado, com maisena e leite. Levados ao fogo, formavam uma substância viscosa e branca. Inicialmente liquida por conta da quentura do fogo, lembro de minha mãe mexer a mistura com uma velha colher de pau e logo em seguida pegar a panela quente com panos de prato nas mãos como se fossem luvas. Despejava num prato médio – ou num grande para quem agüentasse, colocava canela por cima e deixava esfriando na janela. Pontualmente dentro de uma faixa de tempo que compreendia esse horário da tarde – entre as 17h e as 17:45h, uma dessas rádios imemoriais, toca a canção do Tears For Fears. Era como um ritual, de manhã e de tarde, todos os dias. Anos depois virei um grande fã dessa banda e ouço freqüentemente até hoje. E é inevitável a lembrança desse tempo, dessa vida simples e feliz, dos cheiros, daqueles cafés-da-manhã, do gosto da manteiga derretida no pão, do mingau – que chamamos “papa” e da fusão que fazia com a canela na boca. E por mais que eu coma tudo isso hoje, o sabor não é o mesmo desses anos. Parando por um instante e me concentrando eu consigo ver as cenas, a posição exata dos móveis e eletrodomésticos, o rádio velho embutido numa caixa de madeira cor mogno, seus botões pretos e o painel analógico onde sintonizávamos as estações, a papa esfriando na janela. Às vezes estou distraído em algum canto da casa quando sinto o cheiro do mingau, logo me vem à mente o filme da infância. Há, como era bom! Se ouço à canção ocorre a mesma coisa, as lembranças são ativadas na memória, e impressionantemente o cérebro manda para a língua o sabor daquele tempo, e aí fechando os olhos e me transporto. Todos os cheiros, sabores, as cores desbotadas, vistas novamente pelos olhos de um garoto inocente. Quando aqueles odores parecem subir pelas paredes úmidas do meu nariz, meu corpo se arrepia ao mesmo tempo que se inclina para trás, e com os olhos fechados, minha visão se embranquece e as poucos se esvai dando lugar as cenas nítidas desse passado, enquanto de leve ao fundo, o solo do início da canção embala esse momento mágico e singular. É tudo uma questão de associação, porque a memória é feita desse conjunto de associações entre tudo aquilo que nos marca. Meu cérebro associou a canção com aqueles cheiros e sabores, ao passo que um lembra o outro em qualquer situação e em qualquer tempo. Mas a maior de todas as associações é a de que tudo isso se liga ao fato de que eu fui feliz nessa época, e assim como Susan Sontag, eu não estou querendo que meus sonhos interpretem minha vida, mas que minha vida atual interprete meus sonhos, sim, meus doces sonhos.





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