domingo, 29 de agosto de 2010


Artigo.

Luiz Caldas, os cults e como transformar giló em caviar.



por Marlon Marques.

















Por enquanto não entraremos mais em questões do gosto. Bom gosto e mau gosto são conceitos difíceis de definir. Da mesma forma que há pessoas que não revelam certos gostos em público, há os que não criticam em público aquilo de que não gostam., embora seja mais fácil criticar. A grande questão é que da mesma forma como não sabemos ouvir criticas, não sabemos criticar. Ninguém diz simplesmente “não gosto”, sempre há algo a mais a dizer, sempre depreciando, denegrindo, ofendendo. Outra questão importante é a que distingue, “bom” e “ruim” de “gosto” e “não gosto”. Às vezes você pode não gostar de algo que muitos acham bom ou o contrário, você pode gostar de algo que dizem que é ruim. Isso sem falar dos “cults”, artistas que são reabilitados pela mídia muitos anos depois, e que em suas épocas não receberam o devido reconhecimento. Isso geralmente acontece quando um famoso diz em público – numa entrevista, num programa de variedades, que gosta de um determinado artista, é o bastante para uma reabilitação. Isso aconteceu recentemente com Luiz Caldas. Eu não gosto e nunca gostei da música de Luiz Caldas, e não é porque ele virou cult que eu vou mudar de ideia. Acho sua música ruim, suas composições fracas, figurino, danças, temas, tudo, nada ali me agrada. Não significa que é ruim, talvez eu considere ruim, mas com certeza eu não posso cravar isso, uma vez que há pessoas que gostam de sua música. Luiz Caldas é outro pródigo filho da sazonalidade da indústria. A indústria fonográfica adora “exóticos”, “diferentes”, “dançantes” e “toscos”. Gosta como? Gosta para sugá-lo no momento, aproveitar o hype. Caldas fez muito sucesso no final dos anos 80, porém nunca admitiu (ou se quer calou-se) quando se referiam a ele como apenas mais um fenômeno passageiro. Luiz Caldas disse certa vez que “trocou 100 mil dólares, carro e apartamento por uma cláusula no contrato que defendesse sua liberdade artística”. Agora eu lhes pergunto, onde está essa arte que Luiz Caldas quis preservar? E é isso que eu aponto quando digo que não é e nunca foi (e nunca será) um grande artista. Sempre repito a mesma coisa quando toco nesse assunto, o grande artista é aquele capaz de se perpetuar seja em vida, seja em morte (sic). Alguns artistas ainda têm outra característica que reprovo, a necessidade de mostrarem-se versáteis como que querendo provar sua qualidade. E Luiz Caldas cai justamente nessa categoria. Gravou samba, axé, fricote, brega, MPB e até heavy metal ele fez (ouçam e digam para vocês mesmos se ele fez algo de diferente em algum desses estilos ou se fez algo apenas de qualidade). A questão não é ser versátil apenas artificialmente, sim ter elementos diversos incorporados em seu trabalho desde o início, mostrando assim a verdade por trás disso. O compositor e acadêmico César Rasec – que escreveu uma dissertação sobre Luiz Caldas, disse: “a versatilidade dele ainda não foi assimilada, está em processo. Pensam que é apenas o cara da axé music que dança descalço”. Fica a questão, o que é Luiz Caldas então? Outro aproveitamento por parte dos artistas é aproximarem-se de minorias ou de estilos da moda. O Sérgio Reis gravou no final dos anos 50 um compacto iê-iê-iê – “Coração de papel”, mas desde que se tornou apenas um artista puramente sertanejo, nunca se bandeou para modas independentemente de momento bom ou ruim de seu estilo original. Há artistas que se a moda é rock usam couro e jeans, se a moda é country usam jeans e chapéu, se for hip hop, calças largas, correntes e falam gírias descoladas. Isso é versatilidade ou aproveitamento? Depois do estouro da festa de Parintins, ser indígena virou um negócio interessante. Eu nunca vi nada do Luiz Caldas nos anos 80 relacionado com a cultura indígena (se tiver eu retiro o que disse sobre isso). Recentemente lançou um disco todo cantado em Tupi, numa clara tentativa de arrebatar um filão ávido por representação. Isso sem contar a bolha que é a música baiana (tema de artigo futuro), e toda sua auto-indulgência. Luiz Caldas não fez nada pela música em 30 anos de carreira. Criou hibridismos musicais que não vingaram, emplacou hits como “Tieta” e “Haja Amor”, que hoje são apenas representações de um tempo desqualificado – os anos 80. Não trouxe inovações, não criou obras atemporais, e não se manteve consistente em meio a roda de modas e estilos que nascem e morrem ano à ano. A classe artística que é muito corporativista, tenta hoje reabilitar alguns artistas, com documentários, tributos, participações, shows, homenagens, e assim é que nascem os “cults”. Luiz Caldas faz parte desse mesmo movimento, capitaneado por artistas baianos (vide a bolha supracitada), como Ivete Sangalo, Claudia Leite (que não é baiana, mas faz música baiana), Moraes Moreira e até Caetano Veloso - que quem diria, um dia cantou soberbamente “estou de pé em cima de um monte de imundo lixo baiano”. A moral da história é: uma coisa é dizer “eu gosto de Luiz Caldas”, e outra é criar artifícios e argumentos para defender sua alta qualidade musical e sua relevância na história da música brasileira. Mas isso é natural também, é até normal que as pessoas tentem de todas as maneiras defender suas preferências. Mesmo com contornos intelectuais e artísticos, certas coisas não mudam. Não gosto de Luiz Caldas, suas músicas não representam nada para mim. E acho que se em 30 anos Luiz Caldas só conseguiu emplacar dois hits solitários que só tocam em rádios e festas retrô, não será agora que irá revolucionar a música, esperemos então o que vai causar sua tal “versatilidade incompreendida”.






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