sexta-feira, 11 de junho de 2010

Ensaio.

Sonhos, Quindins e outras Lembranças.

por Marlon Marques.






















The Smiths parece ser a trilha sonora perfeita da minha infância. São acordes e tons que pintam o retrato dos meus melhores anos. Esses anos não se congelaram no tempo, eu não os guardei em caixas de brinquedos velhos no fundo de um armário no quarto dos meus pais, não está em lugar nenhum, mas está vivo nos meus sonhos embalados pelos Smiths. Soft Cell e Depeche Mode também marcaram muito, mas foi o grupo de Morrissey que me causaram os maiores impactos, que deixaram os melhores doces sabores em minha boca até hoje. Meus tempos de bala de goma e doces de todos os tipos eram regados de muito “The Boy With The Thorn In His Side”, muitas das minhas tardes quentes, de brisa suave no rosto, eram embaladas por “Ask”, na mente a imagem da garota do colégio, aquela que eu amava em segredo, e no pensamento eu imaginava como seria a nossa vida daqui há uns 20 anos. Nessa época a única preocupação que tínhamos, era com os deveres de casa, a única coisa que nos tirava o sono algumas vezes. Outra preocupação era escovar os dentes antes de dormir, pois de tantos sonhos e rosquinhas de puro açúcar, era necessário uma sessão noturna de higiene bucal. Quando somos jovens, projetamos no futuro a nossa felicidade, porém hoje quando me pego viajando ao som de “There Is A Light That Never Goes Out”, vejo o quanto fui ingênuo ao pensar assim. Poderia ter amado mais em segredo a garota, quem sabe eu poderia ter dito tudo a ela, poderia ter comprado muitos mais sorvetes baratos feitos de suco caseiro do senhor gordo da frente da escola. E poderia ter corrido mais e mais sem destino, sem razão, apenas exercitando o meu direito à liberdade, que perdi quando assinei minha primeira carteira de trabalho. Nessa época, o simples colorido dos prédios do conjunto, formavam uma paisagem nova a cada viagem de ônibus de volta do centro da cidade, e mesmo sem ouvir, imaginava na mente a voz macia e sedativa de Morrissey, querendo me dizer algo que eu não compreendia racionalmente, mas que me dava e dão uma paz que eu não consigo explicar. Se eu tivesse olhado para o céu mais vezes e tivesse entendido o recado das nuvens, poderia ter realmente sido feliz, poderia ter tomado coragem de dançar agarradinho com ela “That Joke Isn´t Funny Anymore”, e ter dado a ela uma rosa como emblema do que eu sentia, e quem sabe hoje essa rosa estaria mais viva do que nunca, e não ter sido despedaçada como meus sonhos, levados pela correnteza de minhas lágrimas. Se ao menos mais uma vez eu pudesse ter a chance, se quem sabe se eu fechar os olhos quando tocar “Bigmouth Strikes Again”, e puder tocar meu passado e dizer ao menino que fui o quanto ele pode se orgulhar de si mesmo hoje, e do quanto eu sinto inveja dele, do seu tempo, da sua pureza e da sua liberdade, que perdi, que vi partir num trem rumo as estrelas, mas de uma galáxia já tão distante de mim muitos anos luz. Se por um minuto, apenas um, “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me”, me desse à oportunidade de dizer a ela o quanto foi importante para mim, o quanto foi bom experimentar um amor simples e sem interesses, o quanto eram bons os intervalos em que eu a observava de longe, e viajava com os pés no chão, comendo guloseimas ou sanduíches engordurados e nada saudáveis, num intervalo de minutos que pareciam horas infindas numa ampulheta. Talvez se eu comer novamente os arroizinhos rosa cheios de magia, ou se as antigas balas de cocô derreterem em minha boca como antes, eu me sinta melhor. Eu talvez entenda que tudo isso de fato aconteceu, e que o mel que lambuzou meus lábios ainda se encontra disponível, e que há muitas faixas de Belle & Sebastian para ouvir. Quero olhar para o chão e ver meus pés de moleque, do garoto que um dia eu fui. Quero sentir novamente o gosto do amarelo dos quindins, saborear o arco-íris que há em cada pote de gelatina mosaico, em cada pacote de jujuba, ouvir qualquer canção dos Smiths e dormir como um anjo, e se for um sonho doce e cheio de cristais de açúcar, por favor não me acorde tão cedo ou talvez, não me acorde jamais.






























The Smiths - ... Best II (Warner, 1992).

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