quinta-feira, 10 de junho de 2010

Artigo.

Admirável mundo novo abaixo de nossos pés.



por Marlon Marques.




















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Sempre digo que o inusitado é bom e original. Digo por que parto do pressuposto, de que quando você faz um estudo sobre algo muito estudado, você só têm dois caminhos: ou você supera o melhor trabalho nessa área ou se torna mais um. Porém quando você faz algo inusitado, você se torna pioneiro e abre um caminho para outros. É sob a ótica do inusitado que Rogério Canella fez um trabalho brilhante sobre a expansão do metrô de São Paulo. Quando fui à primeira vez na estação Alto do Ipiranga ao lado de minha namorada Alessandra, ficamos abismados com a diferença de design e modernização em relação às outras estações de outras linhas. O mesmo impacto eu tive muitos anos antes, quando vi pela primeira vez os painéis de tinta cerâmica sobre vidro de Alex Flemming na estação Sumaré. O usuário do metrô em geral não têm tempo de ficar reparando na estação e muito menos de pensar como tudo aquilo foi feito. É comum dizermos que as obras do metrô demoram muito, é claro que há questões eleitorais de fundo e estruturais, mas do ponto de vista da engenharia, obras como essa são difíceis e complexas e por isso requerem tempo. No final de 2008, tive a oportunidade de visitar os bastidores da expansão do metrô nas obras da linha amarela. Passei da estação Consolação para a atual estação Paulista, onde vi na ocasião o estágio das obras. Foi somente aí que pude ver como as coisas funcionam e como há todo um processo por trás do que vemos pronto. Vi túneis escuros e úmidos, uns cheios de rachaduras e infiltrações. O cheiro era horrível, uma mistura de mofo, poeira e resto de diesel dos motores das máquinas. A mais estranha delas, eu pude ver apenas de longe por detrás de uma lona, o “Tatuzão”. Um monstro que mais parece uma minhoca gigante com uma boca cheia de dentes, que cavam e perfuram a terra abrindo o caminho por onde o trem do metrô vai passar com milhares de pessoas todos os dias. Do limite da plataforma, onde estão postados um imenso retrosivor, um monitor com imagens da estação e um cancela amarela onde consta escrito “não ultrapasse” (ou coisa do gênero), olha-se o escuro túnel. Com a visão das coisas prontas nem imaginamos como aquilo já foi. É o mesmo que ver Claudia Cardinale hoje sem saber que nos anos 60 foi uma das mulheres mais belas do mundo. Nesse caso é o contrário, a beleza das estações no presente, não revelam o que foram no passado, lama e caos. Outro dado é que ali muitos trabalhadores deixaram seu suor e suas horas, para proporcionarem para nós (e para eles) rapidez e viabilidade para chegar em casa. Rogério Canella fez seu trabalho com uma câmera de grande formato (4X5 polegadas) com placas de cromo no lugar de filmes, sem recorrer a qualquer tipo de programa para tratar as fotos. Disse o artista em matéria a Revista São Paulo do Jornal Folha de São Paulo de 6 a 12 de junho de 2010, que fazia fotos com tempo de exposição de até 6 minutos, para se ter uma ideia da minúcia. Outro dado revelado por ele, é que percorreu a linha amarela de ponta a ponta (ou seja, muitos quilômetros) com equipamento pesado e equipamento de segurança (exceto óculos protetor), isso me lembrou de Ansel Adams trabalhando sozinho em Yosemite, com quilos e quilos nas costas. É precipitado dizer que sem o trabalho de Canella nunca iríamos conhecer os bastidores das obras do metrô, mas certamente sem ele, não teríamos a riqueza do olhar e a técnica refinada. Onde comuns viriam apenas túneis e homens trabalhando, Canella viu arte. O fotógrafo nos mostra através de grandes imagens, contrastes de claros e escuros, e em cada imagem têm-se nitidamente a impressão de claustrofobia a que os trabalhadores estavam expostos. Cada imagem traz também consigo a umidez das paredes e em muitos dá até para ouvir o eco das vozes e da sinfonia de barulhos das máquinas. Com velocidade baixíssima (suponho eu) e com tempo de abertura da cortina da câmera, como diz o autor, alto, a capitação das luzes do ambiente ficou nitidamente linda, além da refração dessas luzes nos objetos, nas máquinas e no chão às vezes cheios de pedras. A profundidade alcançada pelo fotógrafo também é destaque, muito pelo equilíbrio que faz o autor entre as partes superior e inferior de cada fotografia com o túnel no meio do quadro, dando equilíbrio e profundidade ao mesmo tempo. Realmente o trabalho de Rogério Canella além de belo, é didático, pois dá ao público uma noção de como o trabalho no subterrâneo é árduo. O trabalho também mostra claramente a evolução desse trabalho, principalmente na série da estação Fradique Coutinho, onde uma imagem de 2005 mostra um local cheio de lama, pedras e umidade, e outra de 2010 já mostra o túnel acabado, os trilhos postos, todos os cabos e iluminação perfeita. É louvável o brilhante trabalho desse artista, que durante 5 anos registrou a evolução das obras da linha 4-amarela, que hoje quem passa pela recém inaugurada estação Paulista, jamais desconfia o quão rudimentar aquele lugar já foi.


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Notas.

1. Foto de capa da Revista São Paulo do jornal Folha de São Paulo, local não informado.

2. Estação da Luz da linha 4-amarela, janeiro de 2009.

3. Estação Fradique Coutinho, maio de 2010.

4. Estação Morumbi, novembro de 2006.

5. Estação Fradique Coutinho, novembro de 2005.

6. Estação Fradique Coutinho, março de 2009.

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Obs. Todas as fotos são de autoria de Rogério Canella, retiradas da Revista São Paulo do jornal Folha de São Paulo de 6 a 12 de junho de 2010.


































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