quarta-feira, 9 de junho de 2010

Artigo.

Karnak - Estamos Adorando Tokio.


por Marlon Marques.


























Nós somos nós e um pouco dos outros. O Brasil é o país da mistura. Aqui se mixa tudo, inventamos línguas, jeitos e novas formas de amar. Há quem veja nesse pluralismo um equívoco histórico. Se bem não fez até hoje, mal também não fez. Teses do século XIX diziam que a miscigenação causava o atraso dos povos, e que as nações européias somente eram desenvolvidas por não terem promovido a mistura[1]. O Brasil hoje é a oitava economia do mundo e em alguns anos será a quinta. Muito embora ainda tenhamos muitos problemas estruturais, socioeconômicos e políticos, não dá pra dizer que a miscigenação atrapalhou o Brasil. Nem para bem e nem para mal, a Tropicália foi quem melhor enxergou a questões do choque cultural. Guiada pela antropofagia oswaldiana[2], literalmente comeu os estrangeiros e regurgitou uma cultura mesclada. Afinal, não há problema no outro (o estrangeiro[3]), não dá para usar a fórmula estadunidense de enxergar o inferno no outro, para citar Sartre[4]. Coloque sim bebop no samba, porém o Tio Sam precisa pegar no tamborim[5]. Aquela MPB rancorosa, que chamava de “lixo” tudo o que vinha de fora, deu lugar a um pluralismo que nos levou direto ao futuro, a globalização, que atende pelo nome de Karnak. Karnak é complexo e simples ao mesmo tempo. É um tipo de música que alia sensibilidade, emoção e uma certa dose de erudição. André Abujamra já havia dito a que vinha desde que confundiu as mentes menos dilatadas com os Mulheres Negras. Porém a lapidação desse projeto pan-global[6], veio com o Karnak, e especificamente com a grande obra “Estamos Adorando Tokio” de 2000. A base é rock e pop, é como um Gênesis, de onde tudo parte, como um prisma atirando cores e luzes para todas as direções. Karnak pode ser a mais completa tradução da globalização em forma de música, pois faz com que a Rússia (as duas primeiras faixas são introduções a música russa) faça fronteira com a África (ecos em “Momuntuera”, porque essa música também têm elementos irlandeses). Para reproduzir o mundo ou o Universo Umbigo[7], o Karnak lança mão de diversos músicos, de formações e culturas diferentes, tocando uma série de instrumentos, usando samples, colagens e outros aparatos tecnomodernos. As letras também recebem um capricho especial, indo do humor ao existencialismo, de filosofia a pura miscelânea cultural pós-moderna. Os ritmos são muitos, do rap ao reggae, ska, punk, funk, salsa, polca e tudo ao mesmo. Exemplo de mistureba é “We Need Nothing”, um funk torto, meio latino, dançante, engraçado e cheio de metais e o reggae com flautinha peruana no começo, “200. Bom, o disco é muito bom como um todo, porém desperta em cada um algo diferente. Como sempre temos que destacar coisas, “Depois da Chuva” é um reggae muito bonito e emocionante, e “Mediocritas” é engraçada, irônica e inteligente – são dois grandes destaques. Mas se há uma canção que sintetiza tudo isso, é a que dá nome ao disco, “Estamos Adorando Tokio”. Simplesmente uma aula de como viajar ao mundo em apenas 5 minutos. É uma viagem pela salsa, com gongas, sol, metais fantásticos e um trecho de carnaval de rua. No meio dessa viagem, o Karnak nos leva a Espanha, a Jamaica, ao Canadá e a Guiné-Bissau. Passamos por aeroportos, alfândegas, mostramos passaportes, tiramos vistos e compramos bugigangas e souvenires, tudo sem sair do lugar. Basta fechar os olhos e deixar o corpo fluir, o resto é com a música. A grande sacada fica por conta da frase: “as águas é que são felizes não tem que ter visto pra entrar no país, porque fui nascer na Romênia se o meu grande amor ainda vive em Paris”. Não há outra palavra para descrever: absoluto.



[1] Eugenia, ver Francis Galton.

[2] Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, 1928.

[3] Citação da canção O Estrangeiro de Caetano Veloso.

[4] “O inferno são os outros”, frase atribuída a Jean-Paul Sartre.

[5] Referência a canção “Chiclete com Banana” de Gordurinha e Almira Castilho gravada por Jackson do Pandeiro em 1959 e por Gilberto Gil em 1972.

[6] Pleonasmo proposital.

[7] Referência ao segundo disco da banda Karnak de 1997.


























Karnak - Estamos Adorando Tokio (Net Records, 2001).

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