terça-feira, 15 de junho de 2010

Artigo.

Quem não pode Nova York vai de Madureira: um artigo aos que se acham apenas.



por Marlon Marques.
























Estava eu pensando sozinho com meus botões sobre pessoas pobres que querem ser ricas, e que são metidas a ricas. Pessoas que não têm personalidade própria, que querem ser iguais aos personagens da tevê, afinal você não acha que essas pessoas são reais? O sujeito que é gordo se sente infeliz por ser gordo, porém ele se sente mais infeliz ainda porque o Faustão era gordo e hoje é magro e ele não pode fazer o mesmo. O caso mais expressivo de ascensão social a todo custo é Geyse Arruda. Tudo bem que para mim ela continua significando nada, até porque o que ela faz para ser admirada? Pessoas assim para mim não têm nenhum valor. Digo isso porque convivo cotidianamente com pessoas que querem ser o que não são, e o que não podem. Sabe aquela expressão famosa, “come frango e arrota caviar”, esse tipo. Pessoas frustradas com o lugar onde nasceram, com o lugar onde moram, com o cabelo, com a cor, com tudo. E mesmo vivendo em um lugar normal, andam na rua achando que estão nas passarelas da São Paulo Fashion Week. Não sou contra o progresso, sou contra a “prostituição social”, pessoas que se vendem por pouco ou quase nada nessa vida. Convivo com pessoas assim, e muito embora eu nada fale a elas sobre isso por uma mera questão de respeito, vez ou outra dou uma estocada. Há quem chegue ao cúmulo de inventar toda uma história, criando personagens, inventando fatos para dar um ar de importância a própria vida. A tática é a seguinte, já que se é pobre nessa vida, crie pelo menos uma história rica. É como faz Tom Ripley no filme O Talentoso Ripley, não se conforma com sua vida medíocre, cria, inventa e chega ao extremo de matar pessoas e se passar por elas com sua grande habilidade. Certa vez eu li uma frase que dizia mais ou menos assim: “não projete sua felicidade naquilo que pretende conquistar, mas seja feliz agora com o que tem”. E raciocinando sobre isso eu concordei. Esse adiamento constante de ser feliz, ou essa projeção para um futuro que a cada dia que se passa fica mais pra amanhã é um erro estratégico. Outro erro também é se maldizer por ter uma vida mais simples e deixar os melhores anos passarem como carros numa rodovia. Conheço pessoas que querem se casar em igrejas suntuosas com produções cinematográficas sendo que as condições apenas permitem uma cerimônia simples numa igreja de bairro. Há sonhos de grandes festas para 2000 mil convidados, lua de mel em Paris, vestidos assinados e quitutes finos, sendo que no momento a janta está à venda para interar o almoço do dia seguinte. Acredito que dá pra ser feliz com as condições que se têm. Lembrei-me de uma crônica do Arnaldo Jabor onde ele diz que as mulheres da revista Playboy e Sexy são virtuais e inatingíveis, ou seja, já que você, homem comum jamais terá uma dessas, não significa que não será feliz com a garota do bairro tão cheia de imperfeições, celulites e flacidez. Dia desses estava eu ouvindo o bom disco “O Coração do Homem-BombaVolume 1 de Zeca Baleiro, quando uma música saltou-me aos ouvidos. Essa canção chama-se “Vai de Madureira”. Nela, Zeca Baleiro ironiza justamente esse tipo de pessoa, esses com mania de grandeza que não têm, pois o título remete a isso: “quem não pode Nova York vai de Madureira”. Isso quer dizer uma coisa simples, não é porque não dá para fazer o que os ricos fazem que você não vai fazer nada. É aquela velha discussão de que pobre não é culto porque cultura é cara, ué, se não dá para ir numa peça no teatro Abril vá a uma gratuita no teatro do SESI, tão boa quanto. Agora se nem quem têm muito dinheiro justifica a arrogância, imagine para quem não têm. Embora eu respeite quem seja assim, eu não concordo com esse tipo de atitude e pensamento, é auto-engano. Que fiquem vocês então com seus caviares inventados e com suas vidas de faz de conta, fui ser feliz e já volto. [1]



Vai de Madureira.


Se não tem água Perrier eu não vou me aperrear. Se tiver o que comer não precisa caviar. Se faltar molho rose no dendê vou acabar, se não tem Moet Chandon, cachaça vai apanhar.



Esquece Ilhas Cayman deposita em Paquetá. Se não posso um Cordon Bleu, cabidela e vatapá. Quem não tem Las Vegas vai no bingo de Irajá, quem não tem Beverly Hills, mora no BNH.



Se não tem Empório Armani não importa vou na Creuza costureira do oitavo andar. Se não rola aquele almoço no Fasano vou na vila, vou comer a feijoada da Zilá.



Só ponho Reebok no samba, quando a sola do meu bamba, a sola do meu bamba, chegar ao fim.


Zeca Baleiro.


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(2).












(3).



















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(5).






Notas.

[1] Referência ao título do disco de Paulo Miklos de 2001, “Vou Ser Feliz e Já Volto”.


2. Mansões em Beverly Hills.

3. Apartamentos de Cohab, semelhantes aos do BNH.

4. Restaurante Fasano, gastronomia de luxo.

5. Boteco qualquer.


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Zeca Baleiro - O Coração do Homem-Bomba - Vol.1 (Microservice, 2008).

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