quarta-feira, 5 de maio de 2010


Artigo. 





O futebol resultado.



por Marlon Marques.























Futebol é resultado? Sim é, mas não só isso. Futebol é negócio? Sim, mas também não pode ser só isso. A seleção de 82 é lembrada hoje como a seleção que encantou mas não levou. Isso não deixa de ser verdade, mas há mais coisas aí que são ocultadas propositadamente. O futebol de hoje em que “vencer” tornou-se obrigação, deixa de lado a poesia e a arte do futebol. O jogador que dribla, é chamado de irresponsável, o que bate é exaltado. Técnicos ofensivos são chamados de loucos, retranqueiros são chamados de gênios. Pragmatismo é a palavra da moda no futebol. O São Paulo se classificou nos pênaltis diante do fraco Universitário do Peru, mas jogou um futebol pífio perto do que seu bom elenco pode apresentar. Os programas esportivos bradaram alto que o tricolor é um time pragmático. Seu técnico Ricardo Gomes tratou de se defender dizendo que futebol é resultado. Nelson Rodrigues em sua crônica “Os que negam Garrincha”, diz que antes mesmo de Garrincha pegar na bola o povo já ria. Hoje em dia isso está morto ou quase morto. O único a fazer isso hoje em dia em proporções nanométricas se comparado a Garricha, é Neymar. Porém o que dizem os ressentidos defensores do futebol pragmático, “isso não ganha jogo”, “essas firulas provocam o adversário” e “esse menino precisa aprender umas lições”. Não concordo em nada com esses comentários. Bonito é ver jogador batendo, intimidando, dando de dedo na cara dos craques e impedindo o futebol bonito. É por isso que a resposta é sempre em campo, e Ganso foi superior a Léo ao dar a resposta aos jogadores do Santo André. Léo preferiu a briga e a expulsão, já a arma de Ganso contra a truculência do Santo André foi um lindo chapéu na lateral de campo após ser alvejado pelo beque. Nelson Rodrigues diz que o craque cultiva a bola como uma orquídea de luxo, mas isso é um erro para os puritanos, esses chamam de grandes jogadores os que destroem a orquídea. Em campo hoje há muito dinheiro envolvido, por isso resultados são arranjados, forjados, comprados e não necessariamente conquistados em campo. A derrota é ruim, quem quer vencer precisa desgostar da derrota, porém às vezes uma derrota é compreendida quando o time joga bem. Assistindo ao jogo do Vélez Sarsfield contra o Chivas Guadalajara, onde o time argentino precisava marcar 3 gols para ir aos pênaltis e 4 para se classificar direto, batalhou o jogo inteiro, lutou, jogou com garra, fez 2 gols e foi desclassificado. A torcida em uníssono aplaudiu o time, suas expressões não eram de pesar e tristeza profunda. Saíram felizes de certa forma por ver o time lutando. O futebol foi bem jogado mesmo que o resultado não tenha vindo. Jogar bem é diferente de jogar bonito. O jogo bonito pode não ganhar sempre, mas também ganha campeonatos sim, Barcelona e Santos provam isso. A maioria dos times jogam com três volantes, o Santos têm jogado com apenas um. O time fica vulnerável, mas é lindo ver os contra-ataques do time da Vila, com toques rápidos, calcanhares socráticos, fintas ultra rápidas e finalizações objetivas. O Santos joga para atacar, já os demais primeiro defendem para depois atacar, vide o Corinthians de Mano Menezes. O Universitário do Peru não perdeu nenhum jogo na Libertadores, jogou 7 vezes, mas veja quantos ele ganhou? Apenas dois. O tri-campeão brasileiro São Paulo foi em todos os anos em que ganhou o título nacional, o time com a melhor defesa. A melhor defesa ganhou e não o melhor ataque. Parece uma contradição, fazer gols virou mero detalhe, dribles viraram uma patologia, uma ofensa. Não sei onde vamos parar desse jeito. Hoje o Neto disse no debate esportivo da Bandeirantes, que o melhor que o Corinthians têm a fazer contra o Flamengo precisando do resultado, é fazer um gol e ficar atrás esperando os pênaltis, nada de tentar fazer o segundo (e se classificar direto) e se arriscar e tomar um gol. O risco da derrota impede a vitória de acontecer. O risco do não impede o sim. É necessário atacar para vencer, pois quem não chuta no gol não faz o gol. A obsessão pela vitoria, levou a uma lógica da vitoria a todo custo, sendo que os custos estão cada vez mais altos. Dois exemplos extremos. O tirano Saddam Hussein certa vez mandou cortar o pé de um jogador da seleção iraquiana de futebol por ter perdido um pênalti nas eliminatórias asiáticas e desclassificar a seleção do país para a Copa do Mundo. E o jogador Escobar da seleção colombiana, que foi assassinado por ter feito um gol contra na partida contra os Estados Unidos e eliminado sua seleção da Copa de 94. O futebol é um jogo, apenas um jogo, mas com essa obsessão inserida ele vira mais do que isso, vira a própria vida das pessoas. Torcedores infartados, jogadores assassinados, dirigentes envolvidos em esquemas de corrupção, jogos fraudados e espetáculos transformados em arenas de gladiadores. O resultado é importante para a visibilidade de um clube, para sua receita, com cotas de TV e patrocinadores. Grandes patrocinadores procuram times vencedores, marcas que lhes tragam lucros e retorno. Se Fluminense e Palmeiras nada ganharem nos próximos anos, dificilmente a Unimed e Traffic continuaram a despejar seus recursos nesses clubes respectivamente. Porém isso não pode aleijar nosso futebol. A TV não pode ser mais importante do que o espetáculo em si. A força têm superado a técnica para obter os resultados, mas de tempos em tempos o futebol arte vêm a tona para mostrar que é possível, “yes we can”. E ótima a gozação de campeão da segunda-feira, é ótimo ver seu time estampado na capa do jornal com títulos pomposos, mas também é ótimo ver seu time jogando o fino da bola e despachando os adversários um a um ante a um futebol mágico advindo de um outro tempo. Repito, é ótimo ganhar, mas se for para perder, que seja jogando bonito e encantando, obrigado seleção de 82 por mostrar o que é futebol, pois resultado nós já sabemos por todos os dias de nossa vida.



















































































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