domingo, 4 de abril de 2010


Artigo.

Sujos e mal lavados – a ética do meu e a ética do seu.



por Marlon Marques.




























Arena Barueri, domingo, dia 7 de fevereiro de 2010. O jogo é São Paulo e Santos válido pelo campeonato paulista. Ainda no primeiro tempo, André lança Arouca, Miranda o desloca com o braço e o árbitro marca pênalti para o Santos. Neymar se prepara para bater o pênalti, em sua frente o grande goleiro Rogério Ceni. Neymar corre pra bola, bate com o bico da chuteira no chão, a finta faz Rogério Ceni deslocar-se para o canto direito, canto esquerdo aberto e o atacante santista só empurra para o gol. Gol! Morumbi, domingo, dia 4 de abril de 2010. O jogo é São Paulo e Botafogo de Ribeirão Preto também válido pelo campeonato paulista. Pênalti a favor do São Paulo, o capitão Rogério Ceni se encaminha para bola. Bate o pé no chão, o goleiro Weverton mal se mexe na meta, Rogério bate e Weverton pega. Qual a diferença entre o pênalti batido por Neymar e o pênalti batido por Rogério Ceni? A diferença é básica, é o famoso “pode com os outros, mas não pode comigo”. Após a paradinha dada por Neymar, Rogério Ceni declarou que tal artifício é ridículo, e somente na “várzea” que é o futebol brasileiro isso é permitido. É no mínimo um contra-senso. Acredito eu que uma pessoa só pode criticar outra pessoa por alguma atitude, desde que não cometa a mesma. Um homem infiel nada pode dizer caso surpreenda sua mulher com outro homem. Ambos estão errados. O erro de um é o erro do outro. O futebol costuma pregar algumas peças, e essa foi mais uma. Um dia de caça e outro de caçador. Rogério criticou a paradinha dada por Neymar contra ele, mas porque ela a usou contra Weverton uma vez que é contra isso? Rogério Ceni é daqueles jogadores como Ronaldo, idolatrados e incontestáveis. Quando sofreu a paradinha, soube bem usar os microfones para dizer o que quis a respeito da artimanha. Suas declarações quando usou a paradinha sem sucesso, nada se referiram ao uso várzeano da finta. Mesmo antes do lance com Neymar, Ceni já havia usado o recurso, mas optou por esquecer-se disso. Ceni transita bem entre os dois pólos, pois é ao mesmo tempo defensor e atacante. E esse é um problema típico de público e privado. O articulado goleiro talvez não conheça rasamente a ética. O que se faz na rua, não se faz em casa. Há um “modus operandi” na rua e outro em casa. Porém o mundo do futebol é arbitrado por regras que valem para os dois lados – a mesma regra. O que vale para um, deve valer para o outro. No caso de Ceni não. Ele quer se beneficiar do artifício, mas quando alguém se vale dele contra ele aí não vale. Rogério Ceni não criticou Neymar, mas criticou o uso da paradinha. Porém como criticar algo que você mesmo faz? Rogério se esquece que “quem com ferro fere com ferro é ferido” – antes de Neymar usar contra ele, ele a usou contra outros goleiros. E é aí que está o nó. O Ceni goleiro tem uma ética, a ética do contra mim, e o Ceni atacante (no sentido de atacar) tem a ética do a meu favor. Contra mim nada, a meu favor tudo. “Venha a nós, e ao vosso reino, nada”. O que o goleiro artilheiro precisa entender melhor é que a ética universaliza, não fragmenta. O que vale para ele deve valer para os outros também, principalmente quando se trata de um rito em que os atores estão em pé de igualdade. Até o pênalti de Neymar, Ceni não havia se pronunciado contra a paradinha, porque se beneficiava dela e talvez não tenha sofrido com ela. A partir do momento que sofreu, a criticou. Porém no momento seguinte, passou a usá-la. Como usar algo que se é contra? É não só incoerente, mas contraditório. Que ele é um grande goleiro, não temos dúvida. Que é habilidoso, líder em campo e diferente, também não. Mas isso não quer dizer que não se equivoque. Ele erra também, assim como Ronaldo. Ceni precisa aprender a usar pesos e medidas iguais quando se fala em regra, ou alguém já o viu se pronunciando a respeito de se adiantar na cobrança de pênaltis? Esse artifício – não previsto nas regras do jogo, diferente da paradinha – ele endossa uma vez que se utiliza dele. Mais uma vez entra na ética do a meu favor. Adiantar-se é tomar proveito e burlar a regra, é um traço exemplar da nossa brasilidade, maldição ou condição. A paradinha é um expediente permitido, o adiantamento do goleiro não, e a posição de Ceni vai variar de acordo com sua condição no jogo. Quando há um pênalti contra seu time, ele defende o adiantamento e é contra a paradinha – pois está na condição de goleiro. Quando o pênalti é a favor do seu time, ele é contra o adiantamento e a favor da paradinha – pois está na condição de batedor. Tudo depende da ordem dos fatores. Pessoas públicas formadoras de opinião, precisam de cautela ao se pronunciar. Uma palavra mal colocada pode gerar na “horda” de fanáticos reações impensáveis e incalculáveis. Lembre-se do caso do goleiro Bruno do Flamengo sobre agressão a mulheres e do presidente do Palmeiras Luiz Gonzaga Belluzzo no episódio do “vamos matar os bambis”. Como disse Platão, “a palavra é como o veneno das cobras, tanto pode matar com salvar” – em forma de antídoto. Rogério Ceni ao inverter certas lógicas ou ao defender coisas erradas, acaba dando margem para que seus admiradores mirem-se em seu exemplo. Portanto, é necessário bom senso ao se pronunciar e ao aderir certas posições, pois credibilidade é como confiança, demora-se anos para conquistar e segundos para se perder.














































































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