quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Artigo.

A mercantilização da Fé e a anti-ética da coação.


por Marlon Marques.

































Li recentemente num jornal evangélico de boa circulação, uma matéria intitulada: “Fé – um serviço de utilidade pública?”[1] Fiquei intrigado com o título, mas não decidi ler a matéria. Fiquei intrigado com essa questão da fé como um serviço. Eu confesso que não entendi o que os editores do jornal ou o colunista assinante da matéria quis dizer com “serviço”. O fato é que me pareceu um certo entregismo da parte deles ao se colocarem como mercadores da fé, como prestadores de serviço que eventualmente podem cobrar por ele. O que mais assusta é que, no estágio em que o capitalismo chegou, até a fé tornou-se um produto, manipulado por certos formadores de opinião auto intitulados arautos de Deus. A desculpa é sempre a mesma: “irmãos, para que possamos continuar lhes prestando esse serviço de fé com tanto empenho e eficácia, é necessário ajuda em dinheiro para nos mantermos no ar”. Só que esses programas são auto-referentes, pouco se fala em Deus ou em sua palavra (apenas uma oração no final), falam de suas ações, divulgam seus cantores (para venda de discos e dvds), vendem produtos, anunciam, afinal, a propaganda é a alma do negócio. Deus não é tratado como finalidade das coisas, mas sim como meio, um meio de se obter algo. A teologia da prosperidade é usada para conciliar Deus e dinheiro sem culpa. É só lembrar do ótimo livro “O desconforto da riqueza” de Simon Schama para entender essa questão a fundo. E o irônico de tudo isso é que tudo não passa de uma troca. Enquanto eu ganho na terra (os religiosos), vocês ganham no céu (os fiéis). Isso é literalmente vender terreno no céu. É um negócio muito lucrativo. Os judeus sempre tiveram uma relação bem diferente com o dinheiro. Permitiam a usura e o enriquecimento era (é) muito parecido com os dos cristãos flamengos (descritos no livro de Schama). Não era uma riqueza para ostentação, para o mundo, e sim para si, porém sem deixar de lado os compromissos com Deus e cair na auto-indulgência. E por falar em indulgência. É ridículo esse conflito claramente aberto entre católicos e evangélicos. Os primeiros se dizem certos por serem os guardiões da tradição, os segundo se dizem certos por serem os mais corretos e seguirem mais a palavra. E no final ambos estão equivocados. Justamente por que não seguem o mandamento supremo de Jesus, o amor. Na Irlanda via-se nitidamente a inversão da vontade de Cristo, pois ambos os cristãos, ao invés de se amarem, se odiavam. E nesse ponto, ambos se igualam. Lutero que era católico, iniciou o protestantismo justamente por querer uma igreja mais casta e honesta. Era realmente absurdo o que os clérigos católicos faziam com a fé. Venda de indulgências, de relíquias falsas, (simonia), etc. A fé solapando a razão proporcionava a cegueira do povo que piamente acreditavam em tudo. E manter o povo analfabeto foi justamente uma das estratégias mais perenes da igreja até a Idade Média. Mas, essa macula no passado católico em nada é diferente da prática contemporânea dos evangélicos - lembrando que não podemos generalizar em ambos os lados. Enquanto os fiéis se distraem com as estrelas da música gospel, com o aprendizado de instrumentos musicais e outras coisas (não lhes tirando a sua importância), se distanciam cada vez mais do livre exame das escrituras, um dos pilares do protestantismo (além do exame rigoroso). Isso é o mesmo que manter o povo analfabeto. Por outro lado, os evangélicos também são usados como financiadores das igrejas e de seus líderes. Pastores criam congressos aos montes sobre assuntos que deveriam ser abordados nos cultos (gratuitos), somente para cobrar a entrada e faturar. Isso sem contar os cachês caríssimos cobrados por estrelas gospel para cantarem em igrejas que não as suas. As pessoas levam tão a sério a fé, que são capazes de fazer muitas coisas irracionais em nome dela ou coagido por ela. Saramago condena muito o Deus do antigo testamento, mas se esquece que até mesmo Deus não está livre da (má)nipulação dos homens. Lembrem-se do pai da fé, Abraão. Que levou seu filho Isaac ao monte para sacrificá-lo em nome de sua fé. A palavra fé, tem um significado muito poderoso para as pessoas, pois está em cheque não apenas sua vida post mortem, mas também a sua vida na terra. Todos temem um castigo de Deus, todos temem a ira de Deus, e tal como Saramago, se esquecem que serão alvos da irá de Deus aqueles que agirem mal. Deus é amor também. Mas nem mesmo o amor, pode tolerar tudo. Deus é humano (no sentido literal de humanidade), pois além de ternos feito sua imagem e semelhança (reflexivo), também age como nós as vezes. Embora não seja personalista e passional como os deuses greco-romanos, também partilha de sentimentos tão humanos quanto os nossos. Me irrita muito a essa questão de os líderes espirituais a toda hora dizerem que se “você não fizer isso irá desagradar a Deus”. Isso é coação. Agora voltando a questão da fé como serviço, é de fato uma visão mercantil. A fé é tão importante na vida das pessoas quanto comer e dormir. Então esse é um serviço de que muitos precisam. E da mesma forma como a Igreja no passado condenou a usura judaica, dizendo que: “juros é cobrança sobre o tempo e o tempo pertence a Deus, portanto é errado”, o mesmo se fez e se faz hoje. A fé é a canalização de nossas esperanças em Deus, é nossa crença na providência de Deus, então aquele que manipula, vende ou comercializa a fé, se aproveita das coisas de Deus em benefício próprio, contradizendo Êxodo 20:3,: “Não terás outros deuses diante de mim”. Para finalizar, citarei dos exemplos emblemáticos. Um é o pastor Valdemiro Santiago, que é considerado pelos fiéis de sua igreja como um verdadeiro Deus, pois o seu suor é capaz de curar enfermidades (sem se quer evocar o nome de Deus muitas vezes).[2] O outro é o também pastor Silas Malafaia. Dia desses em seu programa estava o pastor Morris Cerullo, que teve a coragem de pedir ao vivo uma oferta de 900 reais. Concluo que a boa vontade não tem preço, e se a pessoa quiser ajudar sua agremiação, associação, igreja, o que for, ele é livre (arbítrio) para fazê-lo. Porém a indução desse ato sob coação de fé é o que questiono, e mais, usando o nome de Deus para chancelar tal atitude.[3] E nesse momento é necessário fazer como Cristo ao achar a moeda imperial no chão, “credite aos homens o é que é dos homens e credite a Deus o que é de Deus”, pois Deus não pode ser envolvido no oportunismo atemporal dos homens.



[1] Jornal Show da Fé – Ano 3, n. 44, setembro de 2009 – Igreja Internacional da Graça de Deus.

[2] Igreja Mundial do Poder de Deus.

[3] Ex. 20: 7.








































































































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Um comentário:

  1. Anderson Monçores1:56 AM

    Caro amigo...
    Desde eras promordiais, somos levados a crer em algo, seja no coletivo imaginario, seja de maneira solitaria, seja por realidades ou mero acasos.O que realmente importa é que se naum fosse da forma em que se apresenta o mundo a nossa volta as palavras de Jesus, como tambem as palavras de Jeova seriam consideradas falsa...
    Jesus disse e assim esta escrito:
    " O TEMPO PASSARA, MAS MINHAS PALAVRA NÃO PASSARAM".
    Imagine se poucas pessoas no mundo tivessem um simples conhecimento nisso, se fosse uma frase rara, escrita num pedaço de papelque apenas um e outro sabem que existe.
    Então nesse caso Jesus seria um mentiroso!
    E ele não o é!
    As "vendas" e "compras" de fé bem como toda a sua "manipução" é porque este mundo não esta em conflito com o que foi falado e escrito.
    Aceite o mundo sem fazer parte dele, não o critique, nem pra bem e nem pra mal, esse mundoesta do jeito que deve estar.
    Tentar muda-lo é tentar ir contra a vontade e observação de Jeova.
    Não devemos fazer nada? É o que deve estar se perguntando.
    Quando não fazemos nada nada acontece.
    O probelma é, se fizermos o que acontecer, pode ser de consequencias negativas, e ai odemos ter percebido que deveriamos ter feito nada.
    Ha momentos em devemos agir, momentos que devemos fugir e momento de ficarmos inertes.
    Mas entodos os momentos devemos confiar em Jeova, ele sabe qual é o momento apropriado.

    postado por Anderson Monçores
    p.s. Não sou testemunha de Jeova

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