sábado, 10 de outubro de 2009

Crônica.

A vinícola da Gávea.


por Marlon Marques.




































O São Paulo é tido e havido como o grande reabilitador de velhos [e machucados] craques no futebol brasileiro. Não há dúvida de que o refis do tricolor é ótimo, estrutura de primeiro mundo, mas também não há como discutir o fato de que é o no Flamengo que os jogadores mais velhos brilham. Só para termos uma ideia, Zico com 34 anos, encantou a nova geração e levou o Flamengo ao título da Copa União ou Campeonato Brasileiro de 1987. Júnior é outro caso. Aos 38 anos, trocando a lateral pela meia, Júnior com seus cabelos já grisalhos, comandou o penta campeonato do rubro-negro. O ditado é inevitável, “é que nem vinho, quanto mais velho, melhor”. E Petkovic tem provado isso. O sérvio foi muito humilhado na gávea quando voltou pela segunda vez ao clube que o consagrou em solo brasileiro. Da diretoria aos jornalistas, dos torcedores aos rivais, todos riram do velho "Pét" – como é chamado – e não acreditaram que poderia apresentar um bom futebol. Seus antecedentes recentes não lhe davam crédito. Passagens discretas por Santos, Goiás e Atlético-MG, macularam sua credibilidade. Claro que no Santos, teve a honra de vestir a camisa do rei do futebol. Petkovic começou no banco. Andrade mal o aproveitava, e o colocava somente por falta de opção. Após contusões de vários jogadores, com o elenco reduzido, Andrade não teve escolha a não ser dar uma nova chance como titular ao velho sérvio. Essa nova passagem de Pét lembra muito um jogo mítico em que ele mesmo atuou. Foi um Flamengo X Vasco na final do carioca de 2001. Pét estava mal no jogo. Não acertava passe, lançamento, drible, chute, nada. Até as cobranças de falta que são sua especialidade, não estava acertando. Até que, aos 42 do segundo tempo, Pét dá o título ao mengo, jogando uma bola no ângulo de Élton. Golaço indefensável e nem se o arqueiro cruz-maltino tivesse asas pegaria. Pét foi de vilão à herói em poucos minutos. Saiu ovacionado. Lembrei desse jogo pela reversão da situação. Pét chegou desacreditado, e hoje divide as atenções com Adriano. Chegou vilão, “está” herói. A torcida está em lua de mel com o velho craque. Que cá pra nós, está jogando muito. São passes de quarenta jardas á lá Gérson. São dribles curtos, como passos de balé, uma visão de jogo sem igual, como se estivesse sobrevoando o campo como uma gaivota na praia de Ipanema. O velho voltou e voltou muito bem. Está até marcando gols, já foram cinco, fora as assistências, milhares. Adriano após perder Emerson para o mundo árabe e não se entender com Denis Marques, parece ter encontrado no velho Pét o parceiro ideal. O faro de goleador do imperador encontra nos passes precisos do velho maestro a medida certa. Parece até que vão levar o Flamengo á libertadores. Será? Petkovic é a lição de que não devemos subestimar as pessoas. Ídolos como ele, sempre merecem credibilidade e uma segunda chance, principalmente para entrarem em forma e demonstrarem em campo se podem ou não jogar. Pét tem nos mostrado o fino da bola, tem nos dado a dimensão de um futebol orquestral, pois ele trata a bola como o musico trata seu instrumento. É uma relação de intimidade, coisa que poucos conseguem. Ele a trata tão bem, que não há como ela o desobedecer. Ela vai onde ele quer. Se ele pede para que ela vá para Adriano, ela vai. Se ele pede que ela vá para Léo Moura, ela vai. Se ele a ajeita na entrada da área e pede para que ela durma com as corujas, ela vai. Aí é só ouvir o frisson do Maracanã lotado, e correr para o abraço. O jogo contra o Coritiba no brasileiro de 2009, vai entrar para os anais do Flamengo não como o jogo em que Adriano fez um golaço de cobertura. Mas sim como o dia da ressurreição de Pét. Ele jogou muito, deu passes, assistências e ainda fez um golaço de falta, como nos velhos tempos. Uma cobrança magistral, onde a bola descreveu um parábola no ar, girando e deixando-se encurvar para sair do alcance do goleiro. E foi a partir desse jogo que as coisas mudaram para ele, como “da água para o vinho”. E um vinho sérvio safra 37 anos, idade de Pét, que se não com títulos, mas com bom futebol, irá figurar junto com Zico e Júnior, o hall dos velhos craques da gávea.



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