quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Artigo.

Rio 2016 – triunfo de uns, desgraça de muitos.


por Marlon Marques.


































Ouvi muitas coisas a respeito do Brasil ter ganho o direito de sediar os jogos olímpicos de 2016. Porém uma das mais absurdas foi a de quê dessa vez, será diferente em relação a fiscalização da verba para viabilizar o evento. Já começou mal. Só para ir a Copenhagen a delegação brasileira – composta por mais de 80 pessoas – gastou algo em torno de 85 milhões de reais. Isso é um absurdo. Como acreditar que será diferente? Porém, vejo também o Brasil com mínimas condições de realizar os jogos, além de acreditar [como muitos] de que tanto Copa do Mundo, quanto Olimpíadas sejam coisas supérfluas ante as necessidades que temos no país. O Pan do Rio já foi um desastre. Todos sabemos que as obras foram superfaturadas e atrasaram em relação ao tempo estipulado para entrega das instalações. Veja a diferença, Londres já entregou ao COI suas instalações 100% prontas, sendo que os jogos serão só em 2012. Aqui com certeza isso não ocorrerá. Assim como todas as obras públicas, acredito que essas também atrasarão, por todos os problemas envolvidos, seja orçamento, empreiteiras, terrenos, etc. Outra ironia é que as melhorias estruturais só ocorrem por conta de um evento esportivo ou visita de personalidade internacional, ou seja, só para o bem estar da população não é feito. Outro problema é que não há utilidade pós-jogos olímpicos, é notório o exemplo da vila do Pan, abandonada, deixada as traças, com mendigos morando nas dependências e todo o dinheiro utilizado nessas construções jogado ao ralo. Ninguém gosta de admitir, mas o Brasil é o país do futebol. É esse esporte que faz a cabeça da maioria das pessoas, que atrai a maioria dos patrocinadores, é o que arrecada mais, o que paga mais, entre outras coisas. Os outros esportes não tem esse apelo, tanto por uma questão cultural, quanto por uma questão educacional, e porque não de negócios? O esporte deixou de ser só um mero divertimento ou ocupação. Só de exemplo, na Copa do Mundo de 1954, a maioria dos jogadores da seleção da Hungria, ocupavam cargos remunerados no exército do país, ou seja, o futebol não era a ocupação principal, e nem financeira. Hoje é diferente. Não há evidências de que as modalidades olímpicas irão gozar de popularidade e competir com o futebol por investimento. O tênis na era Guga, chegou até a esboçar uma reação, assim como anos atrás a seleção campeã do mundo de vôlei em 92 nas Olimpíadas de Barcelona. O que aconteceu? Porque esses esportes não conseguiram brigar cabeça com cabeça com o futebol? A ginástica olímpica recentemente passou por apuros financeiros, lembram-se do drama de Jade Barbosa? Hoje é tudo euforia, festa, farra, só porque o Brasil ganhou a disputa de sediar os jogos. O ufanismo é praxe em nosso país do futuro que nunca chega, desde questões importantes a questões mais importantes entre as menos importantes, como o esporte. Outro grande erro é depositar toda nossa esperança num país que ainda não existe e que talvez não emplaque da forma como está sendo anunciado. Refiro-me ao país do pré-sal. A propaganda televisiva da Petrobras diz que no pré-sal não há apenas petróleo, há um outro país. Esse país com certeza será também cheio de contradições e inversões de prioridades como o nosso. Esse ano, 2009, na mesma cidade dinamarquesa, haverá uma conferência importantíssima sobre as questões ambientais. Porque tanta euforia por causa do petróleo se uma das ordens do dia é substituição da matriz energética? É fato que o Brasil é um país emergente. É fato que a crise financeira mundial não nos afetou como previu o Morgan Stanley e outros bancos analistas mundo afora. Porém, esse crescimento deveria ser direcionado para o crescimento do país enquanto civilização, não enquanto nação. Eu explico. Civilização é segundo o dicionário Aurélio, “o conjunto dos aspectos da vida material e cultural de um grupo social em qualquer estágio de seu desenvolvimento”, enquanto que nação pode ser: “o povo dum território organizado politicamente sob um único governo”. Ou seja, a civilização é o povo e somente ele, enquanto que a nação somos nós sob um governo. É claro que trazer as Olimpíadas para cá foi um jogada política e tanto. Lula trouxe a Copa do Mundo e as Olimpíadas, os eventos máximos dos esportes. Assim, Lula não só conquista o apoio da comunidade esportiva para futuros pleitos seus ou dos apoiados por ele, como conquista também a cidade e o estado do Rio de Janeiro inteiro. Claro que só os que são a favor do evento. As Olimpíadas não são para nós, é para o governo e para os atletas. É balela essa história de que quando um ganha, ganhamos todos, mentira! Ganhamos todos quando hospitais são construídos. Ganhamos todos com novas e melhores escolas. Ganhamos todos com emprego e renda digna. Aí nós ganhamos. O Rio comemora as Olimpíadas, e o resto do Brasil, como fica?. Você sabe onde fica “Tomar do Geru”? É uma cidade do interior do Sergipe. As pessoas dessa cidade podem até estar felizes com o evento olímpico, mas em que ele mudará suas vidas? Em nada. Euforia e glória esportiva não enche barriga, alimenta só o espírito. E é muito fácil alimentar o espírito, quanto nossa barriga está cheia. Aí entramos na análise das cidades concorrentes. Tanto Tóquio, quanto Madri, quanto Chicago possuem mais coisas em comum do que terem perdido para o Brasil, são cidades estruturadas [em países estruturados]. Problemas todas possuem, é óbvio, mas nada parecido com o Rio. A educação do Rio de Janeiro é reflexo da educação brasileira, de péssima qualidade. Os transportes e o sistema de saneamento básico idem, vide o número de favelas que existem no Rio. Emprego, é outro problema. É notório que muitos cariocas – assim como oriundos de outras cidades – vêem a São Paulo em busca de oportunidades de emprego. É em São Paulo que estão as melhores e mais abundantes [não tão abundantes assim] oportunidades de emprego. Isso denota que no Rio de Janeiro a situação não é das melhores. Agora seria para comemorar caso a noticia fosse: “governo cria novos postos permanentes de emprego”. Isso sim. E com detalhe, "postos permanentes". O argumento de que os jogos olímpicos geram emprego é também falso. Falso porque são empregos temporários, sejam durante a construção das instalações, ou durante os jogos. E depois? De onde o povo demitido tirará verbas para seu auto-sustento? Outro grande, se não o maior problema do Rio, é a segurança. É evidente que existe um caos na segurança no estado inteiro, e que para que qualquer coisa aconteça é necessário pedir autorização para os traficantes. Então eu estou querendo dizer que outra ironia está se desenhando. Será necessário fazer um acordo com os traficantes para que haja paz durante os jogos. Ou seja, concessões serão feitas, exigências atendidas e o problema, junto com a moral do estado, empurrada para debaixo do tapete. As demais cidades com certeza possuem índices de violência urbana bem menores do que os do Rio, e até de cidades como São Paulo, Vitória e Recife, tão violentas quanto o Rio. Não somente financeira, mas estruturalmente, as demais cidades tinham [tem] melhores condições. Por uma simples razão. A lição de casa deles já está feita. Eles não tiram dinheiro de outras áreas para investir no esporte. O esporte além de já fazer parte do currículo educacional, sobretudo dos americanos, é considerado secundário. O investimento principal são nas áreas sociais, econômicas e educacionais. Até arte e cultura são secundárias. É só lembrarmos do plano Marshall. O que o Japão fez com a verba do plano, jogos olímpicos? Claro que não. Investiu em educação e tecnologia para transformar a realidade do país. Primeiro matamos a fome do povo, depois, damos estabilidade a ele, para só depois entretê-lo. É um pão e circo ao contrário. É como na pirâmide de Maslow, há necessidades e necessidades, e o país que não seguir esses princípios, tenderá ao fracasso no longo prazo. Não adianta termos potencial econômico se não temos preparo educacional para lidarmos com isso? Só para voltarmos ao Japão, o país realizou os jogos em 1964, quase vinte anos depois de seu processo de reestruturação. A África do Sul é outro exemplo negativo. Com milhões morrendo através da AIDS e de fome, além de guerras internas, o país prefere sediar uma Copa do Mundo do que minimizar seus problemas. É claro que muito dessa obsessão olímpica tem haver com relações internacionais. No projeto brasileiro de liderança latino-americana, sair na frente nessa disputa soma pontos com os vizinhos. O Brasil mostra dessa forma que é um competidor de peso, e que tanto em questões esportivas, comerciais [como suas atuações na OMC], políticas [caso Honduras] e ambientais [todo discurso para convenção de Copenhage], pode ganhar de nações potentes. O Brasil ainda é pequeno, com grandes sonhos e grandes trapalhadas. Precisa se lembrar de que é apenas “emergente”, não colocou a cabeça para fora no oceano do primeiro mundo. Pois o discurso é esse, de que vão acabar com as favelas, o problema do trânsito será resolvido, o problema do saneamento também, haverá investimento em transporte e segurança pública para que o evento seja de primeiro mundo. Talvez o ótimo vídeo de Meirelles retrate um Rio real que ainda não existe. Que a cidade continua linda, isso nós sabemos, que o povo é maravilhoso, parcialmente, mas não devemos nos iludir com belas imagens. Marcelo Coelho, articulista da Folha de São Paulo em seu artigo “inocências de classe média”, nos lembra que o mesmo Fernando Meirelles dirigiu o premiado “Cidade de Deus”. Onde será que estará esse Rio em 2016? Um problema gera outro, e soluções amadoras, geram problemas profissionais. A própria cidade do Rio de Janeiro no início do século passado, realizou um processo de reurbanização que consistia em expulsar os negros das vistas da elite e remover os cortiços para bem longe também. A conseqüência disso foi que esses muitos desabrigados sem ter para onde ir, começaram construir suas casas nas regiões altas nos arredores da cidade dando origem aos famigerados “morros”. Não sei que tipo de conseqüência urbanística e social poderá ocorrer com os jogos olímpicos, mas que muita coisa irá mudar, irá. O Brasil quer ser o que ainda não é, e mais por vaidade e por confiança, quer realizar tanto a Copa do Mundo quanto os jogos olímpicos. O Brasil confia no novo país, o país do pré-sal, do investment grade, do superávit, do G-10, mas se esquece que o Brasil de hoje não pode ficar a mercê do Brasil do amanhã. Se compararmos em números os principais indicadores econômicos e sociais, teremos uma noção mais exata das discrepâncias. Se compararmos o PIB, veja a diferença colossal para os Estados Unidos, 14,02 US$ trilhões contra 1,98 US$ trilhão do Brasil. Renda per capita, entre os três tirando o Brasil, a menor é a do Japão com 33,577 US$, sendo muito superior a do Brasil com 10, 326 US$. Enquanto que Espanha, Japão e Estados Unidos empatam na décima - oitava posição no ranking da alfabetização, o Brasil ocupa o nonagésima posição. Em IDH os três figuram entre os quinze primeiros no ranking, enquanto que o Brasil é o septuagésimo quinto do ranking. Agora se o quesito for carnaval e futebol, o Brasil é campeão. Eu não seria contra nenhum desse dois grandes eventos esportivos no Brasil caso nossas questões mais importantes estivessem se não resolvidas pelo menos minimizadas. Mas não aceito, frente a situação que o país se encontra. Se pensarmos na esfera privada, nada há do que reclamar. Mas quem é que usufrui desse tipo de serviço? As classes mais abastadas do país. Porém os desfavorecidos, utilizam a esfera pública. Pense em saúde, educação, transporte, lazer, segurança, ou qualquer outro serviço público e o associe a qualidade. O que teremos é decepção, nada da esfera pública funciona. Se pensarmos também em carga tributária, veremos o Brasil também no topo. Segundo dados do Impostômetro da ACSP, o brasileiro já pagou mais de 765 bilhões de reais em impostos a união, podendo chegar a 1 trilhão até o fim do ano. Bom, 85 milhões desses 765 bilhões já foram gastos pela comitiva para ir a Dinamarca, e o resto? A conta do Rio 2016 gira em torno de mais de 11 bilhões de reais, dinheiro esse que poderia ser utilizado para reparos emergenciais como reformar os hospitais cariocas e equipá-los com médicos e remédios. Enfim, essas são algumas razões para que as Olimpíadas sejam algo desnecessário para o país, porém, sei que há uma contrapartida para isso, e que em breve aparecerá por aqui.






































































































































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3 comentários:

  1. Acho sacanagem o Brasil fazer as olimpiadas, o país tem coisas bem mais importântes para se preocupar do que ficar gastando o que não pode só por capricho, pois é isso que está aparecendo.Como um pais que não dá nenhum apoio aos jovens esportistas quer ser sede de uma olimpiada?Uma país que não tem capacidade de dar assistencia ás escolas de treinamento, que não tem capacidade de organizar competições em periferia quer organizar um evento com tamanha proporção?
    Só em pensar o quanto o Brasil vai gastar até chegar os jogos, dinheiro que poderia estar voltado para coisas bem mais importântes, bem mais úteis, o Brasil está gastando uma grana que depois das olimpiadas não tem mais volta.
    Bom, sou totalmente contra esses jogos aqui no Brasil, como vc sitou no post existem países bem mais capacitado para isso.

    Beijos!

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  2. Henrique Ferreira10:15 PM

    Ouço muitos comentários no meu trabalho e nas ruas a respeito do Rio 2016, vejo como as pessoas lidam com estas questões de domínio público e como elas atribuem pouco valor as ações tomadas por nossos representantes.

    Quase sempre,quando entramos no mérito das olimpíadas, noto que as pessoas no modo geral,sabem que sediar uma olimpíada requer um gasto muito elevado de verbas públicas, elas sabem que, neste tipo de empreendimentos, não se é difícil que haja superfaturamentos e desvios de recursos da União. No entanto, boa parte destas pessoas as quais tenho contato diário no trabalho, principalmente os cariocas, estão vislumbrados com a idéia de sediar os jogos olímpicos, a alegação é sempre a mesma, a falsa idéia de geração de empregos(como se não soubessem que são temporários), o giro do capital, a movimentação da economia através do turismo entre outras destas coisas que por si só não se sustentam. Eu faço um pergunta a grande massa que apóiam / apoiavam a candidatura do Rio para os jogos de 2016: Mesmo sabendo que há tantas outras prioridades ao Estado do Rio e em todo território nacional e, ainda considerando que poderão haver falhas graves na má administração e fiscalização do uso de recursos públicos nesta empreitada, não seria mesmo um capricho, ter os jogos em nosso quintal? Muitos de vocês que apoiam a vinda destas delegações esportivas ao Brasil, mas boa parte dos cariocas, não terão a oportunidade de assistir, sequer a uma partida de tênis de mesa (algo um tanto impopular no Brasil).

    Bom, o carioca sabe onde seu calo aperta, e sabemos que não é unanimidade o apoio dos cariocas aos jogos , mas , o que me pareceu é que a maioria se mostrou satisfeita com a vitória brasileira, o que resta, é só lamentar quando não funcionar escolas, transportes, quando não se tiver segurança e serviços de primeira necessidade aos quais a classe trabalhadora sente na pele todos os dias.

    Henrique Ferreira

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  3. Anônimo5:36 PM

    Junior

    Veja bem caro Marlon, restringindo – me apenas à questão de investimento no esporte, citarei o conteúdo de uma matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo de 11 de outubro deste ano.

    Essa matéria apresenta um investimento de cerca de R$80 milhões de reais desde 2007 na reforma de campos de várzea localizados apenas na cidade de São Paulo.
    É óbvio que devemos considerar que o futebol é um esporte de grande apelo em nosso país, ou seja, um esporte de massa que arrasta multidões...
    Mas, porque não se verifica tamanho investimento em outros esportes? Existem apenas praticantes de futebol em nosso país?
    Fica difícil tornar – se uma “potência olímpica” sendo um país de um esporte só!! Futebol é possível assistir em diversos canais que até se perde a conta...Campeonato brasileiro das séries A e B, inglês, italiano, alemão, entre outros. Jogos da seleção brasileira, qualquer amistoso “caça – níqueis” e meia – boca é transmitido!! Com relação aos outros esportes, vôlei só quando é jogo das seleções masculina e feminina e valendo por torneios importantes... Basquete só se for em Olimpíadas (que há muito nossa seleção masculina de basquete não participa)... Tênis, nem na época do Guga... Natação, fora Olimpíadas, alguns torneios no Brasil que contem com nadadores de renome de nosso país e lambam as unhas... Fora outra gama enorme de esportes sem prestígio em nosso país!! Já futebol....

    Com todos esses fatores que apresentei acima, fica fácil saber porque o futebol é tão adorado no Brasil, já que é o único esporte que é transmitido exaustivamente pelos canais abertos de televisão e são pouquíssimas as pessoas que reúnem condições de pagar canais fechados....

    Luiz Barreiras JUNIOR Abraços!!!

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