quarta-feira, 7 de outubro de 2009


Artigo (Análise de Vídeo-clipe).

Radiohead - All I Need.

por Marlon Marques.



































"All I Need" é uma contundente crítica a desigualdade do capitalismo acentuada pela globalização. Grandes corporações multinacionais espalham sua linha de produção por diversos países a procura da mão-de-obra mais barata possível. O mais interessante disso tudo, é que todos sabemos e nada fazemos a respeito. Todos são culpados, eu, você, os países, as empresas, os governos. Todos temos nossa parcela de culpa, como diz a boa frase: “não há inocentes, apenas diferentes graus de responsabilidade”. A OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a UNICEF (Funda das Nações Unidas para a Infância) nada fazem em relação ao trabalho escravo infantil no terceiro mundo. Esses organismos ligados à ONU, servem apenas de fachada para dizer que os países ricos se preocupam com essas questões, quando na verdade são empresas desses países que mais exploram esse tipo de mão-de-obra. A desigualdade do mundo é que faz com que esse problema se acentue. Não basta erradicar a exploração do trabalho infantil, sobretudo o escravo, é necessário também investir em educação e em geração de trabalho para as famílias, evitando que as crianças tornem-se parte da geração de renda familiar. O vídeo-clipe da banda Radiohead “All I Need”, mostra justamente a discrepância entre os mundos, o mundo rico e o mundo pobre. Porém é necessário fazer um parêntese, o vídeo mostra um garoto chinês trabalhando, só que nesse caso devemos interpretar esse conceito usado de “mundo pobre”, como um universo particular do garoto, no contexto que ele vive, pois sabemos que a China é um país emergente ou novo rico. O vídeo parte da ideia de desigualdade, onde todos os homens são livres e iguais perante suas constituições e perante a existência de acordo com Russeau e Sartre. Dois garotos acordam de manhã, um em cada parte do globo e ambos sem saberem da existência um do outro e também sem saberem o quão suas vidas estão conectadas. As diferenças são logo percebidas, as roupas, a casa, a vida, em comum só o fato de serem garotos. Sob uma base densa Tom Yorke vai cantando os versos da canção enquanto vemos um assistindo tevê no conforto do lar enquanto o outro começa o trabalho no fundo escuro da casa. Na verdade são muitos garotos chineses, uso apenas um como encarnação dos demais, como catalisador das desgraças coletivas. Enquanto um come, o outro passa cola no couro de mais um sapato, respirando e embriagando-se com o forte odor, o outro garoto mastiga suavemente seu cereal matinal e observa sua mãe na bela cozinha Martha Stewart. O garoto loiro vai á escola, faz atividades físicas, brinca, se diverte, enquanto o chinês se concentra para fazer o trabalho da forma mais correta, uma vez que os patrões são extremamente exigentes e também como versa a tradição chinesa de disciplina. Parece tudo comum, nada que nunca tenhamos visto antes, mas não é, é inaceitável. A repetição gera banalização, e a banalização gera nas pessoas apatia, cria-nos a ideia de que tais problemas são insolúveis, e de que não adianta lutar contra o sistema. Porém como aceitar o fato de que crianças da mesma idade possam ter realidades tão diversas? Vemos a infância, a melhor fase da vida ir embora em pátios de fábricas, vemos a inocência escorrer pelos ralos da pia ao lavar as mãos sujas do trabalho imundo que fazem a troco de miséria. Miséria gera mais miséria. O relógio marca a hora do almoço. Um abre um sujo marmitex com pouca comida e muitas moscas, o outro abre uma bela e reluzente lancheira, de onde saem sanduíches saborosos e sucos variados, um come lixo e o outro come o luxo. No segundo turno do dia pinceladas. A mágica caneta de tintas frescas pinta um estranho desenho, um dragão cuspidor de fogo, destruindo os inimigos não-ocidentais, o outro pincel escorrega pelas palmilhas pretas. A letra reflete o desprezo. Um desprezo possível do garoto ocidental para com o não-ocidental. Não que fosse acontecer, mas é uma possibilidade viável, é o que diz o multiculturalismo, quando afirma a soberba do mundo ocidental para com o resto. “Eu sou apenas um inseto”, diz a letra, “eu sou todos os dias que você escolhe ignorar”. Ou seja, não é uma condição, é uma escolha. É opção. O “eu quero” é nosso, o “eu preciso” é do outro, numa relação de cá pra lá. É um entrecruzamento de vidas, de cotidianos, é o espelho de Branca de Neve, que diz exatamente a verdade. A doída verdade que fere os ouvidos. “Eu estou no meio do seu retrato”, eu faço parte da sua estupidez, sou sua consciência lhe condenando todos os dias, é como na cena do café da manhã. O menino olha para o nada, como que pensando no outro garoto mesmo sem saber que ele existe. E olha para seu mundo e vê nas letras miúdas da embalagem “made in China”. O dia acabou, no conforto do lar, o garoto branco tira seu sapato suado de mais um dia cheio dos seus afazeres diários. Nesse momento o diretor faz com que o garoto chinês também coloque o seu produto acabado na mesa, o chão no mesmo plano da mesa, os sapatos se equivalem. É o mesmo sapato. Atravessou o atlântico e chegou nos continentes ricos, e das lojas chegou aos pés do garoto, que o usou. Tudo isso deve ter custado a família do garoto alguns dólares ou libras. Porém o final do vídeo exibe uma frase que nos faz refletir sobre o sentido de tudo isso: “Some things cost more than you realise – Algumas coisas custam mais do que você imagina”.



































































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