sexta-feira, 18 de setembro de 2009


Artigo.

A viagem sonora do corpo – Roger Waters & Jonny Greenwood.



por Marlon Marques.




















O pai da medicina Hipócrates disse que: “tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças”. Hipócrates talvez não soubesse exatamente o que havia dentro de nós, mas intuiu bem dando a entender que o ser humano por dentro era um ser complexo. Teofrasto de Ereso foi o primeiro a utilizar técnicas de dissecação de cadáveres, o que ajudou a desenvolver a anatomia, e por conseguinte, o conhecimento dos seres humanos por dentro. Os alunos do Dr. Tulp na celebre aula de anatomia retratada por Rembrandt, olham fascinados para as vísceras expostas do cadáver. O médico e professor nem sequer olha para o morto, mas os que ainda não haviam visto um ser humano por dentro, consequentemente a si mesmos, se espantaram. Mas esse espanto é normal. Nós homens do século XXI nos espantamos quando vemos o homem por dentro, com todos os seus milhares de músculos, nervos, veias e vértebras, é assustador pensar que somos assim. Outra sensação estranha é ouvir os sons emitidos pelo corpo. Os corriqueiros são assustadores e grotescos [arroto e pum por exemplo], além da sensação desconfortável de ouvir o ronco de alguém ao dormir, um peito chiar com catarro ou o ronco de um estômago faminto. Imagine-se agora como um personagem de Julio Verne numa viagem ao centro do corpo humano, e pense em como seria essa experiência, vendo coisas horríveis, sentindo cheiros péssimos, e ouvindo sons exóticos e inusitados. Dois célebres artistas do século XX, um do início da primeira metade do século, e ou outro já final, se aventuraram por dentro de nós para nos contar como é. Roger Waters e Jonny Greenwood, ambos ingleses, e ambos de bandas ímpares e muito importantes para seu estilo, o rock. Pink Floyd e Radiohead, e não poderia ser de outras bandas a saírem músicos capazes de nos conduzir a essa impensável viagem sonora. Em 1970, Roger Waters lançou o disco “Music From The Body” como trilha sonora de um filme homônimo. As canções foram compostas em parceria com Ron Geesin, já antigo colaborador de Waters, nos apresentando uma versão bem humorada de nós mesmos internamente. Os sons na verdade são pequenas peças interligadas que formam um todo. São ecos e cacos de sons, sendo somente algumas canções realmente ditas, são os casos de “Chain Of Life”, “Breathe” e “Give Birth To A Smile”, bem no estilo floyd de canções. As demais se utilizam de bases semi-eruditas, música de câmara, minimalismo e coisas do tipo Olivia Tremor Control, aliás, esses devem ter ouvido atentamente esse disco. As músicas não emulam ou imaginam os sons dos órgãos, apenas cria climas de vazios, tensões e sensações que possivelmente aconteceriam em nosso corpo ao reagir as diversas situações a que é exposto. Comemos o tempo todo, tomamos água, nos movimentamos a todo instante, sentamos, deitamos, pulamos, e assim como estralar os dedos libera um som, cada uma dessas ações no plano interior também deve produzir algum tipo de som. Music From The Body foi inovador em sua época, justamente por trazer um tipo de música diferente de tudo o que estava sendo feito naquele momento. Já “Bodysong” foi lançado por Jonny Greenwood em 2003, também como trilha sonora de um filme homônimo. O disco de Greenwood é mais experimental e de difícil audição em relação ao de Roger Waters. O disco é bem próximo ao trabalho de Greenwood em sua banda Radiohead, trabalha com texturas sombrias, instrumentos diversos e sons minimalistas. Bodysong é muito climático, e tal como Music From The Body, não tenta recriar os sons fisiológicos, apenas nos sugere possibilidades, nos remete a uma viagem pelos órgãos humanos, ou pela via linfática ou sanguínea. É o caso da faixa “Clockwork Tin Soldiers”, que parece um sonho em processamento, ou “Convergence”, que lembra a trituração dos alimentos por nossos dentes. Greenwood dialoga também com o jazz experimental da turma de John Zorn, sons desconexos e irracionais, semi-tonalidades e cromatismos sonoros. Ouça “Splitter” e comprove, a desarmonia do trompete, lembra um desarranjo intestinal, enquanto que a insanidade da bateria mais lembra uma incômoda enxaqueca. A única faixa de Bodysong que se parece com Music From The Body é “Tehellet”, com cordas a cargo do The Emperor Quartet, deve lembrar o mecanismo das cordas vocais vibrando na garganta de uma soprano ao cantar. O mesmo efeito nos traz “Bridge Passage For Three Plastic Teeth”. Os dois discos embora muito diferentes e distantes no tempo não no espaço [32 anos], se complementam em nosso interior. Há uma ligação espiritual entre os discos, há um diálogo silencioso entre ambos, como se Bodysong continuasse de onde Music From The Body parou, como quem quisesse terminar de nos conduzir pelos escuros e úmidos túneis dos tecidos. Veja a similaridade e a conexão. Na mitologia, Oroboros é a cobra que representa o eterno retorno, ou o ciclo da vida, pois a serpente engole seu próprio rabo. Os dois discos formam a serpente, sendo Bodysong a cabeça e Music From The Body o rabo. Se considerarmos “Sea Shell And Soft Stone” a última faixa do disco de Roger Waters – uma vez que Give Bath To A Smile é uma canção pop – ela se encaixa perfeitamente no início de “Moon Trills”, pois a primeira termina com um solo de violino, e a segunda começa com um solo de violino, depois explodindo como um “big bang”. São realmente duas obras fantásticas, que valem a pena a audição, pela beleza e pela sensibilidade dos músicos. As canções formam um conjunto único de rara perfeição, sendo um momento único também de reflexão interior, de nos fazer pensar na complexidade da máquina humana e em sua conectividade e engenharia. E para esse intento tão raro nos dias de hoje essa é sem duvida a melhor trilha sonora já feita.















































Roger Waters - Music From The Body [Caroline, 1970]

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Jonny Greenwood - Bodysong [Capitol, 2003].

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