quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ensaio.

That´s Entertainment: O entretenimento e a vida que passa.


por Marlon Marques.



























“That´s Entertainment” é uma crônica da vida inglesa monótona do meio dos anos 70. É um retrato da apatia e da desilusão que levou milhares de jovens a se expressar por meio do rock n´roll, especialmente no punk e nos pós-punk. A Inglaterra dessa época já não tinha mais a mesma importância política do passado, era apenas uma mera coadjuvante no sistema internacional e aliada dos Estados Unidos. No aspecto econômico e social, o país passava por sérias dificuldades, desemprego, marginalidade, violência e repressão. Os Sex Pistols cantaram que não havia futuro na Inglaterra, e por mais farsa que tenham sido, eles estavam certos, e gente com The Jam, The Fall e Joy Division trataram de comprovar. Londres e Manchester como grandes metrópoles, eram símbolos históricos do capitalismo britânico, da revolução industrial e da acentuada luta de classes. Essas duas cidades foram os epicentros dessa contestação em forma de música. E justamente um ano depois da ascensão de Margareth Tatcher ao poder como primeira ministra, o The Jam lança Sound Affects, um petardo direcionado a vidinha medíocre britânica. E é nesse disco de 1980 que está That´s Entertainment, onde Weller narra as desventuras de uma vida que passa e de um cotidiano sem opções, de uma vida sem opções. O narrador é vários sujeitos em um sujeito só, transita do amargo, ao cético, ao irônico, sempre lançando seu olhar para os fatos de forma crítica. Há na letra de Weller um senso de realidade muito profundo, além de uma poesia refinada e bastante ácida. A primeira crítica vai para a sinfonia da metrópole. Weller denuncia os vários ruídos e a poluição sonora: “um carro de polícia com uma sirene barulhenta, uma pneumática britadeira rasgando o concreto, um bebê chorando e o uivo de um vira-lata, o barulho dos freios”, além de um gato que chora, ou seja, uma cidade intranqüila. A modernidade nos dá de presente esse tipo de cidade, além dos problemas estruturais apontados como “muros pichados”, lâmpadas de postes piscando, falta de energia (blackout), umidade nas paredes dos apartamentos e casas, cabines telefônicas destruídas, etc. Os dias passam rápido, as segundas-feiras são lentas, as quartas tristes, os dias são cinzas. Veja a vida como está, não há motivos para comemorar feriados ou manter tradições [não tomar seu chá], temos de nos destruir ao acordar desse pesadelo, fumando um cigarro ou ensaiando como uma banda amadora num terreno baldio qualquer. Essa é a forma de vencer o marasmo, de expressar a revolta e a insatisfação com esse modelo falido e elitista. Os dias passam, mais um vez temos que acordar as seis da manhã em mais um dia frio, pegar o trem elétrico e ir ao trabalho. Engolindo fumaça dos carros e a poluição da cidade, e depois voltar a um apartamento frio. O que eu quero? Do que eu preciso? De entretenimento ou alienação? Talvez de ambos. Escapo me envolvendo nos braços de uma garota quente, seu perfume amanhecido são como aromas do campo, dos verdes campos da liberdade, de quando penso em estar longe de tudo isso. That´s Entertainmet diz o que os puristas não queriam ouvir, o que a tradição abomina. Essa música não só é um clássico, é também um hino contra a passividade e a aceitação, é um chamado para aqueles que não acreditam no otimismo paternalista oficial, mas acreditam que a melhor maneira de salvar suas vidas é fechando os olhos e se entretendo.


































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