sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Crítica.

Alanis Morissette - Jagged Little Pill.


por Dirce Dalila & Marlon Marques.






































Alanis Morissette foi de fato muito competente ao gravar Jagged Little Pill. É sem dúvida seu melhor álbum, o que comprova a já conhecida maldição do primeiro disco, onde um artista não consegue mais o mesmo brilho em trabalhos posteriores. Um dos indicadores da consistência desse disco é o fato de que é o mais vendido álbum de estréia de um artista em todos os tempos, 30 milhões de cópias em todo o mundo [ressalva, estréia mais ou menos]. Alanis além de cantar, toca gaita e compõe, o que fez dela menina prodígio no Canadá antes de estourar mundo a fora como a jovem bonita e talentosa. Alanis mostra aqui uma outra faceta de sua personalidade, de menina religiosa de uma infância não tão distante a confessora de aventuras sexuais. O fato é que a menina cresceu e apareceu, mostrou maturidade ao mesclar maturidade com ingenuidade, e essa combinação é que da charme ao disco e o tornou tão bom quanto é. Jagged Little Pill pode ser entendido por seus hits e por seus não hits. O álbum é composto de bons rocks, como “All I Really Want” e “Right Through You”, um tanto pegajosos eu diria, mas músicas pulsantes e não enfadonhas. “Forgiven” mostra os atributos vocais de Alanis. Uma voz poderosa, alta e bem audível. A letra é uma espécie de exorcismo pessoal de Alanis, e talvez seja por conta dessa música e de You Oughta Know [principalmente] que muitos chamaram o álbum de terapêutico. Alanis emula Sinéad O´Connor quando diz: “todos nós precisávamos de algo para acreditar, assim fizemos”. “Not The Doctor” é lenta, cresce um pouco do refrão pra frente, já “Wake Up” segue essa linha mais lenta e melódica, porém com ingredientes a mais. É uma música com corpo pop, levada simples mas bem cativante, há um arranjo um tanto mais complexo de fundo nessa canção, Alanis mostra um pouco de lirismo em versos como: “existe um interesse óbvio pelo caminho menos resistente da sua vida”. “Perfect” também é um tanto terapêutica, pois é de certa forma um pouco do que todos sofremos um dia com nossos pais, a cobrança por sermos não bons, sermos os melhores, e os melhores dentro de suas concepções. Musicalmente, Perfect é uma balada semi-acústica, com dedilhados, órgão e uma interpretação emocionada e a flor da pele de Alanis. “Mary Jane” é quase irmã gêmea de Perfect, grandiosa também, exalta bem o timbre forte da voz de Alanis. A produção caprichada de Glen Ballard, faz com que voz não se sobressaia sobre os instrumentais, e nem esses sobre os vocais, onde todos brilham, principalmente Taylor Hawkins – o que lhe rendeu um convite para o Foo Fighters. “You Oughta Know” é uma verdadeira seleção de estrelas, pois traz as participações de Flea e Dave Navarro ambos do Red Hot Chilli Peppers. A canção é um rock rigoroso e consistente, Flea se sobressai como sempre com seu groove incomparável, enquanto que Alanis expressa claramente sua ironia e agressividade na letra. Alanis conta a história real de uma traição que lhe aconteceu, e a identificação com das jovens a época foi tamanha, que até hoje You Oughta Know é um hino [ou anti-hino] feminino. Do que adianta trocar alguém e pensar nesse alguém? Porque as pessoas não conseguem manterem-se instáveis em seus relacionamentos? São essas e outras questões que Alanis discute nessa bela música, além dos detalhes picantes de sua personalidade aqui revelados. “Hand In My Pocket” foi outro grande hit de Alanis Morissette, claro que um pouco menos do que os outros, mas também desfrutou de boa fama e execuções nas fm´s mundo afora. O solo de gaita de Alanis é sempre citado, talvez Hand... tenha obtido bastante sucesso por ser uma música simples e agradável. Um arranjo normal, nada demais, porém é extremamente contagiante, pois a letra revela quem é Alanis e quem é o público que a ouve. São jovens que não se importam tanto com as coisas que a sociedade impõe, são jovens imaturos, mas espertos, que riem mesmo tristes, livres, dedicados, que ganham mal em seus empregos medíocres, e é justamente nisso há que tudo se resume. “You Learn” é linda. Tem um balanço sem igual no disco todo, tem uma alegria e uma tristeza contida ao mesmo tempo, é em síntese uma canção agridoce, daquelas de se ouvir nos finais de tarde cinzas da vida. You Learn é realmente uma lição, onde Alanis de uma forma muito simples, diz a todo instante que a vida é um eterno aprendizado e que em todas as situações sempre aprendemos algo. Alanis se aproxima de nós quando diz: “eu recomendo dar um passo maior que a perna, eu certamente dou”, ou seja, ela erra também, tanto quanto nós. Nos aconselha a cometer gafes, a sermos livres, e soltar-nos e libertar-mos a criança que existe em cada um, sempre sob uma base de rock simples, com direito a overdubs e modulações de guitarra lentas, quase desérticas. O grande hit mesmo do disco é “Head Over Feet”, quem não se lembra do videoclipe – assim como do videoclipe de Ironic. Essa música na verdade é um devaneio, um sonho feminino, algo que muitas diria somente ocorrer num plano ideal. Há dúvidas de que essa história contada por Alanis em Head Over Feet seja de fato real, talvez seja apenas uma resposta ao cara de You Oughta Know, querendo lhe dizer que arrumou uma nova pessoa muito diferente dele. Alanis se derrete dizendo: “e não fique surpreso se eu te amar por tudo que você é”, diz também que ele é paciente, abre a porta, companheiro, amigo, ou seja, perfeito, não seria mais apropriado que o nome da música fosse Perfect? “Ironic” fez tanto sucesso que teve até duas versões em videoclipe. Foi também um grande hit, é uma música fofinha, básica. O grande mérito de Ironic é ser uma música honesta e cativante, e mais uma vez a letra se aproxima da realidade das nossas vidas. E mostra o quanto a própria vida é irônica, afinal, “é como dez mil colheres, quando tudo o que você precisa é de uma faca”. Jagged Little Pill é de fato um disco memorável, e ao contrário do que dizem alguns, não soa datado. É um disco coeso, onde há equilíbrio instrumental, combinado com boas letras e um vocal primoroso de Alanis, ora intenso, ora emocional ou raivoso quando preciso. Assim como Thriller de Michael Jackson, ninguém vende tanto sem ter nenhuma qualidade, e no caso de Jagged Little Pill, é fato, é bastante competente como divã e como música, e se precisar escolher, escolha os dois.


























Alanis Morissette - Jagged Little Pill [Maverick, 1995].

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