sexta-feira, 31 de julho de 2009


Crítica.

The Jam - Sound Affects.


por Eliseu Horácio & Marlon Marques.



















Sound Affects é um álbum de 1980 com cara de mil novecentos e sessenta. É um disco fantástico, no mais amplo sentido que a palavra fantástico possa ter. É um disco direto, bem tocado, bem cantado [dentro do estilo e das limitações vocais de Weller] e de audição extremadamente agradável. É quase um consenso apontar Sound Affects junto com All Mod Cons como os melhores álbuns do The Jam, e com certa razão, excluindo a possível falsa ideia desses serem melhores e os outros ruins. As grandes influências desse disco são o pop britânico sessentista, uma leve pitada de psicodelia e um certo toque mod, mas que faz toda diferença. “Pretty Green” é a faixa de abertura, mostra um som simples, com uma levada linda de baixo de Bruce Foxton, muitos apontam – inclusive o próprio Paul Weller – essa canção como sendo uma fusão entre Revolver dos Beatles e Off The Wall de Michael Jackson. Vejo particularmente também um certo vestígio de Byrds nessa música, mas os backing-vocals e o balanço, fazem lembrar um pouco o black de Jackson. “Monday” é singela, um belo arranjo acompanha a voz de veludo de Weller, enquanto que em “But I´m Different Now”, o Jam parece voltar as ruas de Londres, velocidade, urgência, rebeldia, está tudo nessa faixa. “Set The House Ablaze” segue essa mesma linha rápida, aqui o Jam mostra toda maturidade de seu som e entrosamento, todos brilham nessa ótima música. Weller cria grandes melodias em sua guitarra, para depois explodir em riffs no molde The Who de ser, enquanto que Foxton grita alto com seu baixo super agudo e Rick Butler marcando impecavelmente o tempo em sua bateria simples e eficiente. “Start!” é um dos destaques do disco. Ótima música, porém sua linha de baixo é inteiramente copiada de Taxman [Beatles], é muito evidente. Mas nem mesmo isso tira o brilho do álbum como um todo e da canção em questão, Start! é cheia de brilho, contagiante, e possui um belo refrão que declama a desesperança dos desencontros da vida. “Dream Time” é contagiante do começo ao fim, é uma canção cheia de energia, e mostra bem as construções harmônicas do Jam e toda a riqueza instrumental da banda. Essa música talvez seja a que melhor exemplifique a comparação com o Gang Of Four e as modulações que mais tarde usariam Hüsker Dü e Fugazi. Butler é exímio nas quebradas de tempo de ritmo, enquanto que Weller quase que improvisa para acompanhar esses delírios do baterista, nos confundindo a mente ao tentar acompanhar. Uma das mais belas canções desse disco é “Man In The Corner Shop”. Narra a angústia da classe trabalhadora, e é um pouco o que nós sentimos em relação as desiguais relações de trabalho no mundo capitalista. O homem na esquina da loja é um profissional liberal sem patrão, ninguém manda nele, enquanto que os demais homens devem se submeter as tiranias das fábricas e repartições. Weller diz que na Igreja todos de todas as classes sentam-se para rezarem juntos, pois Deus fez todos os homens iguais, e tudo isso sob uma bela suíte byrdiana. “Music For The Last Couple” é um canção muito inventiva e complexa musicalmente. O The Jam aqui explora novas sonoridades, experimenta a inserção de ruídos no decorrer da música, o som mostra um duelo de perguntas e respostas entre guitarra e baixo, porém de uma forma pouco convencional, uma marcação constante da bateria, um som difícil de definir, cabe ao ouvinte classificar. “Body About Town” é a que paga maior tributo aos Beatles, por sua melodia fácil e embaladora. Butler usa muito as já citadas quebradas de ritmo, além do incessante uso dos pratos de ataque, e parece até que no final do disco, o baterista aparece mais do que o baixista Foxton. “Scrape Away” é tensa e amarga. Mas a grande música do disco é com certeza “That´s Entertainment”, uma balada semi-acústica, cantada de forma emocionante por Weller. Aqui Weller revela seu lado mais poético e ao mesmo tempo descontente com seu mundo. Qual o sinônimo dos anos 80, apatia, talvez? Desilusão, pode ser, mas com certeza essa letra diz tudo em poucas estrofes, afinal, o que é evidente não precisa exatamente ser contundente. That´s Entertainmente deveria estar na trilha sonora de Trainspotting, deflagrando a decadência das vidas enquanto a vida segue sua rotina vazia, amarga e tediosa. Sound Affects é um disco curto, tem apenas 35 minutos e 18 segundos de ótima música. Sound Affects é tão amargo quanto qualquer disco gótico, tão pulsante quanto qualquer disco punk e tão cínico quanto quanto qualquer disco new wave, mas garanto que muitos desses não possuem a qualidade e inventividade que esse disco possui, dessa banda tão subestimada.



























The Jam - Sound Affects [Polydor, 1980].


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