terça-feira, 2 de junho de 2009

Crônica.

A dor alheia.


por Marlon Marques.



























A dor é um sentimento muito complexo. Expressar a dor em palavras é difícil, é uma tarefa árdua. Talvez a maior obra que expressa a dor de uma forma muito próxima do real, é “A morte de Laocoonte” de Agesandro. A expressão de impotência no rosto de Laocoonte é a expressão de dor de cada um que sofre em qualquer lugar. A dor é um fato social normal como diria Durkheim, está presente em todas as sociedades, mesmo que provocada por situações diferentes. O acidente com o Voo Air France 447, é digno de todo nosso pesar e lamentação, pois nos coloca diante da dor dos outros, como Susan Sontag em seu livro homônimo. Estar diante da dor alheia é muito distante do que sentir a própria dor. Aviões vem e vão todos os dias pelos céus do mundo todo. Nossos aeroportos vivem cheios de pessoas indo e vindo, chegando e partindo. O alívio de pisar em terra firme é indescritível para quem sente essa sensação, é uma sensação – presumo eu – igual a vencer uma guerra, uma guerra contra a morte iminente. As coisas boas são logo esquecidas, mas as ruins persistem, ficam, assim é com uma notícia. Imagine como os familiares receberam a notícia de que o voo de um dos seus não chegou ao destino. Imagine a agonia dos passageiros ao sentir a aeronave perder o controle. É uma imagem incrivelmente dolorosa. Nesse momento você pensa que um de seus irmãos ou seus pais poderiam estar lá, mas o certo é que muitos estão chorando agora, mas porque isso continua acontecendo? Precisamos encontrar uma maneira de minimizar a dor anunciada das pessoas, precisamos de mais investimentos em tecnologia aeronáutica, pois mesmo que as causas do acidente do Air France ainda sejam um mistério, não podemos esquecer do acidente horrível da TAM em 2007. É difícil nesse momento pensar em algo, em acreditar que faixas preparadas com todo carinho para receber os passageiros no aeroporto Charles de Gaulle não serviram de nada. É difícil aceitar que os braços quentes preparados para abraços de saudade, não mais encontraram o corpo daqueles que esperava. Que muitos que foram daqui para lá, não retornaram mais, e muitos que voltariam para lá, jamais irão voltar. É lamentável saber que o fim pode acontecer dessa forma, quando menos se espera, em mais um voo, de muitos outros que partem a cada hora, a cada minuto em algum lugar. É simples saber que a vida é assim, por um fio, e que devemos amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há. Não há mais lágrimas para expressar a dor desses pais, mães, irmãos, esposas, maridos, filhos, tios, que perderam seus familiares em mais uma tragédia da aviação brasileira. E mesmo que a culpa não seja de ninguém, é mais confortador acreditar que tudo possa mudar, para não pensar que o destino é um equívoco, e que fazer a nossa parte aqui não vale a pena. Acredito que os mortos nesse acidente fatal estão agora em um lugar melhor, olhando por aqueles que hoje choram. Creio que essas pessoas mandaram vibrações positivas para acalentar os corações doídos dos que lamentam e culpam a vida. Os planos dessas pessoas se foram, seus sonhos decolaram e afundaram junto com seus corpos, mas a lembrança, e a esperança renasce em cada um que acredita que as coisas seguem um rumo não muito certo e controlável por nós, e que no fim do túnel há sempre uma luz. Talvez hoje seja o dia mais triste da história dessas pessoas. Nunca o espaço deixado será novamente preenchido da mesma forma, mas com tudo isso, aprendemos que todos somos iguais, e que a união e a fraternidade devem igualar mais os homens do que a morte os iguala.



























[O grupo de Laocoonte, Agesandro (219 d.c.), Museu do Vaticano].

















[Detalhe da obra - O grupo de Laocoonte, Agesandro].





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