quarta-feira, 27 de maio de 2009

Ensaio.

São Paulo – Caos, Carros, Casas, Cachorros e Crise de Identidade.

por Marlon Marques, Mr. K & Dirce Dalila.


























São Paulo é uma cidade imensa. Imensamente grande, imensamente rica, imansamente pobre, imensamente desigual. É uma cidade cheia de encantos, e muito cheia de cantos de amor, de hinos apaixonados, de saudosas malocas. É um mosaico de culturas, de cores, de credos, todos se cruzam pelas ruas do centro, todos os corações batem a mil no cruzamento da São João com a Ipiranga. Penso eu deixar-te, mas amo-te, reconheço seus erros, mas sei que me acolhe em seus muitos dias de garoa e sol. É uma relação muito cheia de disparidades, de altos e baixos, de morros e asfaltos. É uma cidade muito populosa, muito cheia de pessoas, de mendigos, de pregadores evangélicos extasiados, de executivos e desempregados. É a cidade da Daslu, das concessionárias luxuosas da avenida Europa, dos cortiços da Santa Cecília, do metrô, dos muitos churrascos gregos da estação da luz. É uma vida emocionante a que se vive em São Paulo, é um caos. De fato, é um caos não muito ordenado. São muitos fatores que contribuem para essa condição, de todos os serviços públicos sem qualidade, do lixo nas ruas, das crianças cheirando cola na esquina do Andraus, de todas as pontes cheias de infiltração nas marginais, dos semáforos quebrados e dos muitos acidentes fatais na radial. É um caos por querer melhorar e não conseguir, por ver e sentir atônito a luta dos sem teto na avenida Nove de Julho, pelos milhares de limpadores de vidro nos faróis, e pelos diversos trombadinhas batedores de carteira que assaltam as madames no Jardins e as tele-operadoras na praça da República à noite. A vida é incerta, mas é certa a felicidade, sabemos que vamos sair mas não sabemos que horas vamos chegar, poderemos estar no meio do trânsito em qualquer lugar, em algum lugar. Os carros são outro problema de São Paulo, e a medida que o poder aquisitivo das pessoas aumenta, mais carros teremos. Veja, quem não tem um carro hoje, usa o transporte público, e com o aumento progressivo da ineficiência desses serviços, o desejo por um automóvel cresce. Carro é status nas sociedades modernas, é parte de um sistema de auto-realização, é um sonho americano, latino-americano. Então a partir do momento que as condições melhoram, quem não tem um carro hoje, irá comprá-lo amanhã, e sendo assim, teremos muito mais carros nas ruas do que hoje. Carros são máquinas modernas de poluição e suicídio, pois não se dirige sozinho, a direção é um conjunto, deve-se dirigir para si e para os outros, é uma equação onde a imprudência de um, pode ser a morte de outro, outros. Há tantos carros, quanto casas na cidade. O problema é o crescimento desordenado, aliás, quem disse a palavra ordem em São Paulo. Casa na verdade é onde você repousa, e pode ser de sapê, alvenaria, papelão, em baixo de uma árvore, de uma ponte ou num ônibus abandonado no meio do nada. Casas crescem nas beiras das represas, comprometem os mananciais, e todos os dejetos orgânicos e todo o lixo produzido são despejados nos arredores, muitas vezes sendo esses resíduos tóxicos e muito perigosos. Casas crescem e se esmagam nos bairros periféricos, barracos dividem os olhares com casinhas sem reboco em bairros como Cidade Tiradentes, Guaianases, Jardim Ângela, Brasilândia e Cidade D´Abril. Em todos os lugares proliferam moradias, pois a população também cresce, e como a vida segue um certo curso previsível, as pessoas se casam. “Quem casa quer casa”, diz o ditado, e isso faz com que sobradinhos subam aos céus da cidade, isso traz aquilo que traz aquilo, casas, instalações ilegais de luz e tv à cabo, fios, varais, funk, lixo e crianças. Crianças, cachorros e toda a sorte de ratos e baratas moram na cidade. Podemos dizer que essa é uma cidade canina, não sei exatamente o número de cães que vagam pela cidade. Até entre cães há desigualdade, uns moram em mansões luxuosas, tomam banho todos os dias, frequentam veterinários, comem rações caras e tem até pedigree. Já outros é como o espelho dos cidadãos comuns, moram na rua – e quando o destino lhes sorri, são adotados por famílias tão pobres quanto eles, banho, ou de chuva ou de vez enquando à base do balde e da bucha, veterinário só em casos extremos e refeições, sobras de qualquer coisa. Tem cachorro que vive melhor que gente, é como no filme “Ilha das Flores”, as pessoas ficam com o que os porcos não querem, em São Paulo é um pouco assim, cães são mais gente que a gente. Esses e muitos outros problemas provacam nas pessoas uma certa crise de identidade. Com tantos problemas perde-se a convivência, ou quando ela se dá, é por meio de tribos urbanas, que se isolam ou se degladiam. A lógica do capital acirra a competição, por emprego, por namorados, por produtos numa ponta de estoque, por órgãos em hospitais. É uma lógica tão fria, que até óbitos são comerados por quem espera um órgão. Essa lógica desumana aliena as pessoas, e Malthus se faz presente, pois há mais pessoas disputando vagas do que vagas a serem ocupadas. Não é uma desculpa, mas muitos a usam, a violência é muito impulsionada pela falta de oportunidades de viver dignamente, embora muitos nem se quer tentam. Violência gera confinamento, pobres ficam em casa, não falam se quer com o vizinho, afinal quem são eles, pensam cada um dos vizinhos. Os ricos blindam carros e vidros das casas, usam roupas a prova de bala e saem sempre acompanhados por seguranças, grandes, fortes e fortemente armados. O caos é tamanho, que o filme "21 Gramas" se repete cotidianamente em São Paulo e em muitas cidades gigantes como essa. Há um cardíaco em algum lugar esperando um órgão para transplante e voltar a viver, há um homem sem saída, sem dinheiro e com família para sustentar, em sua casa há uma arma. Do outro lado da cidade um casal rico passeia em seu belo carro até um bom e caro restaurante para um jantar romântico. Esse casal está sendo conduzido pelo seu motorista e segurança particular, ele também tem uma arma. Na entrada do restaurante ao descer, o casal é surpreendido pelo homem em desespero, esse tenta assaltar o casal, afinal, uns tem muito e o outro não tem nada. O homem saca sua arma no mesmo instante que o segurança, esse dispara e erra, todos caem ao chão, o tiro não pega em nenhum deles, mas sim no jovem garçom que acabava de chegar para mais um dia de trabalho. Ele estava no lugar errado, na hora errada, na cidade errada, morreu. Seu coração hoje bate no peito do ex-cardíaco, que hoje trabalha como segurança do casal rico, que demitiu seu segurança depois do episódio do restaurante. O homem desesperado, conseguiu um emprego de garçom, no mesmo restaurante e na vaga do jovem que morreu. A vida em São Paulo é assim, cheia de encontros e desencontros, idas e vindas, felicidades e tragédias, em doses desiguais. Muitas pessoas não se sentem parte dessa dinâmica de vida, dessa vida fria e competitiva. Muitos dizem querem sair de São Paulo e tentar a vida em outro lugar, mas há algo que nos prende aqui, algo que nos faz querer essa cidade mesmo sem querer, de ama-la incondicionalmente, paradoxalmente, um amor delicado que a própria cidade por vezes despreza.













































































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