segunda-feira, 29 de junho de 2009

Crítica.

Green Day - Dookie.


por Marlon Marques.























O tempo realmente faz coisas impressionantes. Há 15 anos atrás o Green Day lançava Dookie, o álbum que marcou uma geração que queria ser rebelde. Para os meninos que nasceram no ano do tetra da seleção brasileira, já é tempo de descobrir as coisas boas da vida, para nós, quase balzaquianos, nos resta lamentar o tempo que passou, e que foi bom. Não entrarei em delongas sobre as diferenças desse Green Day de 1994 para o de hoje [American Idiot será fruto de texto futuro], irei falar mesmo do disco que marcou uma época muito boa da minha vida, e da vida de muitos da minha geração e que hoje sentem vergonha de dizer que já ouviram um dia. Billie Joe foi um grande ícone da garotada pseudo-louca da primeira metade dos anos 90, roupas largadas e sujas, cintos de rebites, cabelos coloridos, skate e muito som, na verdade um meio do caminho entre um punk falso e um hard core light. Porém é bom dizer, era bom [e é ainda?], para aquele contexto, para aquele momento e para aquele público, era bom, o mesmo não se pode dizer sobre hoje, uma vez que a era da informação avançou ao ponto de termos blogs e um sem número de resenhas sobre os grandes discos do passado e que nos dizem muito sobre o que é um bom disco. Dookie estourou, vendeu muito, fez o Green Day aparecer na mídia – quem não se lembra do clipe no sanatório de Basket Case – fez muitos garotos se rebelarem no quarto, fez muitos pais reclamarem do barulho nas caixas de som. O som é puro pop, bem feito, feito para cair mesmo no gosto do público consumidor de música fácil, porém era [e é – sem dúvida] cativante e empolgante. Era simples, poucos acordes no melhor “do it yourself”, acessível para meninos de dez à quatorze anos, com seus skates embaixo do braço e espinhas na cara. Voceis queriam o quê, que ouvissemos Black Flag, Minutemen, Fugazi e Hüsker Dü? Quem ouve essas coisas [irônico]? Nessa época todos estavam boqueabertos com o grunge ainda, sons mais cabeça não estavam em voga, não havia ninguém para nos dizer “ouça isso”, “ouça aquilo”. A indústria faz tudo ser produto, e mesmo revistas de rock mais underground precisam vender, a MTV precisa de audiência, e o Green Day é o pop perfeito de massas da juventude – veja o nexo – em 94 eram os moleques skatistas, hoje são os emos e punks de butique da Augusta. Quanto à Dookie não há muito o que dizer além do que sabemos. Eu o considero um bom disco, coeso, simples e extremamente agradável. Dookie é um filtro de água onde até as impurezas são positivas. “Having A Blast” e “Chump” são pop song´s rapidinhas, filhas da mesma mãe, são muito parecidas. Rápidas, básicas, dão um cartão de visita muito aconchegante, assim como a ótima “Burn Out”. A primeira faixa do disco é forte e pulsante, mostra Tré Cool como destaque da banda logo de início – com direito a solo de bateria – a levada empolgante da música é cheia de riffs certeiros e rápidos. “Pulling Teeth” é mais lenta, mais calma e apresenta Mike Dirnt, sua levada de baixo se sobressai muito da massa sonora da música, Billie Joe canta de forma mais sútil, assim é também em no começo de “F.O.D.”, que depois se derrama na barulheira desenfreada. “Emenius Sleepus” e principalmente “In The End” são as velozes do disco, levadas de guitarras sujas e vocais urgentes de Billie Joe Armstrong fazem a alegria dos skatistas das autobans da vida. “Sassafras Roots” tem umas caídas diferentes, uns jogos de batidas de meio tom e baixos agressivos, mas nada muito diferente das demais citadas. O problema de Dookie é a repitação, fruto da inventividade limitada da banda. “Long View” explora algo diferente logo na introdução, uma batida de marcha militar e um bonito fraseado de baixo de Dirnt – essa composição se alterna com o refrão raívoso da música, onde Billie Joe canta lascivamente: “morda meus lábios e feche meus olhos, me leve para o paraíso”. A faixa seguinte é mais séria e fala de outro paraíso, não no sentido de jardim das delícias, mas no sentido de lugar de conforto, em “Welcome To Paradise”, Billie Joe exorcisa sua infância pobre e convida sua mãe [ao som de um canção raivosa e cheia de guitarras nostálgicas e lamentosas] a sua nova casa, a terra do desperdício – produto do sucesso imenso da banda. “Basket Case” é um sonho embalado à guitarras loucas e um refrão pegajoso. Feche os olhos e ouça aos 0:43 segundos de música o riff de guitarra entrecortado pelo baixo e a entrada da bateria, impossível não se lembrar do tempo que passou, da escola ou da garota bonita que não lhe dava bola. A música é ainda hoje o maior hit da banda, não há quem não conheça Basket Case, e justamente porque é cativantemente simples. “She” é talvez a outra grande canção do disco, empolgou tanto quanto Basket Case, porém é mais emocional do que essa última citada. She tem a urgência das paixões da juventude, e o vigor das lembranças, e nós que éramos tão alienados. Éramos alienados inocentes, frutos de uma sociedade que nos via como lixo dotados de carteiras de identidade e cpf, ferramentas inúteis, como Billie Joe diz na letra, vivendo num mundinho limitado tal qual Truman vivia. Essa crise de identidade é cantada belamente em “Coming Clean”, uma levada empolgante e simples, lembra bem o hard core light de gente como MXPX. “When I Come Around” é a antibalada do disco, linda e confessional. Aqui Billie Joe relata o quanto seu estilo de vida junkie pode ser solitário. Ele está só e sua garota também, estão tentando se encontrar num mundo ruim e Hobbesiano, ambos precisam um do outro, ela hesita em largá-lo e ele faz chantagem emocional, apelando para seu arrependimento possível, será? O fato é que não há do que se arrepender em ouvir Dookie, são 14 faixas de pura diversão e maturidade interrompida, pueridade e vontade de crescer, ma non troppo.





























Green Day - Dookie [Reprise, 1994].

download.







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2 comentários:

  1. Anônimo5:59 PM

    Eu prefiro muuuito mais eles agora!!!

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  2. Anônimo1:24 PM

    É porque a questão é de época. Meu momento com o Green Day foi de 95 a 99, tempo que foi muito bom e que lembro com nostalgia. Então há uma ligação emocional. Eu amadureci e hoje não gosto do som comercial que o Green Day faz, não me chama atenção.

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