segunda-feira, 22 de junho de 2009

Artigo.

Crítica.

The Cranberries - To The Faithful Departed.



por Marlon Marques.


























Toda banda de rock que inicia sua carreira com um bom álbum de estréia, terá o grande desafio de lançar o segundo álbum a altura, ou melhor do que esse de estréia. Sabemos que a pressão dos fãs, da mídia, da indústria é muito grande, pois todos anseiam por novos hits, ou melhor velhos hits, apenas com um roupagem diferente. Isso aconteceu com o The Cranberries, pois seu primeiro álbum de 1993, Everybody Else Is Doing It, So Why Can´t We?, tornou-se um grande sucesso e ainda de quebra legou ao mundo um grande hit, a canção Linger. Porém em meio a muita expectativa é lançado em 1994 o álbum No Need To Argue, contendo diversas músicas que se tornariam clássicas depois, mas principalmente pelos dois carros-chefe que levariam o disco ao topo das paradas do mundo todo, Ode To My Family e Zombie. Pronto, a lição já estava feita, o segundo álbum superou o primeiro, e ao invés de um, dois hits, sucesso garantido de vendas, fama e execução a exaustão dos clipes via MTV, a banda havia passado pela sabatina e confirmado sua transição de promessa para realidade.

O terceiro álbum porém não alcançou o mesmo sucesso esperado, tanto pela gravadora, quanto pelos fãs e pela crítica, que chegou a pronunciar que banda havia perdido a magia ou feito um álbum anti-comercial. Porém é necessário analisa-lo de uma outra forma, levando em consideração vários aspectos pouco citados pela maioria das pessoas que simplesmente o ignoram. Claro que To The Faithful Departed é um álbum bem diferente dos anteriores, é menos pop e mais elaborado, nota-se claramente a exaltação das raízes celtas do grupo, num diálogo com suas tradições. É um álbum muito bem produzido, além de trazer um Cranberries em ótimo entrosamento, mostrando uma clara evolução da banda como um todo, desde os caprichos dos instrumentais e a diversidade de instrumentos usados nas músicas, como no vocal de Dolores O´Riordan, mais limpo e alto, mais audível e seguro, pois nos álbuns anteriores nota-se uma mulher ainda muito insegura de seu talento, como que escondendo seu canto atrás da massa sonora. Toda a ótima produção do álbum é fruto também do dinheiro disponibilizado para a gravação, pois o que a Island queria mesmo era outro No Need To Argue, enquanto a banda queria fazer uma obra mais madura, um trabalho mais artístico que os demais, porém há um abismo entre as pretensões da banda e as pretensões da gravadora, que adota como estratégia, a idéia de “falar a língua do mercado mundializado, explorar um lugar específico que, no entanto, não seja diferente, vestir o diferente com roupa conhecida[1]. Esse conflito fica mais evidente nas palavras da própria Dolores: “ O mercado havia se tornado agressivo demais(…)”[2], e essa agressividade fez com que a banda não agüentasse tamanha pressão, apesar do álbum ter vendido 6 milhões de cópias, ter gerado uma turnê bem sucedida, além de dois ótimos hits radiofônicos, Salvation e Free To Decide.

A primeira faixa do disco, é uma canção muito vigorosa e pungente, Hollywood é um grito de libertação feminina, uma mulher que quer alguém de verdade e não em momentos, e mesmo que goste dele e até o procure, o manda embora também. Esse desprendimento é completado pela fúria continua de Salvation, onde Dolores proclama que a “salvação é de graça”, a letra fala justamente sobre fazer o que bem se quer sem se importar com as diretrizes da sociedade, ainda mais se tratando da católica Irlanda. When You´re Gone quebra o peso com um dedilhando e um sussurro de ninar, é uma música tão cativante que foi inevitável que se torna-se o terceiro single do álbum. É uma linda declaração de amor, possivelmente para Don Burton seu marido, que ao que tudo indica pela própria letra, trata-se de como o casamento e o fato de ter alguém ao seu lado mudou-lhe a vida. Mostra o quanto há fragilidade ainda nas mulheres, mesmo as mais progressistas e liberais como Dolores, versos como: “Eu poderia estar sozinha dormindo sem você, E de dia tudo é tão complexo, Não há nada simples quando não estou ao seu redor(…)”, mostram o quanto estava se sentindo insegura possivelmente com relacionamentos instáveis como o supra-citado em Hollywood.

Free To Decide é realmente incrível, começa com um fraseado de guitarra para logo entrar num jogo pop com direito a órgão de fundo e refrão extremamente pegajoso, pois não há como não sair cantarolando depois de ouvi-la. É a partir dessa canção que Dolores começa a abordar o tema dos conflitos europeus e demonstrar além de consternação pela situação, forte consciência política. Aqui Dolores é livre para decidir o quer de seu destino e de seu momento, já conquistou gratuitamente a salvação, agora não pode se deixar levar pela paixão apenas, deve-se ser racional e saber que se há problemas na relação, pode-se sair dela a qualquer momento. Há uma certa dose de feminismo no primeiro verso da música: “Eu viverei como escolhi ou eu não viverei de maneira nenhuma”; o que indica um equilíbrio de força com fragilidade, expressa em When You´re Gone. A próxima faixa é de uma beleza lânguida e tão realista, que chega a doer o coração. O instrumental é algo a parte, uma canção folk, cheia de violinos e metais, com um andamento calmo, ideal para degustar a letra e se sensibilizar com a Criança de Guerra. War Child é cantada de uma forma tão intensa e emocional que pode levar os mais sensíveis as lágrimas, narra os horrores das guerras em geral, mas em especial a guerra da Bósnia, onde muito sangue inocente, inclusive de crianças, foi derramado por questões religiosas, étnicas e territoriais. Dolores tem razão ao dizer que “Em tempos de guerra nós todos somos perdedores(…)”, e esse sentimento ela pode viver na pele nos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda, eternizado na letra de Zombie, esses conflitos religiosos na Irlanda, “remontam o século XVII, quando se deu uma grande imigração de protestantes britânicos (especialmente presbiterianos da Escócia), que se instalaram na região nordeste da ilha(…)”[3]. O álbum segue com a agitada e pessimista Forever Yellow Skies, e com as lembranças de The Rebels, onde narra fatos de sua adolescência, auto chamando-se de rebelde, até chegar na instrumental Intermíssion, quase um ambient-music, com sopros, piano, guitarra dedilhada e tambor, lembra um concerto campestre ou uma celebração celta no meio da floresta. É notável o nível de elaboração das músicas, cada canção parece ter vida própria e é isso que enriquece esse disco, pois se fosse um álbum temático talvez soasse repetitivo demais, mas não, é muito heterogêneo e multifacetado, fala de amor e condena o absurdos da guerra, e mostra também uma sensibilidade com o próximo quase católica, o que não é de espantar e nem de se afirmar, pois Dolores disse que “era bastante religiosa quando criança(…)”[4], mas pelo que proclama nas letras e principalmente em Salvation, o caminho não é a religião constituída e formal, mas algo mais amplo, talvez isso explique o retorno as raízes celtas e a exaltação da natureza como expressa na arte do encarte do disco, declara ainda que é “muito espiritual” e “acredita em Deus”, e diz passar esses valores para seus filhos, valores fraternos de compaixão com o próximo. O álbum pode ser pensado como um disco de vinil com lado A e lado B, pois como tem 15 faixas e a oitava “Intermíssion” é instrumental, ela divide o álbum em sete músicas de um lado e sete do outro, e assim encerra-se o lado A. O disco segue com a forte “I Just Shot John Lennon”, que conta a história da trágica morte de John Lennon, no auge de sua carreira solo e vivendo segundo ele mesmo o melhor momento de sua vida, repentinamente como diz a letra, voltando do estúdio, foi abordado por Mark Chapman que disparou contra ele cinco tiros com um revolver calibre 38, ouvidos no final da canção. “Eletric Blue” é uma música espiritual, o inicio lembra muito canto gregoriano, com acompanhamento de um órgão de uma velha catedral, há até o estalo de um sino, criando ainda mais essa atmosfera sacra.

I´m Still Remembering” é uma das mais belas canções do álbum, um verdadeiro primor de uma delicadeza superior, evocando a um sonho distante. O dedilhado do inicio da música, a levada lenta e crescente, embala o vocal passional de Dolores, numa interpretação cheia de sentimento, em versos lindos como, “Eu ainda me lembro da vida antes de me tornar sua esposa. Eu ainda me lembro da dor”; são reminiscências de uma vida transformada, é uma narrativa de desespero e louvação ao amor. Se Dolores homenageou o John Lennon em uma canção, agora presta homenagem a sua banda, os Beatles. A canção “Will You Remember?” é idêntica a “Being For The Benefit Of Mr. Kite!”, sétima faixa do álbum Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band de 1967, uma fábula circense, de compasso binário como as marchas de exército, ao invés de soldados, desfilam teclados e dedilhados de guitarra imitando banjos antigos. Dolores tem se mostrado muito melancólica e saudosista em suas letras, fala de um tempo triste porém com muita saudade, é uma relação um tanto ambivalente com o passado.

Essa evidência é clara em “Joe”, com sua levada terna e um maravilhoso arranjo de alaúde, fala sobre uma pessoa que conheceu em seu passado e que a fez muito bem, a tonalidade envelhecida da música nos evoca justamente a um passado, como na introdução “havia um tempo(..)”, além da indicação “anos preciosos para se lembrar”, claramente se rendendo a essa saudade contida. Em “Cordell” o tema é a perda, tem um arranjo simples, violões com efeito overdub dão a impressão de recheio a música, soma-se a isso, sussurros ao fundo a lá “Linger” e um solo de flauta no final.

O álbum se encerra com a grandiloquente “Bosnia” , uma canção épica, que narra os horrores da guerra da Bósnia, travada entre a minoria de Sérvios que ali viviam, de religião cristã e os bósnios de religião islâmica. Os sérvios após a independência da Bósnia da antiga Iugoslávia, reclamaram de serem desfavorecidos pelas leis islâmicas vigentes na Bósnia, por conta disso os sérvios começam uma política de limpeza étnica e religiosa com os bósnios viventes em suas áreas. O governo da Bósnia reage contra os ataques sérvios, tem-se inicio a guerra civil, acirrada com a intervenção do governo da Sérvia sob alegação de defesa de seus nacionais que habitam a Bósnia. O resultado é a destruição e a morte de milhares de pessoas, entre elas crianças e idosos. A letra começa dizendo na primeira estrofe, que “A vida era muito injusta. Nós vivemos nos nossos círculos seguros. E pessoas morrem aqui perto”; isso indica que há uma consciência de que a vida é cíclica, de que hoje acontece com você, mas amanhã poderá acontecer comigo ou com os que eu amo, e isso traz um sensação muito ruim. Susan Sontag aponta que “fotos de uma atrocidade podem suscitar reações opostas. Um apelo em favor da paz. Um clamor de vingança. Ou apenas a atordoada consciência, continuamente reabastecida por informações fotográficas, de que coisas terríveis acontecem[5], essa constatação ilustra bem o sentimento que Dolores nos passa com essa canção, pois ela nos toca no fundo de nossa alma ao imaginar a dor sentido por todos aqueles que choraram as muitas vidas ali perdidas, e como diz a letra, “Sarajevo erga outra sepultura.” Musicalmente falando a canção é magistral, dedilhado típico dos Cranberries, efeito delay, bateria militar fazendo alusão a marcha da guerra, violinos dando dramaticidade e carregando nossos coração de dor e inconformismo até culminar no refrão cheio de emoção na voz de Dolores e um jogo de clarinetas e clarins elevando a canção a um status de sinfonia. Com toda certeza após uma audição mais atenta será impossível não reconhecer a qualidade desse álbum tão subestimado por sua época quanto pela nossa também.



[1] TOSTA DIAS, Márcia. Os donos da voz. São Paulo: Boitempo, 2000. p.121.

[2] OLIVEIRA, Daniel. As dores de Dolores. Show Bizz. São Paulo, n. 09, p.39, setembro. 1999.

[3] OTERO, Edgardo. A origem dos nomes dos países. São Paulo: Panda Books, 2006. p.340.

[4] Op. Cit. p. 40.

[5] SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros.São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.16.

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