quinta-feira, 21 de maio de 2009


Ensaio.

A intocabilidade dos ídolos.


por Marlon Marques.








































1.


Geralmente os ídolos são colocados em locais especiais, no coração ou em altares. Há uma relação de intocabilidade que distancia os ídolos dos mortais comuns. Num dos quadros de Delacroix na série as “estações Hartmann” [Diana e Actéon], tem-se claramente essa idéia de distância entre mortais e imortais. Actéon observa [talvez acidentalmente] Diana banhar-se, a deusa furiosa fulmina o caçador tranformando-o em uma espécie de servo do mato. Há de fato uma distância, seja com seguranças em ternos negros rodeando as celebridades, seja no auto-posicionamento do público se colocando numa condição inferioridade ante seus ídolos. Tudo isso foi dito para dizer que Ronaldo não gosta de ser marcado. Embora o seu discurso [não tão politicamente correto] seja de humildade, acredito que ele não seja tão humilde assim. Digo isso por algumas declarações do fenômeno [sic]. Se reparar bem, Ronaldo sempre que termina o primeiro tempo, diz aos repórteres que vai falar depois, além de reclamar do fato dos repórteres avançarem nele como formigas avançam em tabletes de açucar. Esse é o preço da fama, é preço de quem é e dá notícia, de quem quer ser visto, e talvez o menino de Bento Ribeiro lá no ínicio da carreira, invejava os grandes craques procurados pela imprensa ou que eram capas de jornal esportivo. Normalmente os jogadores “comuns” quando um torcedor invade o campo [errado], tentão protege-lo da truculência dos seguranças, dia desses, um torcedor foi abraçar Ronaldo, esse ignorou o torcedor – que certamente foi lá para ve-lo – e quando esse torcedor foi agarra-lo, Ronaldo se afasta como que com nojo, como que ressaltando suas condições, a nobreza e a plebe. No jogo Corinthians e Ponte Preta, Ronaldo não gostou da marcação do zagueiro Gum, disse que o jogador parecia sua mulher o agarrando o tempo todo. O que o Ronaldo quer, jogar solto e sem marcação? Um jogador de sua categoria até poderia [deveria] ser mais marcado, pois os zagueiros parecem jogar com medo de tocá-lo, pois afinal de contas é o Ronaldo. Há um certo medo de que se encostar no Ronaldo o seu nome influenciará na decisão da arbitragem, como no penalti contra o Atlético Paranaense, ou como na falta que ele cometeu em André Dias do São Paulo, ou no lance da expulsão de Domingos zagueiro do Santos. Os marcadores quase o reverenciam em campo, é como se fosse um crime ocorrer o choque corporal envolvendo Ronaldo, basta lembrar que o meia-atacante ex-Flamengo Sávio, foi o jogador que mais apanhou no futebol brasileiro nos últimos pelo menos quinze anos. Lembro-me da decisão da Liga dos Campeões da Europa de 1994 entre Milan e Barcelona. O jogo foi 4 á 0 para o Milan, no Barcelona jogava com a camisa 10 Romário. Nesse jogo o baixinho nada fez, foi marcado em cima por Baresi e Maldini, pois não sendo assim, atacantes dessa qualidade decidem os jogos. Ronaldo tem mostrado que um mínimo de espaço que tiver é gol, seja contra times menores ou em grandes clássicos, seu faro de gol e sua colocação perfeita, compensão seus quilos à mais e sua falta de mobilidade. Ronaldo não está acima de ninguém no futebol brasileiro, acho que em campo ele deve ser tratado de forma igual, por árbitros e jogadores adversários. Ronaldo mostrou que é um de nós em seus lances de dor, mostrou ao mundo que até ídolos sentem dor, sentem vontades e cometem erros, muitos erros. No último jogo do Corinthians pelo campeonato brasileiro contra o Botafgo do Rio de Janeiro, Ronaldo puxou os cabelos do volante Fahel. O jogador disse que estava marcando Ronaldo com atenção, e por levar a melhor nos lances, deve ter irritado o atacante. Para tentar sair da marcação, Ronaldo puxou seus cabelos e meteu a mão em seu rosto, agora imaginem se o lance é ao contrário? Quando Edilson fez as famigeradas embaixadas no clássico contra o Palmeiras, todos disseram que era pra dar porrada mesmo no Edilson, que era anti-jogo. Se fosse o Ronaldo era lance de gênio, imagino o Luciano do Vale narrando e dizendo, que só um gênio como Ronaldo pensaria em fazer embaixadas naquele momento do jogo e desequilibrar o adversário. Temos que parar de hipocrisia e criticar o Ronaldo quando ele merecer, afinal ele erra também. O que Ronaldo quer é jogar numa redoma de vidro e não ter contato com imprensa, marcadores e torcedores, quer viver livre das pressões que cercam os jogadores no Brasil. Embora também sejam grandes, Milan, Real Madri, Inter de Milão, não tem um terço da cobrança que os grandes daqui tem. Ronaldo cansou de fazer partidas pífias na Itália e na Espanha, o máximo que ouviu foi uma vaia de alguns poucos segundos, aqui não, o futebol é mais paixão, perder gols em duas ou três partidas seguidas, você começa a ser questionado, Kléber Pereira e Keirrison sabem bem disso. Ronaldo quer estar acima de tudo e de todos, quer fazer, mas não quer que façam a ele, quer bater, mas apanhar ele não quer, quer que lhe abram os caminhos do gol como Moisés abriu o mar vermelho. O futebol para ter emoção tem que ser sério, resultados comprados e cartolagem tiram o que o espetáculo tem de melhor, a capacidade de nos surpreender. Quero ver o Ronaldo fazer belos gols com mais méritos seus do que com o medo dos zagueiros de marcá-lo, quero ver times serem campeões por capacidade e regularidade, não por malas pretas, quero ver os estádios cheios de torcedores, bandeiras e corações apaixonados, não de reverências baratas e corrupção.


1. O Verão - Diana e Actéon. Eugéne Delacroix, 1856-1863.

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