sexta-feira, 13 de março de 2009

Entrevista.

Dusty O´Connor.

Dusty O´Connor é um jornalista nascido em Ohio, filho de uma brasileira com um americano, tem como principal ocupação escrever sobre música, com maior atenção para o rock e o jazz. Graduou-se pela Ohio University, tendo concluído seus estudos na University Of Michigan, especializando-se em música e estudos culturais. O´Connor nunca conseguiu ser músico, porém compensou sua falta de talento com uma incrível visão sobre o mundo da música, cultura e artes, passou a escrever para blogs, revistas e publicou textos em alguns jornais locais. Atualmente Dusty reside na Filadélfia no vizinho estado da Pensilvânia, com seus dois filhos e sua segunda mulher. Nos conhecemos através do programa Soulseek, passamos a nos comunicar devido ao seu acesso em meu browser, estava baixando música brasileira, então resolveu me perguntar o que mais eu tinha fora o que estava disponível, foi então que passamos a nos corresponder, trocar músicas, arquivos e por fim estabelecemos uma parceria em artigos e textos, convidei-o a escrever para o blog “iosbilario”, e então surgiu a entrevista que você lê a seguir.

Marlon Marques.

Marlon Marques - O que você achou da eleição de Barack Obama?

Dusty O´Connor - Olha, não há como não dizer que o mundo não está mais esperançoso com a vitória do Obama, porém eu ainda acho cedo para apontá-lo como o salvador do mundo. A vitória do Obama representa a ruptura com uma era de desastres de todas as naturezas, sociais, ambientais, econômicos, políticos, essa é a herança nefasta que o Bush deixou para o Obama, e é nisso que eu fico um pouco cético. Mas acho que ele começou bem, escolheu bem a sua equipe de governo, porém acho que a Hilary se sairia melhor em algum cargo interno, algo como uma secretaria de políticas para as mulheres, ou até para os imigrantes, mas não a secretaria de estado. Acho que para um cargo dessa importância é necessário alguém com mais experiência e que seja da área de relações internacionais, não um Kenneth Waltz ou o Kissinger, alguém mais ponderado, mas quem?

M.M. - É o fim do império americano?

D.O. - Não sei se império é a melhor definição para os Estados Unidos. Agora quanto a perda de poder e importância dos Estados Unidos, isso não, acho que um gigante como os Estados Unidos, pode cair muitas vezes, mas morrer não. Talvez a teoria do Huntington se comprove no tocante ao que diz a respeito da multipolaridade. Acho que a China, a União Européia e a Rússia podem equilibrar a balança de poder internacional não deixando os Estados Unidos decidirem o rumo do mundo sozinhos, porém como disse a Hilary Clinton, os Estados Unidos não podem resolver tudo sem o mundo, mas o mundo também não pode resolver os problemas sem os Estados Unidos.

M.M. - O que mudou nos Estados Unidos após o atentado de 11 de setembro?

D.O. - Vejo duas mudanças principais depois do ataque. A primeira é sobre a reflexão por parte da sociedade de que não somos inatingíveis, e mesmo com todo o poder econômico, militar e político, podemos ser atingidos. A segunda é que a antiga sensação de conforto já não existe mais de forma plena, eu vivo na Pensilvânia, mas conheço pessoas em Washington e Nova Iorque, todos me dizem que ainda vivem com um certo receio de que algo aconteça, dizem que suas noites não são mais as mesmas, e que a sensação embora aparente ser de tranquilidade e paz, não é plenamente. Então vem a questão de que é necessária uma mudança política e cultural nos Estados Unidos, as pessoas precisam saber que não são melhores do que as outras, pois é a sensação da diferença e de inferioridade que causa muitos males pelos quais enfrentamos.

É necessária uma mudança política e cultural nos Estados Unidos, as pessoas precisam saber que não são melhores do que as outras, pois é a sensação da diferença e de inferioridade que causa muitos males pelos quais enfrentamos”.


M.M. - Como você vê o Brasil?

D.O. - Vejo o Brasil como um país com muito potêncial, mas com pouco planejamento. O Brasil deveria direcionar a maior parte do seu PIB para a educação, a tecnologia e a geração de novos empregos, e porque? A educação melhora os cidadãos, qualifica a mão-de-obra e ainda proporciona avanços na tecnologia. A tecnologia, faz um país tornar-se menos dependente dos que detém essa tecnologia, por exemplo, o Brasil tem petróleo, mas quase toda a tecnologia de extração vem de fora, então o Brasil deixaria de gastar no longo prazo na importação de tecnologia. A Índia já esta fazendo isso. E o trabalho melhora a auto-estima das pessoas, mantém a economia aquecida, pois com dinheiro e produtos nacionais baratos, todos ganham, no consumo e na geração de receitas. É um país rico em recursos naturais, muito bonito, porém a desigualdade eleva os índices de violência e a corrupção entrava o crescimento real e mais igualitário do país.

M.M. - Você é filho de uma brasileira com um americano, como americano, o quais os principais problemas do Brasil?

D.O. - Corrupção e desigualdade. A corrupção é o mecanismo que proporciona as coisas ficarem do jeito que estão, desiguais. A desigualdade provoca um caminho de mão dupla, ou seja, ou o cidadão se desilude com o país e estagna, ou parte para o crime e para a violência. Como eu já disse, o Brasil possue um grande potencial, porém sem o direcionamento certo, sem canalizar direito as riquezas que o país possue, muitos continuaram com pouco, e poucos continuaram com muito.

“É um país rico em recursos naturais, muito bonito, porém a desigualdade eleva os índices de violência e a corrupção entrava o crescimento real e mais igualitário do país”.

M.M. - Como você avalia a situação atual da música americana?

D.O. - Olha não estou muito por dentro da atual música americana, estou me dedicando mais a música de outros países. Porém o que eu vejo hoje é um grande predomínio do Rap, do pop de rádio e do R&B, as paradas estão inundadas por nomes como Kate Perry, Rihana, Pussy Cat Dolls, Justin Timberlake, Chris Brown, entre outros. Vejo pouco talento nessa gente, mas isso se deve pela atual crise intelectual nos Estados Unidos, isso se estende do cinema à literatura.

M.M. - O que você tem ouvido ultimamente?

D.O. - Pink Floyd, Captain Beefheart, música cubana, brasileira e alguma coisa de Angola, Moçambique e Guiné Equatorial.

M.M. - Quais os discos que mais te influenciaram?

D.O. - Olha não são bem discos, mas sim artistas. Cito o próprio Pink Floyd, com certeza Leonard Cohen e Nick Drake. Sempre ouvi muito Frank Sinatra e Ella Fitzgerald, meus pais ouviam muito, e com certeza os meus dois ídolos, The Byrds e Neil Young.

M.M. - Bruce Springsteen é um exemplo de patriotismo na música, o que você acha disso?

D.O. - Acho positivo desde que isso seja uma convicção de fato do artista. Alguns fazem só pra se promover, outros aparecem mais por conta do engajamento do que pela música. Não posso dizer que Springsteen não tenha seu valor, e que aparece só pelo engajamento, mas é fato dizer que ele andava um tanto sumido, e que aparecer ao lado de Obama na festa da posse foi uma oportunidade e tanto de se mostrar, não que precise disso, mas estava precisando naquele momento. A música pode ser usada como instrumento político e de conscientização do povo, mas isso não pode ser de forma falsa, se não vira mera promoção.

M.M. - Você é patriota?

D.O. - No bom sentido sim. Gosto de meu país, e por viver numa democracia, tenho o direito de dizer tudo o que não gosto nele, da política à cultura. E por isso sou um patriota, pois quero o melhor para o meu país, então votei em Obama e não compro nenhum disco do 50 Cent.


“Sou um patriota, pois quero o melhor para o meu país, então votei em Obama e não compro nenhum disco do 50 Cent”.


M.M. - O que você acha das ações humanitárias e envolvimento político de artistas, refiro-me a Bono Vox, por exemplo?

D.O. - Acho que Bono é muito mais uma celebridade do que um artista. Vejo nessas ações de Bono muito mais compensação pela má fase do U2, que já dura muito tempo, do que preocupação com o mundo. O que ele faz com a fortuna que ganha com as mega turnês do U2, doa aos pobres? Angelina Jolie e Brad Pitt enganam o mundo com essa pose de casal pós-moderno e multicultural, porém o que fazem é mostrar para o mundo que são artistas com consciência social, e isso soa muito bem para os produtores de cinema, que sempre os convidarão para fazer seus filmes, um ajuda o outro, e todos ganham muito. Agora veja, eles não deixam sua vida de luxo e excessos, gastando quantidades enormes de papel, água, comida e combustível contribuindo diretamente para a desestruturação ambiental? E não é só eles, Madonna, Leonardo Di Capri, Mel Gibson, são todos hipócritas.

M.M. - Qual a função da música?

D.O. - Divertir e informar. Vou na contra-corrente daqueles que defendem a música como instrumento de educação e como meio intelectual apenas. Não acho que toda música tenha que ter uma mensagem, pois se fosse assim, tudo seria muito igual e enjoariamos logo. Tome como exemplo a New Wave, você tinnha o Police que era politizado, mas havia também o Human League que era dançante e futil, mas não desrespeitoso como o Funk brasileiro ou o Rap americano, se falam de luxo e sexo explícitamente sem poupar qualquer palavra. Música também é pra se divertir, para dançar, ou simplesmente para ouvir, como temas instrumentais, ou ambient music. Não acho que a música deve educar ninguém, educação é função da família e da escola, isso é transferência de responsabilidade. A função da música é dialogar com nosso coração, nos fazer bem e nos deixar felizes e relaxados, é como uma terapia, nos leva para um mundo longe dos problemas cotidianos, além de nos provocar reflexão quando os temas são políticos e sociais, nos proporcionar amor, quando a música é romântica, ou deixar-nos num clima de paixão, tipo Chris Isaak. Acho mesmo que a música serve para nos ajudar a evoluir, pois a música tem o poder de penetrar em nosso íntimo e causar as sensações mais diversas e mostrar o que o ser humano realmente é, e é muito paradoxal, Bob Geldof inspirado na música criou o Live Aid, e Mark Shapman amando a música matou John Lennon, seja terna ou cruel a música nos define e nos desnuda, nos mostra quem somos, nos surpreende, nos emociona e nos faz viver dias melhores.

“Angelina Jolie e Brad Pitt enganam o mundo com essa pose de casal pós-moderno e multicultural, porém o que fazem é mostrar para o mundo que são artistas com consciência social, e isso soa muito bem para os produtores de cinema, que sempre os convidarão para fazer seus filmes, um ajuda o outro, e todos ganham muito. Agora veja, eles não deixam sua vida de luxo e excessos, gastando quantidades enormes de papel, água, comida e combustível contribuindo diretamente para a desestruturação ambiental”.

“É muito paradoxal, Bob Geldof inspirado na música criou o Live Aid, e Mark Shapman amando a música matou John Lennon, seja terna ou cruel a música nos define e nos desnuda, nos mostra quem somos”.


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