sexta-feira, 30 de janeiro de 2009






















Cocteau Twins – Stars An Topsoil.

O Cocteau Twins é uma banda escocesa formada no ano 1979 no mote inicial do pós-punk britânico iniciado nessa mesma época. Por fazer um som bastante soturno e cheio de atmosferas densas, logo foi coopitado para o ról “gótico”, embora esse rótulo nunca tenha sido aceito nem pelo Cocteau Twins, nem pelos demais nomes associados a ele. Sua pequena popularidade é toda no underground alternativo, nunca chegou a figurar o grande escalão das bandas midiáticas, mesmo tendo saido da pequena 4AD (Pixies) para a major Capitol Records. O som dos Cocteaus é tido como “dreampop” ou etéreo, sons plácidos que remetem a melancolia e a angústia da vida vazia dos anos 80, podendo ainda ser enquadrado no indie climático, porém com alta criatividade, especialmente nos arranjos das composições do líder da banda Robin Guthrie e da bela voz de Elizabeth Fraser. A base de seu som é o punk da new wave, leia-se, a economia dos três acordes [com incrementações e efeitos], bateria marcada, teclados e sintetizadores criando os climas sombrios das músicas. Os góticos logo se identificaram com esse tipo de música, justamente por representar musicalmente suas vidas, preto e branco, além da tristeza contida em todos os acordes das canções, tristeza de viver num mundo conflituoso [Guerra do Vietnã – Guerra das Malvinas], á beira do fim [Guerra Fria] e em resseção [Crise do Petróleo – Crise da dívida na América Latina], não sendo possível sorrir falsamente ou dançar como se o mundo andasse bem, como a Disco Music ilusóriamente acreditava. O disco “Stars An Topsoil” [4AD/ADA, 2000 UK] é uma coletânea que faz um bom panorâma da carreira da banda entre 1982 à 1990, é um disco aconcelhado aos neófitos em matéria de Cocteau Twins, pois abranje canções tanto depressivas quanto mais dançantes. São 18 faixas de um leve desespero e urgência, mas de rara beleza sem par no rock atual, um som vívido e apaixonante, rico em melodias, e adocicado com libo da voz de Fraser. Os destaques do álbum são muitos, começando pelo quase hit “Sugar Hiccup”, uma canção de ritmo constante e dedilhados de guitarra, é inevitável não associar com uma caminhada solitária por um noite triste, outra quase hit [pra ficar nos quase hits] é “Lorelei”, na mesma toada de dedilhado de guitarra, bateria constante e efeitos que lembram o retinir de sinos, destaca-se o sussuro de Elizabeth e as marcações de baixo no final da música. “Pandora” é um tanto jazzistica e embreagada de efeitos “delay” e ecos, lembra o mar em uma cena sem diálogo de um filme de Antonioni, serena e límpida como cristal, fala sobre uma paixão proibida. A faixa sete “Aikea-Guinea” é um cruzamento entre Loreena McKennitt e Joy Division, pois é lírico e enebriante ao mesmo tempo, faz-nos viajar por imensas planícies sem sair de casa, prende-nos num sonho perturbador, enquanto que “Pink Orange Red” é o um distante eco de Placebo e Low, com compasso descompassado [entendeu!] dois por dois [repare a marcação da bateria] e com Guthrie emulando as guitarras de Johnny Marr [The Smiths], deixando no ar um clima de enterro e cheiro de rosas e velas queimadas. Se “Pink” é um enterro, “Lazy Calm” é a ressurreição, é a canção que tocará no céu no dia em nele acordar, feche os olhos e deixe a canção penetrar em seus ouvidos, agora sinta as plumas das nuves transpassarem o seu corpo e se encante com a voz de anjo de Fraser nessa música, com claras influências de canto lírico e corais de catedral célta, os Cocteau Twins criaram uma das mais belas melodias dessa época. Embora todas sejam ótimas músicas, o último destaque vai para “Carolyn´s Fingers”, cantada numa mistura de inglês com dialetos escoceses, é quase inteligível aos ouvidos lusófonos, mas a beleza compensa a falta de entendimento, uma canção que mistura bateria de marcha militar com um voz tipo Kate Bush, embala-nos pelos bons sons de uma década amarga com tantas crises econômicas e figurinos bregas, com tantas modas passageiras e com tantas injustiças irreparaveis, uma década que nos proporcionou a trilogia do mal do The Cure [Seventeen Seconds, Faith e Pornography], “Juju” de Siouxsie and the Banshees e “Psychocand” dos Jesus and the Mary Chain não pode ser relegada a um mero reducionismo de lembranças amargas de Menudos e afins. O amargo gosto dos góticos pela vida soturna da noite e do encanto dos cemitérios, talvez seja pelo fato de que a noite traz-nos um certo mistério, um certo desconhecido, e pela perda das utopias e dos referencias, dada a desesperança de uma existência marcada por totalitarismos de direita, desemprego e monotonia, [não é toa que da luta punk da Legião Urbana de “Que País é Esse” tenha surgido um angústiante “Tempo Perdido”, pá de cal no sonho de diversos matizes – de Hippies resistentes à militantes de esquerda] é que essa alternativa torna-se a mais viável, uma auto-alienação consciente e induzida rumo ao nada, a um niilismo as avessas, corroborando com a constatação de Max Webber um século antes sobre o “desencantamento do mundo”, um encanto perdido já experimentado pelos Beatles nos anos 60, pelos Sex Pilstols nos anos 70 e por toda a geração gótica [entre aspas] [do qual os Cocteau Twins fazem parte] que marcaram a era Tatcher.

Marlon Marques.

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