segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Artigo.

Ronaldo e o anti-toque de Midas.

por Marlon Marques.



















Em primeiro lugar é necessário dizer: nem todo contato é necessariamente faltoso. Outra coisa, o bom e velho clichê – o futebol é um esporte de contato. Portanto, contatos ocorrem freqüentemente. Numa cobrança de escanteio, acontecem milhares de pênaltis, a pergunta é: todos são marcados? Voltando ainda nas cobranças de escanteio – se repararmos bem, quando a bola viaja pelo céu até cair com perda de força, os jogadores dentro da área vão se posicionando e nisso se encostando uns nos outros, se chocando, pelas costas, de frente e de lado. Isso é meramente a “física”. Os corpos não são vazados sem matéria – como no filme “Ghost: do outro lado da vida” – mas sim são sólidos, logo ocorrerá algumas situações. Ou ambos os chocados caíram ao chão, ou o mais fraco cairá ou até o mais forte se estiver já sem equilíbrio. E só para recorrermos a outro clichê – dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Tudo isso explica o lance capital (e talvez o mais polêmico de todo campeonato) ocorrido na partida entre Corinthians e Cruzeiro no Pacaembu (sábado, dia 14 de novembro de 2010). O lance aconteceu na área do Cruzeiro (gol defendido pelo goleiro Fábio). O atacante Ronaldo vai matar a bola quando se choca com o zagueiro Gil, o árbitro Sandro Meira Ricci não exita e marca pênalti para o Corinthians – aos 42 minutos da segunda etapa. Após ver e rever o lance, a imprensa e os torcedores se dividiram – uns disseram que o pênalti aconteceu e outros que não aconteceu. E como num jogo de soma zero, a vitória de um implica na derrota do outro, assim como a alegria e a tristeza. O pênalti na minha opinião não aconteceu, e antes de dizer porque, quero antes ressaltar: dada a condição de “árbitro caseiro” do senhor Meira Ricci (que não é mau árbitro) – e nesse caso aqui também de 99% dos árbitros do país – ele não daria o pênalti se fosse na área contrária (ou seja a favor do Cruzeiro). Ele também não teria (e tudo isso no campo da hipótese) marcado nada se o lance tivesse acontecido no meio do campo – jogada normal. Ricci sentiu o peso do Pacaembu lotado em preto e branco, sentiu o peso do centenário, a pressão, e na dúvida (apesar de não ter exitado em marcar a penalidade), sempre pró-ataque. Comecemos do começo – quando parte o lançamento, Ronaldo e Gil estão distantes um do outro e ambos se projetam para a bola. Num primeiro momento, eles correm para frente, ou seja, se já estavam distantes um do outro alguns centímetros, a matemática e sua proporcionalidade vão nos dizer que: a cada passo de Ronaldo e a cada passo de Gil na mesma direção, a distância entre ambos não se altera. O que então provocou o choque? De longe ninguém sabia onde a bola ia cair, então os dois jogadores foram se projetando pra frente e a medida que a bola foi deixando claro onde cairia, Ronaldo ao passar um pouco do ponto, levemente desvia sua trajetória para poder matar a bola no peito (Ronaldo vai para trás). Gil no impulso que ia (no afã de tirar a bola da área), não contava com o recuo de Ronaldo – e como não conseguimos controlar a “gravidade” – lembrando que essa é uma das quatro forças do universo – Gil não tinha como frear. Mas e a mão de Gil nas costas de Ronaldo? Na minha interpretação, Gil usou o instinto de proteção mais primal que existe. Veja bem. Se alguém ameaça chutar uma bola contra você, sua primeira reação é levar as mãos ao rosto, e para quê? – se proteger. Até mesmo em batidas de carro – comumente o motorista larga o volante e protege o rosto. Ou seja, usar as mãos é quase que automático, instintivo, natural. Gil ao perceber a iminência do choque (mesmo não esperando) projetou as mãos, não para empurrar Ronaldo, mas para se proteger. Então como se encostaram, a mão de Gil tocou as costas do atacante, um choque normal. Ronaldo ali também não teve culpa do choque – apenas recuou para poder dominar a bola e tentar investir contra o gol. Ronaldo aproveitou-se do choque, e ao sentir o encosto em suas costas, desabou. Se repararmos bem, desde que Ronaldo voltou a jogar ele não pode ser encostado por ninguém que logo desaba. Ricci tinha sua visão encoberto por Ronaldo, viu o lance parcialmente já que Gil está as costas do centroavante. O árbitro viu o fato apenas de relance, e na diagonal, não de frente. Ronaldo usou a mesma malandragem do atacante cruzeirense Thiago Ribeiro – num lance de suposto pênalti (que não ocorreu) no primeiro tempo. Thiago Ribeiro tenta driblar o goleiro corintiano, Júlio César retira seu corpo para não tocar no atacante, mas Thiago deixa sua perna propositadamente para ser tocada e simular um pênalti – que insisto, não ocorreu. Vendo o fato de relance (como o de Ronaldo) você diz: pênalti! Porque plasticamente a jogada é perfeita, parece pênalti e o espectador diz que é pênalti mesmo antes de ver o replay. O árbitro não tem o recurso do replay, sua decisão é na hora. Porém é uma questão de interpretação. O lance do Thiago Ribeiro, Ricci no micro segundo do lance e sem o replay, não marcou. O de Ronaldo ele marcou, também sem o replay e também com a decisão na hora. Porém errou. Não houve pênalti. A jogada de Ronaldo também é plasticamente convincente (como a de Thiago Ribeiro), mas fica claro que ele se jogou – talvez também porque Ronaldo viu onde o árbitro estava e decidiu cair e criar “a plástica do lance”. Tanto é, que Ronaldo quando caiu ficou lá no chão durante muito tempo, com a cara afundada na grama, talvez sorrindo, comemorando, ironizando. O fato é que nem todo contato é faltoso, e nem tudo que parece é. O árbitro é falível porque é humano, mas árbitro é como médico, não pode errar. Ricci é treinado para distinguir malandragem de inocência – porém o curioso é que o bolo passou do ponto, pois só conseguiu distinguir de um lado só – até que ponto o árbitro é mesmo neutro?




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2 comentários:

  1. Caríssimo colega Marlon. Fico triste em constatar que mais uma vez, o anti-corinthianismo impera no seu artigo. A prórpria foto que foto colocou, mostra claramente a penalidade. Se a intenção do defensor do Cruzeiro é tirar a bola, como ele queria cabecear uma bola que já estava praticamente no peito do jogador Ronaldo? A foto que vc mostrou é perfeita para ilustrar que, ao invés de cabecear a bola, o zagueiro do Cruzeiro desfere uma ombrada nas costas de Ronaldo que já tinha praticamente o domínio da bola. Parafraseando Arnaldo Cesar Coelho, o regra é clara: no futebol é permitido a deisputa corporal em igualdade de condições. Entretanto, em qualquer tipo de carga, que não seja ombro a ombro sobre o adversário, deve ser assinalado falta. Portanto, falta clara, e, dentro da área, penalti indiscutível...

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  2. Anônimo12:35 PM

    Então só pra usar o título do livro do Saramago, “Ensaio sobre a cegueira” você então. Nossa a foto é clara em mostrar outra coisa. A intenção do Gil era tirar a bola, tanto que na foto a cabeça dele está encurvada, se ele visasse o atacante ele estaria ereto e com as mãos as costas de Ronaldo. O contato, poxa é óbvio. Caso não queiram ter contato, o tênis, o ping pong, vôlei, videogame, esse não tem contato, empurrão, ombrada, etc. No futebol é inevitável. E discordo de você caro corintiano e igualmente de Arnaldo César Coelho, a regra não é clara, sim obscura. Em 2005 houve um claríssimo pênalti no Tinga do Internacional cometido pelo goleiro Fábio Costa – o mundo viu, e para o Márcio Rezende de Freitas não foi pênalti – então a regra não é tão clara assim, e sim mais interpretativa. Carga, onde você viu carga ali. Que eu sabia, a carga ocorre quando um se apoio no ombro do outro – e isso não ocorreu. E que bom que você tocou no ponto da área, pois caro amigo, se essa mesma falta é na outra área (contra o Corinthians), no Pacaembu lotado, no ano do centenário – o Meira Ricci, nenhum outro árbitro daria esse pênalti, e digo mais, se fosse contra seu time você seria o primeiro a dizer não tinha sido pênalti, sabe porque? – porque pênalti na área dos outros é refresco.

    Marlon Marques.

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