terça-feira, 28 de setembro de 2010


Crítica.

Leila Pinheiro - Meu Segredo Mais Sincero.


por Marlon Marques.

























Qual o seu segredo mais sincero? O de Leila Pinheiro ela revela em seu novo cd, com repertório só com músicas da Legião Urbana e de Renato Russo. Eles eram amigos – não sei se grandes amigos, mas tinham uma amizade num nível de chegar a compor uma música juntos – “Hoje”. Não é só porque têm guitarra que é rock, o que Leila Pinheiro faz em “Hoje” é mais um soft pop do que rock – com extremo bom gosto, sua voz suave vai destilando venenos irônicos como: “ninguém vai me dizer o que sentir” – trecho que Russo usaria em “Soul Parsifal”. O disco é bom, não chega a ser ótimo como estão dizendo mídia a fora. Talvez esse “ótimo” diga mais respeito ao respeito que Russo possui, e nem tanto pelas versões, como a insuficiente “Ainda É Cedo”. Leila também erra com a new age “Índios” – a letra continua atualíssima, ácida e cortante, mas se fosse feita tipo “cesta básica”, talvez poderíamos ter ressaltada toda beleza da magistral canção. Já em “Teatro dos Vampiros” ela acerta, e acerta em cheio. Optou por um minimalismo ao piano – com apenas pequenos efeitos ao fundo, isso esvazia o espaço, deixando a voz de Leila absoluta. O repertório escolhido por Leila também é dos melhores, pois no vasto e rico acervo da Legião Urbana, retirar 12 ou 15 canções, é tarefa das mais injustas. Leila mais acerta nas escolhas do que erra – embora erre às vezes no excesso de firulas e preciosismos, mas o que ela faz com “Angra dos Reis” chega a ser impressionante. A canção ficou grandiosa, com um arranjo futurista – levando a angústia do original para dimensões como incerteza por exemplo. “Daniel Na Cova dos Leões” também se reveste de riqueza, com um arranjo todo diferente, porém simples e muito agradável. E é daí que ela tira o título do disco: “faço nosso o meu segredo mais sincero, e desafio o instinto dissonante” – ou seja, suas escolhas, opções e visões de mundo ela compartilha conosco, tornando também nosso o segredo que é só dela. Há espaço também para as manjadas “Pais e Filhos” e “Há Tempos” – canções maiúsculas, fortes, que sempre – em qualquer momento, têem algo a nos dizer. Seja o conflito no seio da família entre pais e filhos, seja toda uma geração se perdendo, na apatia, nas drogas pesadas – e de como o tempo vai passando, anos nos anos. Será tudo isso apenas “Tempo Perdido”? Essa por sinal foi à primeira canção de Renato que chamou a atenção de Leila. Ali ela percebeu que havia todo um tesouro a ser descoberto. Aqui ela repete o minimalismo, fazendo com que a canção cresça junto com sua voz e sua dramaticidade, sua entrega, sua verdade. A verdade da música, a verdade do segredo: “não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora. O que foi escondido é o que se escondeu, e o que foi prometido ninguém prometeu, nem foi tempo perdido”. Há o resgate de pequenas e grandes pérolas – “Andréa Dória” e “Metal Contra as Nuvens”. Você já sabe para quem contar seu segredo mais sincero? Renato sugere um conselho: “feche a porta, do seu quarto, porque se toca o telefone, pode ser alguém, com quem você quer falar por horas e horas e horas” – “Eu Sei”. Um grande tratado sobre a alma humana, sobre o profundo da alma – e Renato Russo soube como poucos explorar com maestria esses meandros tão nebulosos. Um disco bem feito, um disco justo – pois faz justiça a um grande poeta não do rock como dizem uns e outros, mas da música brasileira, sem fronteiras, ou melhor, com fronteiras emocionais. Em suma, um disco sincero.




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Leila Pinheiro - Meu Segredo Mais Sincero. (Biscoito Fino, 2010).

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