sexta-feira, 4 de junho de 2010

Artigo.

Quem disse que as gordinhas não tem sexy apeal?



por Marlon Marques.

























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Discutir beleza é uma coisa extremamente complicada. Embora a estética enquanto área do conhecimento seja quase impenetrável, os leigos logo trataram de dar-lhe contornos populares, reduzindo-a a conceitos simplistas. Então é muito comum que cada um tenha o seu gosto, que cada um enxergue nessa ou naquela pessoa um conjunto de características que lhes agradam. Os conceitos de beleza são bastante mutantes. No final do século XIX, o grande pintor Pierre-Auguste Renoir dizia que mulheres magras não eram belas porque magreza era sinônimo de má ou não alimentação. Hoje as magras são exaltadas como as grandes divas e não a toa são modelos. O mesmo ocorreu com os tons de pele. Também no século XIX, ter a pele branca era sinal de nobreza, pois quem tinha pele morena era trabalhador, que ficava no sol labutando. Hoje as bronzeadas estão na crista da onda, vide as técnicas de bronzeamento artificial. Essa sociedade das aparências em que vivemos, nos trás como conseqüências muitos problemas de ordem social e de saúde. A anorexia se tornou um dos males do fin de siècle, as pessoas acima do peso passaram a sofrer discriminação e tornaram-se alvos de brincadeiras de gosto duvidoso e olhares depreciativos. Emagrecer a qualquer custo tornou-se o novo Eldorado das pessoas, logo ser magro é mais importante do que ser um bom cidadão e isso enlouqueceu as pessoas. Sempre ouvi reclamações dizendo que as confecções e as grandes redes de roupas só favorecem as magrinhas. Parece até que eles partem da premissa que todo mundo é magro. Parecem não ver que nas ruas a maioria das pessoas está acima do peso, fora de forma e que não necessariamente estão (ou são) infelizes por causa disso. Dá para ser feliz mesmo não tendo um corpo escultural, definido e etc. Acredito que a não-aceitação do corpo pode levar a uma não-aceitação de si, o que por sua vez pode levar a quadros depressivos. A questão é que gordos ou foras de forma também se vestem, também compram roupas e também são humanos. Parece haver um certo apartheid com base na balança, onde os magros formam uma sociedade a parte enquanto que os gordos e outros formam uma outra. Veja as novelas por exemplo, quando um gordo ou uma gorda são protagonistas, galãs ou mocinhas? É sempre o mesmo estereotipo, branco, olhos claros (azuis ou verdes), magro e de preferência loiro. É um modelo europeu que todos devemos seguir. Não é atoa que muitas mulheres tingem os cabelos de loiro, por uma questão de aceitação. Certa vez eu ouvi numa empresa em que eu trabalhava um rapaz dizer sobre uma loira que adentrava o recinto: “nossa, pela pose essa deve ser a diretora”. E não era. Também defendo o direito – como Voltaire, de que cada um se sinta melhor como quiser, inclusive dos gordos que querem ser magros a todo custo. O que não concordo é com os discursos de inferioridade, onde nos levam a crer que um magro é mais bem sucedido ou feliz que um gordo. Nas escolas essas questões também estão muito presentes. A magrinha é cobiçada e alvo de namoros ou ficadas, a gordinha só serve para ser a amiga e passar cola nas provas. A forma torna-se o corte e a linha que divide a amizade de um algo a mais. Saibam vocês que as gordinhas têm muito sexy apeal. Em nada ficam devendo a nenhuma magra não. A sensualidade em nada têm haver com a forma do corpo ou com a beleza do rosto por exemplo, mas sim em como você usa esses elementos no momento de intimidade. O cinema perpetua imagens no imaginário coletivo. A sensualidade e burrice das loiras se devem ao filme Os Homens Preferem as Loiras estrelado por Marilyn Monroe, e uma das maiores inverdades históricas atende pelo nome de Elizabeth Taylor. A linda diva do cinema viveu nas telas a rainha Cleópatra, que as pesquisas trataram de nos dizer que não era bonita como Taylor, mas sim sensualíssima, a ponto de apaixonar dois imperadores romanos. As gordas não podem ser sensuais por causa do corpo? E a harmonização dos outros elementos, isso não conta nessa questão? As mulheres gordas em geral são bonitas de rosto, mas muitas pecam quando escolhem figurinos que não são compatíveis com seu biótipo. A indústria da moda é muito responsável por isso também. Impõe pelos desfiles, propagandas e revistas um modo “certo” de se vestir, aludindo que quem não estiver vestindo assim, ou vestindo esse ou aquele estilista, é brega, cafona, e em casos mais extremos ridículo. Criar categorias como essas é perigoso, pois as pessoas menos desprovidas de espírito podem acreditar nisso. A indústria da moda faz um desserviço ao rejeitar as gordas, como diz Eli Hadid na agência Mega: “gordinha não tem de desfilar, tem de ir para a academia malhar”. Porque uma gorda não pode desfilar? Porque não podem servir de corte para uma moda de pessoas acima do peso, ou gordos não se vestem? Isso sim é ridículo. É bom que fique claro aqui, que isso não se trata de politicamente correto ou multiculturalismo. O que é no meu ponto de vista, é apenas reconhecer que tanto há beleza nos gordos quanto nos magros, e feiúra nos gordos quanto nos magros. Dia desses eu estava no metrô reparando nas pessoas, vendo a todos que entravam e saiam com o parar nas estações. Vi no canto do vagão uma moça de costas, capuz na cabeça, um blusão grosso de inverno até a dobra da perna. Não dava para vê-la direito. Algumas estações antes de eu descer, ela encontrou num dos bancos de seu lado oposto uma amiga. Tirou o blusão e deu-o à amiga junto com a bolsa, tirou o capuz e atraiu os olhares do vagão inteiro. Daquele capuz saiu um longo e sedoso cabelo negro como noite, seu rosto arredondado abrigava um sorriso tão cativante e reluzente que chamava muita atenção. A moça gesticulava muito, mas sem ser espalhafatosa. Falava bem, era bem articulada, sem ser aparecida. Tinha os olhos castanhos bem vivos, sobrancelhas bem feitas e bochechas coradas. Parecia simpática e amável, porém era gordinha. Logo lembrei que conheci várias meninas assim. Muitas com essas mesmas características, pessoas muito bonitas por dentro e por fora, inteligentes e extremamente atraentes, pelo conjunto. Isso me fez refletir que as mulheres gordinhas são iguais a qualquer outra. Não há nem superioridade e nem inferioridade. Há diferenças de personalidade, gostos, caráter e formas de tratamento e que muitas são sensuais, amorosas, simpáticas e que não é o corpo que as deixarão em desvantagem. Nunca concordei com a suposta desvantagem que as gordinhas têm em relação às magras, porém depois de ter visto a modelo Stefanie Medeiros – 68 quilos, 98 cm de quadril e 1,74 m de altura, a não-concordância virou certeza. Gordinhas nunca mais se sintam mal por essas questões de forma, pois há como ser feliz da “forma” como se é, porque há quem enxergue retas onde se vêem apenas curvas.





























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Notas.

1. Boris Kustodiev - The Beautiful (1915).

2. Stefanie Medeiros em campanha da Maria Filó coleção 2009.

3. Modelo em desfile em Londres.

4. Modelos em matéria para Revista V.






























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