domingo, 25 de abril de 2010


Artigo.


Copa do Mundo como prioridade no país dos problemas sócio-raciais.



por Marlon Marques.






































Se apropriando da frase de Karl Marx sobre a religião, muitos dizem que o futebol é ópio do povo. Porém embora os defensores do futebol (como eu) fiquem listando uma série de características que fazem com que o futebol seja o mais importante dos esportes, uma coisa deve ficar clara, futebol muitas vezes é apenas entretenimento quando comparado a outras coisas. O futebol é meio de ascensão social apenas para os envolvidos diretamente com o esporte, porém para os torcedores não. Muitos são irresponsáveis ao ponto de deixar de comprar mantimentos para casa para comprar ingressos de partidas de futebol. É claro que o futebol mexe com paixões, mas há que se pesar na balança a importância das coisas. África do Sul e Brasil são enquadrados internacionalmente como países em desenvolvimento. Só como comparação regional, vejamos as diferenças de PIB entre os dois citados e dois países do mesmo continente. O PIB brasileiro está em torno de 1, 955 trilhão de dólares, sendo o oitavo PIB do mundo, já a Argentina tem um PIB de 523, 7 bilhões de dólares. Já o PIB da África do Sul está em torno de 467, 95 bilhões de dólares (para mais), já seu vizinho (e em crescimento também) Botsuana tem um PIB estimado em 25, 676 bilhões de dólares. Nos dois casos a discrepância é grande, e mesmo com os dados a favor, e toda euforia envolvida, é inadmissível que esses dois países sejam sede dos dois próximos mundiais de futebol. Os problemas internos são muitos, que vão de direitos humanos á saúde, e de educação a geração de empregos, isso sem contar a segurança e a questão agrária. O Brasil só para citar, não consegue resolver as questões do campo, assim com os problemas urbanos, principalmente no Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória e Recife, as cidades mais violentas do país. Esses problemas também assolam a África do Sul, e assim como no Brasil o governo não consegue resolver. O desenvolvimento da África do Sul pode ser explicado pelo sul do país, principalmente com os primeiros assentamentos holandeses no século XVII que dariam origem a atual Cidade do Cabo. O isolamento marcou essa primeira etapa da ocupação do território negro pelos europeus. O século 17 marca o apogeu do capitalismo flamengo, e como ainda estamos falando de capitalismo mercantil, a escravidão é fator decisivo nesse processo. Os negros foram então escravizados, isso durou quase dois séculos. Com o declínio holandês no cenário internacional e com a ascensão (e depois hegemonia) inglesa, a colônia do cabo passou para as mãos dos ingleses em 1815. Como era típico da mentalidade inglesa (colonização self governament), as elites holandesas continuaram no poder. A principal medida adotada pelo governo inglês, alterou as perspectivas dos colonos holandeses na região, em 1833 a escravidão é abolida como conseqüência do liberalismo econômico dentro de uma nova configuração do capitalismo. Os bôeres ou africâneres (holandês sul-africanos), descontentes com a situação, decidiram migrar para o centro do país em busca de novos ares. Nessas regiões, negros e brancos passaram a travar grandes disputas territoriais, isso sem contar as riquezas em minérios e pedras preciosas que desencadearam as chamadas Guerras dos Bôeres (1880-81 – 1899-1902). Entretanto, desde o governo de Jan Smuts chegando a Nelson Mandela, nenhum governante sul-africano conseguiu resolver as questões de fundo, como agricultura, já que as questões raciais já estavam postas e só foram agravadas. Além dos minérios, as commodities são os principais produtos exportados pela África do Sul, então a agricultura é fator chave da economia e também ponto de atenção na política do país. Alguns analistas apontam que um dos principais motivos do assassinato de Eugene Terreblanche, fora a questão agrária, ligada a questões políticas e raciais. Políticas porque Terreblanche era o principal opositor de Jacob Zuma. Raciais porque Zuma é um zulu, enquanto que Terreblanche é bôer, um representando os negros e o outro os brancos. E agrárias por conta dessa tensão que dura séculos da reforma agrária inclusive não resolvida por Mandela, líder que governou para negros e brancos num regime interacial. Desde 1994 muitos assassinatos ocorreram no país, sendo que a maioria dos mortos eram fazendeiros brancos e seus familiares (mas em escala menor agricultores negros também o eram). Como grande parte das terras estão nas mãos dos brancos e Terreblanche representava a continuidade dessa política de favorecimento branco, os negros foram acusados de assassinar o opositor de Zuma. O líder Nelson Mandela iniciou um processo de distribuição de terras justo em 1994 – porém essa medida consistia em partilhar 30% das terras dos bôeres, porém apenas 5% dessas terras foram de fato dividas. Essa ineficiência gerou graves problemas. Os negros que não tiveram direito a terras, passaram a matar os brancos e ficar com suas terras, e os brancos que perderam suas terras passaram a assassinar os negros beneficiados. Zuma que se definiu como socialista, já se pronunciou a favor de partilhar as terras dos brancos, isso significa mais de 40 mil fazendeiros brancos, o que agravou as questões agrárias e as questões raciais no país. Voltando ao futebol, calcula-se que o custo da Copa do Mundo está em torno de 3,5 bilhões de dólares. Como governo paga pelas terras, o custo total restante para redistribuir as terras é de 9,4 bilhões, que poderia ser a prioridade ao invés da Copa. Isso sem contar que grande parte da infra-estrutura construída para o mundial será pouco utilizada após o termino do campeonato. Nesse caso, quando há problemas mais sérios a resolver, o futebol torna-se se não terciário, pelo menos secundário. Porém o ser humano é igual em qualquer parte do mundo, e é com entusiasmo que o povo sul-africano vê a Copa, não como um grande mal a nação. Passado um mês de jogos e um campeão definido, o povo continuara na mesma, como comprovam os indicadores sociais do país, o Gini, IDH, alfabetização, mortalidade infantil, expectativa de vida, entre outros. Eu sempre defendi a tese de que Copa do Mundo só deve ser realizada em países desenvolvidos, ou no mínimo para democratizar, que os demais países que quisessem sediar o mundial, seguissem uma série de medidas que visem melhorar as condições gerais (e mais importantes) do país.




























































































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