terça-feira, 1 de setembro de 2009

Artigo.

Embriaguez ou insensatez: Vanusa e a vergonha da nação.

por Marlon Marques.

















essa hora Osório Duque-Esrada deve estar se revirando em seu túmulo, e tudo por causa de Vanusa e da Assembleia Legislativa. De Vanusa pelo assassinato do belo hino nacional, e da AL por ter chamado Vanusa para cantá-lo. Nesse momento me vem a cabeça uma questão, num país tão orgulhoso de ser considerado um país de cantoras, e com tantas no auge da carreira, porque reabilitar do ostracismo alguém que nem no auge demonstrava tanto talento? Enfim, o que vamos analisar aqui é a performance da cantora Vanusa na cerimônia do 1º encontro estadual de agentes públicos de São Paulo. Outro parêntese, cerimônias desse tipo são pautadas pelo rigor dos convidados, são solenidades onde participam pessoas importantes da vida pública do estado, portanto, tratava-se de algo importante. Porém do Brasil não se espera muita coisa, num país que banaliza seu próprio hino deixando-o ser interpretado por gente do calibre de Sandra de Sá e Maurício Manieri, e onde seus próprios habitantes – em sua esmagadora maioria – não sabem cantá-lo. Vanusa tratou de se justificar seu pífio desempenho alegando ser efeito do uso de medicamentos. Bom, essa não deve ter sido a primeira vez que ela tomou o tal remédio, e sendo ela uma mulher bastante vivida, deveria saber quais os efeitos causados pela medicação. Porém, o ser humano é assim, jamais admite seu erro. É se lembrar de Adão após a queda. Quando Deus chega ao jardim e pergunta sobre o ocorrido, Adão logo rebate dizendo que a culpa fora da companheira que Deus lhe deu, ou seja, a culpa foi do próprio Deus em lhe dar aquela companheira. Vanusa poderia ter admitido a verdade, seria mais nobre. Mas que verdade é essa que vos falo? Muitos levantaram a hipótese de ter sido efeito de álcool ou drogas, mas Vanusa foi veemente dizendo que irá processar aqueles que vieram com essas suspeitas. Entre fato e versão, ficamos com aquele que nos for mais conveniente, ou mais convincente. Eu acho que AL só convidou Vanusa por uma questão financeira. Imagine só o falatório, "ao invés de gastar dinheiro em obras públicas, ficam convidando cantoras pop para eventos sem sentido". Isso no caso de uma Ivete Sangalo ou Marisa Monte, ou até de uma Ana Carolina. Agora Vanusa, a esquecida Vanusa, o cachê não deve ter sido caro, se é que foi deduzido como despesa nas contas da AL, podem ter colocado como cortesia da cantora afim de reaparecer. Mas justiça seja feita a coragem de Vanusa. Coragem de passar uma vergonha desse tamanho em público, e de ser motivo de chacota no youtube, sendo vista por milhares de pessoas. Mas esse ato também pode ser visto e enquadrado no que se chama de "brasilidade". Mesmo no vexame eu não abaixo a cabeça, levanto, limpo a poeira e dou a volta por cima, erro, mas não desisto nunca. E isso ela fez, até ser abrupta e sabiamente interrompida, por pelo menos três vezes. O primeiro erro de Vanusa foi logo na primeira estrofe, na segunda frase. "De um povo heróico o brado retumbante", ela cantou, "Di um novo heróico e brado retumbante", o "di", é muita implicância e puritanismo, mas o "um novo heróico" não. O público ou não percebeu ou não ligou, deu um voto de confiança, afinal, a confiança é um item da brasilidade. Outros dois detalhes, Vanusa estava lendo a letra do hino, e [reparem bem] no momento em que canta "gigante pela própria natureza", ela ergue a mão direita numa pose de plena convicção, como os cantores de ópera. Aí que os problemas começam. É como a velha teoria da caos explica, pequenas causas geram consequências enormes. Esse erro desencadeou uma série horrível de desastres, improvisos e outras amputações ao nosso hino. Ao invés de cantar "és belo, és forte, impávido colosso", Vanusa cantou, "és belo, és forte, és...risonho...e límpido", ou seja, improvisou como todo brasileiro. Fica no ar outra dúvida, o melhor seria parar e continuar certo, ou ter feito o que ela fez, ou ter feito diferente do que ela fez, mas também improvisando? Nesse momento é que Vanusa se supera, ela consegue ao mesmo tempo, cantar sem ritmo, com voz trêmula e errado, tudo ao mesmo tempo agora, como o disco dos Titãs. "Se em teu formoso, risonho...e límpido, a imagem do cruzeiro". Um dos convidados da cerimônia desvia o olhar desconfiado, e pensa por um instante no que faria caso fosse um avestruz. Vanusa retoma a estrofe cantada errada, a cantando de forma correta, e quando entra no refrão, sua voz é totalmente estranha, como se num transe, numa possessão. Aos três minutos e quarenta segundos, simultâneamente ao início das primeiras palmas de interrupção, a câmera focaliza Vanusa. É notória a expressão de vergonha, vontade de sumir e de quem percebeu que as pessoas perceberam em seu rosto, há um ínfimo silêncio contido. Ela ignora. Prossegue cantando, "deitada em bérço esplêndido, ao som do mar e a luz do céu, profundo", faltou aí, o eternamente, o que faria o deitada passar batido. O hino diz que o brilho é do Brasil [fulguras, ó Brasil, tu fulguras] e que o país é o enfeite, o adorno do continente [América]. Vanusa canta outra coisa, "fulguras ó Brasil foram da América", ou seja, as fulguras aqui ela diz ao Brasil que foram da América. Prossegue-se uma sucessão de desastres, "que a terra mais garrida", ao invés de "do que a terra", "teus risonhos, lindo quampos", "nossas vida mais amores". No segundo "salve!" da segunda parte do hino, o mestre de cerimônias do evento, num ato nobre e inteligênte, agradece a participação de Vanusa, enquanto ao fundo, duas ou três palmas no máximo são ouvidas. Mas Vanusa continua cantando e entoa um profundo verso redundante: "Brasil de eterno sempre". A atuação de Vanusa traduz bem o que é o Brasil, um equívoco. Nos mostra o que sempre acontece, como coisas boas são estragadas por nós, porque o ato de Vanusa é o nosso ato, pois muitos de nós como já foi dito não sabemos cantar corretamente o hino. Nossa irresponsabilidade social é comparável ao da AL ao convidar Vanusa para o evento. Os erros de Vanusa são os erros políticos que lemos nos jornais ou assistimos nos noticiários. Drumond estava poéticamente certo e realisticamente errado quando disse que: "o Brasil é uma república cheia de árvores e pessoas dizendo adeus", não caro poeta, o Brasil é uma república de cegos sendo conduzidos por outros cegos. E como já bem disse Aristóteles, "o incongruente leva necessáriamente a comédia", e nesse caso é bem verdade.












link do vídeo no youtube.










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