sábado, 25 de abril de 2009

Ensaio.

Perdendo a fé não!, perdendo a religião (Loosing My Religion).


por Dirce Dalila & M.M.






















[A incredulidade de São Tomé - Caravaggio, 1599].


É muito comum relacionar fé e religião, porém embora sejam elementos contigüos, são dissossiáveis, mas a religião não sobrevive sem a fé, mas a fé existe sem religião. A religião é o meio em que um humano chega a Deus através de um outro humano, ambos iguais, agora a fé é o meio onde um humano chega até Deus diretamente, sem intermediários. As religiões se apropriam de Deus como se Deus fosse um produto, porém isso é fruto do próprio capitalismo, que transforma tudo em produto dotando tudo também de valor monetário. Uma das qualidades de Deus é a onipresença, ou seja, ele está em todos os lugares, e onde estiver dois ou três ajuntados em meu nome ali eu estarei, indica que isso pode ser em qualquer lugar, não há um contrato de exclusividade com uma cláusula que diga que Deus é das religiões e só está nas igrejas. Ele está lá também, mas como disse Hermes Trismegistus: “Deus é um círculo cujo centro está em todos os lugares e cuja circunferência não está em lugar nenhum”. As igrejas não são locais ruins, pelo contrário, são celebrações do nome Deus, são cantados louvores e feitas orações, porém não concordo com o Papa Bonifácio VIII, “não existe salvação fora da igreja”, isso é ele quem diz, pois Cristo diz: “eu sou o caminho a verdade e a vida, e ninguém vai ao pai se não por mim” [João 14:6]. Religiões são impositivas, algumas até ditatoriais, são discriminatórias, excludentes, intolerantes – é só pensar no conflito entre cristãos e muçulmanos, e entre católicos e protestantes, ambos cristãos. É um erro usar o nome de Deus para justificar barbaries, as cruzadas, o ataque as torres gêmeas, suicídios coletivos, todos esses atos tiveram justificativas sagradas, todos os que matam ou morrem se dizem arautos da paz e de Deus, mas será que realmente Deus concorda com isso? A fé é uma particularidade de cada pessoa, como se diz, “ a fé é individual”, é a capacidade de cada um de crer com real convicção em algo, em acreditar na realização de alguma coisa, é a comunicação transcendente com Deus ou com a divindade em que se crê. Não há como julgar fé ou quantificá-la, fé não se coleta no sangue, não sai na urina e nem consta na inscrição do DNA, é algo sensorial, que se dá no espiríto, não na matéria. Fé não se transplanta em hospitais, e nem se adquire em nenhum lugar, nem mesmo na igreja, não se obtem através da religião. Porém a religião tende a descredibilizar a fé das pessoas que estão fora dela, essa fé parece não valer nada, parece não ter resultado. Os programas de TV religiosos vivem a exibir seus resultados, vê-se sempre coisas do tipo – venha para minha igreja, aqui você conseguirá dinheiro, curas, emprego – ou – está com problemas conjugais?, deve ser inveja, trabalho feito ou macumba, nós temos a solução. E a gana de conseguir novos adeptos faz com que as pessoas se sintam desconfortáveis com os modos de abordagem de missionários, seguidores e irmãos. Te abordam na rua colocando as mãos em você, te puxando pelo braço ou pelo ombro, dizendo que Deus quer abençoar sua vida, como se sua vida já não fosse abençoada por ele, como se nós também não fossemos seus filhos e não fizessemos o bem, que é a sua vontade, presumo eu. Se você aceita um convite e vai a uma igreja, logo vira o centro das atenções, pois os fiéis sabem que você não pertence aquele grupo, eles sentem o cheiro de carne nova, e começam a te convidar a voltar mal você sentou, e minutos antes de acabar a reunião ou culto, algum te lembra que na próxima semana tem mais e contamos com sua presença. Se você demorar um mês para aparecer, logo irão perguntar o que aconteceu, e vão te dizer que há algo de especial para acontecer na sua vida e que ali é seu lugar, e que você não deve mais sair, deve voltar sempre e se batizar, se converter, mesmo que você diga que não é a hora certa, eles diram que Deus revelou que é. Não questiono o sistema de revelação divina, Deus usa as pessoas como instrumento, questiono o fato de que Deus toca no coração das pessoas, você sente sua presença e seu poder, como que penetrar em seu corpo, e Deus muitas vezes chega a alguém diretamente, aliás, ele é onipotente também. As religiões causam desconforto, pressionam as pessoas, e usam Deus como peso de consciência, como quem quer dizer, “se você não for a igreja Deus irá castigá-lo”. Não é boa a sensação da pressão, assim como não é bom sentar em um banco menor do que as proporções de seu corpo, é desconfortável, isso afasta as pessoas das igrejas, porém as pessoas não perdem a fé, perdem a religião. Você nasce e a força da tradição faz seus pais procurarem alguém de quem gostam no momento para ser seu padrinho, então vão a igreja mais próxima e banhão-te nas águas benzidas por um padre e pronto, você é mais um católico. Na verdade você não sabe disso, você é mais um número numa estatística que diz que o Brasil é o maior país católico do mundo, mas efetivamente muitos se dizem sem religião, então vêm os religiosos e chamam essas pessoas de ateus. Pois eles não concebem a idéia de que existe Deus sem religião, e que mesmo você não fazendo parte de nenhuma denominação, poderá ser salvo, se fizer o bem e tiver fé [de modo pouco aprofundado]. A religião é um instrumento de alienação, Deus não, a religião não controla a medida de seus atos, Deus tem a medida certa para tudo, é o arquiteto do universo, o geômetra de William Blake, a religião foi criada e é feita por homens, portanto imperfeita, Deus não, é perfeito, embora tenha nos criado e somos imperfeitos, nos criou perfeitos, sua imagem e semelhança, porém nos dotou de livre arbitrío, o desobedecemos e caímos, nos tornamos imperfeitos. Somos incrédulos não como Tomé que duvidou que era mesmo Jesus ressurecto, somos incrédulos de que a religião irá resolver os problemas do mundo, trazer mais harmonia aos homens, propagar a mensagem de Deus com o objetivo de salvar vidas, não de conquistar novos adeptos e angariar fundos. Deus não é um produto comercial, nem mesmo um produto social como nas concepções de Marx e Comte, Deus é a transcendência do amor e da esperança, é o criador de tudo, o cobertor do que tem frio, a luz dos que vivem na escuridão, é o alfa e o ômega, o início e o fim, é onde todos os anseios e medos se esvaem, é onde se canaliza a última porção de esperança desse mundo. Não estamos deixando a fé em Deus, estamos deixando de crer na religião, nos homens infalíveis e nos de de ternos bem engomados, não cremos mais na venda da salvação e na imobiliária celeste, não, não rezem por nós, pois assim está escrito: “crê no senhor Jesus que estarás salvo tu e tua casa” [Atos 16:31], crê no senhor Jesus, não na religião X ou Y, ou na igreja Y ou Z, no senhor Jesus, portanto, não perca sua fé, pois se perder sua religião ainda nada estará perdido.


"É um erro usar o nome de Deus para justificar barbaries, as cruzadas, o ataque as torres gêmeas, suicídios coletivos, todos esses atos tiveram justificativas sagradas, todos os que matam ou morrem se dizem arautos da paz e de Deus, mas será que realmente Deus concorda com isso?"

"As religiões causam desconforto, pressionam as pessoas, e usam Deus como peso de consciência, como quem quer dizer, “se você não for a igreja Deus irá castigá-lo”. Não é boa a sensação da pressão, assim como não é bom sentar em um banco menor do que as proporções de seu corpo, é desconfortável, isso afasta as pessoas das igrejas, porém as pessoas não perdem a fé, perdem a religião."


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