sábado, 28 de fevereiro de 2009

Entrevista.

Ladislau Smack é um crítico de música muito inspirado no trabalho de nomes como Greil Marcus e Simon Reynolds, tendo colaborado com blogs, fanzines e revistas eletrônicas com artigos e ensaios sobre música em geral, especialmente rock. Embora Ladislau não aprecie somente o rock, tem nesse tipo de música sua predileção, e assim como Camille Paglia, considera o rock como arte, mesmo sendo pop e contemporânea, mas arte. Além disso faz conexões entre a sociologia, a filosofia e a música, dizendo que o rock tem um papél muito importante na sociedade e na cultura jovem. Essa entrevista foi feita via e-mail devido aos muitos compromissos que atualmente Ladislau possui, mas gentilmente respondeu a todas as questões postas, falou de política, de Barack Obama, do rock atual, e outras coisas mais, confira agora como foi essa conversa.

por Marlon Marques.





















Ladislau Smack. (acervo, 2008)


Marlon Marques – Como se deu seu primeiro contato com a música e posteriormente com a crítica de música?

Ladislau Smack - O primeiro contato foi através de meus pais, que sempre gostaram de música sertaneja, moda de viola, etc., eu ouvia mas não gostava, até que em 1985, aos 13 anos, uma colega de escola me falou de uns sons que ele ouvia. Esses sons eram bastante diversos, mas o que me chamou mesmo atenção foi o Smiths, o The Cure e o Metallica, esses me impressionaram de primeira, e então passei a fazer parte de algo que eu me identificava. Agora quanto a crítica de música aconteceu naturalmente quando eu ainda era um estudante de Letras na universidade. Criamos um zine, aqueles xerocados sabe, e passamos a escrever sobre autores preferidos, filmes e música. Depois de uns dois volumes do zine, ele foi ficando mais sério e organizado, um dos meus amigos na época resolveu dividir o pessoal por áreas, eu então fiquei encarregado da música, que a princípio eu não queria, foi assim que comecei.

M.M. – Essa época que você começou é bastante emblemática pela diversidade de tribos que habitavam o mundo do rock, góticos, punks, metaleiros, entre outros, você chegou a participar ou se indeficar com algum desses grupos?

L.S. – Participar não, digo diretamente, mas me identificar sim. Eu andava na época com uns caras que curtiam o som punk, tipo The Clash, Black Flag, Dead Kennedys, e de certa forma eu me indentificava com as letras, com a forma de encarar a vida e os problemas sociais que essas bandas tratavam.

M.M. – Então pra você qual é o objetivo do rock?

L.S. – Não acho que o rock tenha um objetivo específico, mas se tiver com certeza é a diversão e a sinceridade. Diversão no sentido de que o rock surgiu como contraponto da seriedade dos pais em relação aos filhos, a vida não é só trabalho, mas deve ser alegre, como a New Wave nos mostrou. E sinceridade porque um artista nunca deve menosprezar o seu público, se vendendo a uma corporação, mentindo, ou cantando uma coisa que de fato não o é.

M.M. – Na sua opinião quais são os melhores cantores de rock de todos os tempos?

L.S. – Gosto muito da voz do Shane MacGowan do Pogues, gosto também do timbre bem colocado do Michael Stipe do R.E.M., deixa ver quem mais[…], há, o Maynard James Keenan, pra mim é a melhor voz em atividade, é suave e tem uma grande potência.

M.M. – E quais os cinco melhores discos que você já ouviu?

L.S. – Pergunta difícil. [rs] Pet Sounds dos Beach Boys é perfeito, lindo, magistral, definiu junto com o Revolver do Beatles o pop de todas as décadas até hoje. O Revolver também, marcou muito, traz todas as inovações e todo brilhantismo do pop antes mesmo dos Byrds, Kinks e dos próprios Beach Boys. Out Of Time, é um disco muito coeso, e muito além do que Loosing My Religion, é que as pessoas não ouvem os discos direito e ficam com uma impressão muito rasteira das coisas. Acho OK Computer um ótimo disco também, é um marco na história do rock, nos indaga sobre nossas próprias incertezas e sobre o futuro, e o último, Angel Dust do Faith No More, ignorado quando saiu, mas o tempo o redimiu, esse disco apontou o futuro da música pesada, além de trazer um FNM num momento muito inspirado.


O que o rock precisa não é de salvadores, mas sim de transgressores, inovadores, revolucionários.”


M.M. – O rock está morrendo?

L.S. – Não! Acho que está na U.T.I., mas morrendo não. Acredito que o rock está passando por uma fase muito ruim, onde estão acontecendo dois fenômenos interessantes. Para compensar a falta de criatividade, as bandas do hype se inspiram e imitam sons setentistas, soando antigas e simples, ou seja, imitam fórmulas apenas, não criam nada novo. Veja, se o rock somente fosse assim, não teriamos, metal, punk, progressivo, hard core, folk rock, pois todos soariam como Little Richard e Elvis e não quebrariam as barreiras de seu tempo. E devido a carência de artistas musicalmente relevantes, elegemos, isso mesmo, nós todos, qualquer um como a salvação do rock. O que o rock precisa não é de salvadores, mas sim de trangressores, inovadores, revolucionários.

M.M. – Falando em revolução, você acha que a revolução nos moldes marxistas é uma utopia ou é possivel ainda?

L.S. – Acredito que o sonho da revolução hoje faz todo o sentido no que tange a situação do mundo e sua falta de referenciais. Agora efetivamente, a revolução caiu junto com o muro de Berlim e com a desintegração da U.R.S.S., que estava bancando o sonho socialista a um preço muito alto, do qual não consegui manter por muito tempo. A esquera se diluiu muito, principalmente à partir das descobertas dos crimes de Stálin, e perdendo a unidade, a esquerda se enfraqueceu muito, além do que os objetivos também sofreram mudanças, ao invés de lutar por um mundo melhor e mais igualitário, a luta tornou-se pelo poder. Muitos regimes que se consideram de esquerda tornaram-se contraditórios ao tolir a liberdade e isolarem-se no poder, são as chamadas ditaduras de esquerda. Então hoje é mais uma fuga acreditar na revolução do que algo realizável.

M.M. – Você disse que o mundo não tem referenciais, como você vê a figura de Barack Obama?

L.S. – Sabe aquele ditado “de boas intenções o inferno está cheio”, é assim que vejo Obama. Digo isso no seguinte sentido, ele até se mostra bem intencionado, mas uma coisa é torcer pelo pênalti da poltrona de casa, outra diferente é bater o pênalti em campo, Obama herdou um país com muitos grandes problemas para resolver, e por representar algo muito diferente do que tinhamos, tornou-se o grande símbolo de esperança do mundo. Porém acho que temos que ter esperança com uma dose grande de realismo, pois não sei se Obama será capaz de mudar o mundo como se espera dele, e talvez esse excesso de confiança possa se virar contra ele, pois no momento que as espectativas não forem supridas, ele será cobrado. Mas há o lado bom disso também, Obama representa unidade e diálogo, e parece ser bastante trabalhador, o que nos indica que com trabalho duro e cooperação, o mundo pode sonhar com dias melhores.


“Hoje é mais uma fuga acreditar na revolução do que algo realizável.”


“Obama representa unidade e diálogo, e parece ser bastante trabalhador, o que nos indica que com trabalho duro e cooperação, o mundo pode sonhar com dias melhores.”


M.M. – O que você acha do Funk?

L.S. – Não gosto do funk por muitos motivos. Primeiro, não há bons cantores, bons compositores e bons intrumentistas. Acho que isso faz a música, uma banda ou um artista pode deixar de ter até dois desses elementos, mas todos não dá. Além do que é um tipo de música repetitiva e vulgar. Talvez se o funk carioca fosse tocado e falasse sobre amor, vida e problemas sociais que o Rio de Janeiro tem de monte, eu até poderia falar bem do funk, e principalmente porque o maior atrativo não é a música, e sim as bundas.

M.M. – A música tem um papél social, já que você falou que o funk poderia expor nas letras os problemas do Rio de Janeiro?

L.S. – Nesse caso é diferente de ter um objetivo, acaba sendo uma consequência do que você faz. Você é um objeto dentro de uma realidade e é muito pretenção sua achar que não é atingido por ela. Uma coisa é você ignora-la, mas não há como dizer que você não é impactado por ela. Então, o público do funk é em maior parte o pessoal do morro, do subúrbio, das comunidades pobres, será que eles não tem problemas, como drogas, violência, etc? Veja o que faz uma parte do rap brasileiro, cantam a realidade, a pobreza, o preconceito, pois é o que eles vivem, os funkeiros também vivem isso, mas não cantam, e as vezes acabam fazendo um deserviço, pois muitas vezes fazem apologia ao sexo, crime, promiscuidade, machismo, assim como o rap também em alguns casos, mas no caso do funk você não tem um Racionais MC´s.

M.M. – O que te atrai no rock atual e o que não te atrai?

L.S. – O que acho que é um grande avanço é o post rock, pós rock, há bandas muito boas fazendo um som bem diferente, isso mostra que o rock não está morrendo, está na verdade se modificando, absorvendo outras tendências, apontando para outras direções e discutindo outros temas e as vezes sem proferir uma única palavra. Destaco o Slint, o Mogwai e o Explosions In The Sky, a cena do Canadá e do Japão são as grandes Mecas do estilo. Agora o que não me atrai é o rock cru do White Stripes, o pseudo-rock de arena de gente como Fall Out Boy e My Chemical Romance, além do que se chama de emo, tanto no Brasil como no mundo anglo-americano, e acho que por ser um modismo, passará.


“Você é um objeto dentro de uma realidade e é muita pretenção sua achar que não é atingido por ela. Uma coisa é você ignorá-la, mas não há como dizer que você não é impactado por ela.”


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Um comentário:

  1. Denis Luiz Ambrósio11:12 AM

    Muito interessante essa entrevista. Parabens mano...
    Queria aproveitar o ensejo pra deixar um link...vejam o que um imbecil que diz ter um blog de música falou sobre o Luiz Melodia:
    http://manokias.blogspot.com/2009/01/o-tal-de-luis-melodia.html?showComment=1235916180000#c2170565367166699902

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