sexta-feira, 31 de julho de 2009


Artigo.

Humilhados e ofendidos: Susan Boyle e a redenção.



por Marlon Marques.























É notória a sensibilização e comoção causada por Susan Boyle. Susan representa mesmo sem ter vencido o concurso de calouros do programa Britain´s Got Talent, a desforra de milhares de malfeitos, desajeitados, borra-botas e desprovidos de beleza, por eras vivendo nos becos da vida se escondendo do que são. Susan é tudo isso e mais um pouco, e esse mais um pouco é o talento que ela tem para cantar. Pela experiência que nós do Brasil temos com concursos de talentos, sabemos que muitos do que vão a esses concursos são maus cantores, e por essa premissa, muitas vezes julgamos o disco pela capa. Quem de nós “hipócritas” não julgaria Susan no lugar dos jurados do programa? Quem não diria ser ela mais uma bizarra a passar vergonha diante da tv, onde nos lares muitos [ou todos] ririam dela como mais uma atração caricata? Porém, com Susan aprendemos pelo menos duas lições, a de que não devemos julgar antes de conhecer algo – embora continuaremos – e a outra é que só um belo rosto ou belo corpo [ou ambos] não faz um(a) grande cantor(a). No ano passado (2008) aconteceu uma polêmica nos jogos olímpicos da China. A música tema dos jogos era interpretado por uma menina gordinha e chamada de feia, entretanto, a direção do evento resolveu contratar uma menina bonita para dublar a canção na cerimônia. Eticamente falando será isso correto? Não vamos aqui entrar nesses méritos, mas é com certeza um desserviço a boa música, uma vez que o público foi privado de ver a canção ser interpretada ao vivo, em contato com o puro talento. Boyle de certa forma glorifica a menina chinesa, que teve na atuação e na história de Susan sua redenção, como se a injustiça a ela cometida tenha sido se não suprimida, mas pelo menos rechaçada por todos aqueles de bom senso. A voz de Susan deixou boquiabertos o público presente, os jurados, a audiência e o país todo, além de milhares de pessoas mundo afora – principalmente no terceiro mundo. É aquela velha fórmula de se projetar no outro, e Susan compriu essa função, tornou-se naquelas noites, muitos que não ela apenas, representou os desvalidos, os ofendidos, os esquecidos, sua voz foi a voz de todos eles, e não houve quem depois não torcesse por ela. Susan Boyle possui todas as características que em si já são suficientes para desfavorece-la, é mulher, gorda, feia e velha, faltou apenas ser negra e homossexual para completar o espectro de uma maldição nefasta que o ocidente relega a esses há séculos. Somos filhos dos gregos e dos romanos [excetue aqui a questão homossexual], temos que ser perfeitamente platônicos, corpos esbeltos como Adônis, ou rostos lindos como os de Afrodite ou Vênus. A nossa tradição não nos perdoa por sermos assim, feios, desajustados, comuns, temos que parecer, não ser, isso é o que importa. Susan pode ser colocada no mesmo lugar que Jesse Owens quando venceu nas olimpíadas de Berlin em 1936 na presença de Hitler. Como um negro pode triunfar ante os arianos, como Susan, o patinho feio, pode brilhar ante a beleza vã dos jurados, platéia e demais concorrentes? Foi uma ousadia. Foi como Prometeu ao dar aos homens o fogo dos deuses, foi um feito notável. Agora quanto ao talento dela, isso é visível. Não é apenas a identificação com os humilhados, ou as questões éticas, Susan Boyle possui talento nato, é uma cantora e tanto, uma voz potente e acalentadora. E não havia nada mais apropriado para que Susan cantasse do que “I Dreamed a Dream (Eu sonhei um sonho)” do musical Les Misérables. A canção além de linda é um tanto dúbia, pois ao mesmo tempo que traz esperança aos corações aflitos [como o da própria Susan], carrega em si o desfecho final dessa ousadia. “Eu tive um sonho que minha vida seria tão diferente deste inferno que estou vivendo”, um sonho sonhado e vivido, é praticamente o mesmo sonho de Obama, do povo iraquiano, palestino, afegão, haitiano, brasileiro, tibetano, somali, sudanês, americano, um sonho onde o amor e a fé andam juntos e cada um cumpre seu papel. Um sonho fraterno, onde os homens caminham juntos e sentam-se a mesma mesa, mas será isso possível? A mesma canção trata-nos de dizer que não: “agora a vida matou o sonho que sonhei”. Sim Susan você perdeu o concurso. Você sonhou mas acordou com dores, as dores da desesperança. Depois de tudo que passou, de toda humilhação, é como se o sapatinho de cristal no coubesse no pé de Cinderela quando o príncipe foi a sua procura, é como se Andy Dusfrene em "Um Sonho de Liberdade" fosse capturado após fugir da prisão de Shawshank, injustiça. Mas se pensarmos melhor, vencer de fato não é tudo, e Susan não perdeu. Susan venceu. Sua vitória não foi o primeiro lugar, mas foi calar os esnobes e arrogantes, os juízes de plantão, toda moral americana e ocidental que condena os estranhos no ninho. Susan provou que antes de tudo temos que dar a chance, antes de proferir qualquer julgamento, pois a priori ninguém é tudo, mas ninguém é nada também. Boyle fez-nos enxergar [em tese] que a beleza faz parte, mas não é tudo. É apenas uma luxuosa cereja do bolo, o grand finale. Mas em um bolo não basta apenas que cereja seja boa em relação a todo o resto, mas se a cereja não for boa, o que importa, se o bolo for otimamente bom? Ela pode parecer brega com seus vestidos de senhora protestante, tímida, desajustada, mas é como Barack Obama, se parece conosco, quantos presidentes ou políticos globais se parecem com o povo? Essa identificação é que faz de Susan Boyle um fenômeno, pois ela faz com que as pessoas se aceitam mais como são e parem de pensar que a ausência de atributos darling da nossa sociedade os apequena. Porém faça o teste, tente ouvir Britney Spears ou Christina Aguilera de olhos fechados imaginando o que você considera de mais feio e despresível, se mesmo assim você continuar gostando e achar que realmente são cantoras de talento, me calarei e procurarei nos gregos alguma resposta.
























“Tente ouvir Britney Spears ou Christina Aguilera de olhos fechados imaginando o que você considera de mais feio e desprazível, se mesmo assim você continuar gostando e achar que realmente são cantoras de talento, me calarei e procurarei nos gregos alguma resposta”.




















"Mas em um bolo não basta apenas que cereja seja boa em relação a todo o resto, mas se a cereja não for boa, o que importa, se o bolo for otimamente bom?"








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Crítica.

The Jam - Sound Affects.


por Eliseu Horácio & Marlon Marques.



















Sound Affects é um álbum de 1980 com cara de mil novecentos e sessenta. É um disco fantástico, no mais amplo sentido que a palavra fantástico possa ter. É um disco direto, bem tocado, bem cantado [dentro do estilo e das limitações vocais de Weller] e de audição extremadamente agradável. É quase um consenso apontar Sound Affects junto com All Mod Cons como os melhores álbuns do The Jam, e com certa razão, excluindo a possível falsa ideia desses serem melhores e os outros ruins. As grandes influências desse disco são o pop britânico sessentista, uma leve pitada de psicodelia e um certo toque mod, mas que faz toda diferença. “Pretty Green” é a faixa de abertura, mostra um som simples, com uma levada linda de baixo de Bruce Foxton, muitos apontam – inclusive o próprio Paul Weller – essa canção como sendo uma fusão entre Revolver dos Beatles e Off The Wall de Michael Jackson. Vejo particularmente também um certo vestígio de Byrds nessa música, mas os backing-vocals e o balanço, fazem lembrar um pouco o black de Jackson. “Monday” é singela, um belo arranjo acompanha a voz de veludo de Weller, enquanto que em “But I´m Different Now”, o Jam parece voltar as ruas de Londres, velocidade, urgência, rebeldia, está tudo nessa faixa. “Set The House Ablaze” segue essa mesma linha rápida, aqui o Jam mostra toda maturidade de seu som e entrosamento, todos brilham nessa ótima música. Weller cria grandes melodias em sua guitarra, para depois explodir em riffs no molde The Who de ser, enquanto que Foxton grita alto com seu baixo super agudo e Rick Butler marcando impecavelmente o tempo em sua bateria simples e eficiente. “Start!” é um dos destaques do disco. Ótima música, porém sua linha de baixo é inteiramente copiada de Taxman [Beatles], é muito evidente. Mas nem mesmo isso tira o brilho do álbum como um todo e da canção em questão, Start! é cheia de brilho, contagiante, e possui um belo refrão que declama a desesperança dos desencontros da vida. “Dream Time” é contagiante do começo ao fim, é uma canção cheia de energia, e mostra bem as construções harmônicas do Jam e toda a riqueza instrumental da banda. Essa música talvez seja a que melhor exemplifique a comparação com o Gang Of Four e as modulações que mais tarde usariam Hüsker Dü e Fugazi. Butler é exímio nas quebradas de tempo de ritmo, enquanto que Weller quase que improvisa para acompanhar esses delírios do baterista, nos confundindo a mente ao tentar acompanhar. Uma das mais belas canções desse disco é “Man In The Corner Shop”. Narra a angústia da classe trabalhadora, e é um pouco o que nós sentimos em relação as desiguais relações de trabalho no mundo capitalista. O homem na esquina da loja é um profissional liberal sem patrão, ninguém manda nele, enquanto que os demais homens devem se submeter as tiranias das fábricas e repartições. Weller diz que na Igreja todos de todas as classes sentam-se para rezarem juntos, pois Deus fez todos os homens iguais, e tudo isso sob uma bela suíte byrdiana. “Music For The Last Couple” é um canção muito inventiva e complexa musicalmente. O The Jam aqui explora novas sonoridades, experimenta a inserção de ruídos no decorrer da música, o som mostra um duelo de perguntas e respostas entre guitarra e baixo, porém de uma forma pouco convencional, uma marcação constante da bateria, um som difícil de definir, cabe ao ouvinte classificar. “Body About Town” é a que paga maior tributo aos Beatles, por sua melodia fácil e embaladora. Butler usa muito as já citadas quebradas de ritmo, além do incessante uso dos pratos de ataque, e parece até que no final do disco, o baterista aparece mais do que o baixista Foxton. “Scrape Away” é tensa e amarga. Mas a grande música do disco é com certeza “That´s Entertainment”, uma balada semi-acústica, cantada de forma emocionante por Weller. Aqui Weller revela seu lado mais poético e ao mesmo tempo descontente com seu mundo. Qual o sinônimo dos anos 80, apatia, talvez? Desilusão, pode ser, mas com certeza essa letra diz tudo em poucas estrofes, afinal, o que é evidente não precisa exatamente ser contundente. That´s Entertainmente deveria estar na trilha sonora de Trainspotting, deflagrando a decadência das vidas enquanto a vida segue sua rotina vazia, amarga e tediosa. Sound Affects é um disco curto, tem apenas 35 minutos e 18 segundos de ótima música. Sound Affects é tão amargo quanto qualquer disco gótico, tão pulsante quanto qualquer disco punk e tão cínico quanto quanto qualquer disco new wave, mas garanto que muitos desses não possuem a qualidade e inventividade que esse disco possui, dessa banda tão subestimada.



























The Jam - Sound Affects [Polydor, 1980].


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quinta-feira, 30 de julho de 2009


Ensaio.

Meninos e Meninas: O diagnóstico de nossas vidas sempre.


por Marlon Marques.


























Desde sempre “Meninos e Meninas” soa atual. Não importa que essa seja uma canção de duas décadas atrás, não há anacronismo. O mesmo marasmo dos anos oitenta foi o dos anos noventa, que é o mesmo dos anos dois mil. A vida sufocante das grandes cidades esmaga nossa identidade, precisamos descobrir quem somos, temos necessidade de saber quem somos, em detrimento do que dizem que somos. Todos os lugares são iguais, tudo é exatamente igual, em todos os lugares as pessoas são iguais, em seu desespero ou em sua angústia, até nas alegrias as pessoas são iguais [as pessoas se sentem felizes por migalhas]. Se pensarmos bem, que sentimento de pertencimento nós temos em relação a essa sociedade em que estamos inseridos? Nenhum. Quantas vezes também não nos perguntamos [nesse caso em oposição a Renato Russo que afirma] se realmente somos parte disso, ou seja se somos isso de fato? Vivemos numa verdadeira confusão, é uma Babel onde ninguém se entende, ninguém se ama e ninguém se respeita. O imperativo dessa sociedade é o “eu”, tudo na primeira pessoa. De certa forma – e de forma poética e velada – Russo faz uma crítica ao capitalismo nessa canção, mas isso ficará mais evidente adiante. Uma das implicações do sistema é a alienação, a perda da noção das coisas e a desesperança. “Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre”, quantos de nós nunca pensou assim? As vezes olhamos as coisas erradas do mundo e dada a freqüência em que acontecem, nos estatelamos de conformismo e penar e pensamos que não mudará. É claro que nesses tempos, “exército de um homem só” é honorífico, mas contraproducente, é apenas um combustível de nossas esperanças, mas que logo esgotará com o choque duro da realidade. Russo se diz cansado de bater e ninguém abrir, nós também estamos cansados. Nascemos cansados de tudo, da luta, da vida, do castelo de cartas marcadas. É como correr rumo ao horizonte, que é uma linha imaginária que se distancia mais conforme você se aproxima. “Fui teu amigo, te levei comigo e me diz: pra mim o que é que ficou?”, no que nos transformamos. O que somos afinal. Somos lobos numa selva se degladeando por existir, por isso essa confusão, por isso essa falta de respeito, e é por isso que Russo diz em “Há Tempos” que “ter bondade é ter coragem”. E todos estamos perdidos nessa selva, porém alguns olham por entre as árvores e se questionam se de fato pertencemos a isso tudo. O que ficou pra mim, pra nós? Apenas o gosto amargo no fundo do copo, a sensação de que fazer o bem é besteira, é apenas uma retórica barata e que devemos apenas pensar em si mesmo. Essa estrutura cria as condições do egoísmo, nascemos e morremos sob o signo do individualismo, temos que ser sempre o “melhor”, mesmo que para isso tenhamos que utilizar de expedientes espúrios, não é Maquiavel, “os fins justificam os meios”. No sistema capitalista a culpa não é de ninguém e é de todos, a culpa é do sistema e da apatia com que aceitamos ele. Nós queremos isso, nós queremos. Os verbos favoritos são o verbo “ter” e “querer”, e não importa o amor, a amizade e outros valores tolos, afinal, pra mim o que é que fica? Viver é bom, isso sabemos. Só não sabemos como, onde e porque? Não há motivos, nem razões, mas há uma força maior que me leva a crer que ainda há uma luz no fim do túnel, mas em seguida vem mais uma vez o choque da realidade: “Não é a vida como está, e sim as coisas como são”. O próprio capitalismo cria as esperanças para nos mantermos em pé, nos faz acreditar na inversão da equação [de: a vida é e não está, para a vida está e não é], veja a ironia, a nossa própria força vem do sistema que nos oprime e enfraquece. Isso é uma grande mentira, e cegos, surdos e mudos, acreditamos. “Preciso de oxigênio, preciso ter amigos, preciso de dinheiro, preciso de carinho”, precisamos sim. Mas de quê? Quem diz do que precisamos, quem determina? A questão é: “preciso precisar apenas do que necessito”, não necessito precisar do que não preciso, e é isso que o sistema nos faz crer, como um mantra, um credo, você precisa do que não precisa. Renato Russo emula os Titãs em “Comida”, agente não quer só dinheiro, agente quer oxigênio, carinho e amigos. No final “são tudo pequenas coisas”, que se tornam grandes, que nos dominam e nos deixam infelizes, nos fazem inverter a lógica, tornando a lógica ilógica. Meninos e Meninas é uma mensagem contra o conformismo e contra a vida apática das pessoas que se fecham em si mesmas, é contra a infelicidade e a favor do amor, a favor de todas as formas de amar, pois como Russo já cantou certa vez, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.





































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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Crítica.

The Pretenders - Get Close.


por Dirce Dalila.



























Hynde é uma mulher e tanto. Persistente e talentosa. Persistente por que vai atrás de seus sonhos, dois deles ela conseguiu, casou-se com seu ídolo, Ray Davies líder dos Kinks, e o outro ser líder de uma importante banda de rock. Talentosa, certamente. Compositora, cantora e guitarrista, quer mais? Além desses predicados, ainda é uma militante feminista, dos direitos dos animais e de esquerda [isso sim é persistência]. Get Close é um disco menos pungente e mais melódico, exibe uma faceta sensível de uma mulher dura e brava como Hynde. O disco é cheio de canções lentas, onde as melodias são exaltadas em detrimento dos ruídos, os sons são mais limpos e o vocal de Hynde aparece leve e macio. Mesmo sem a formação original, a nova banda recrutada por Chrissie Hynde se mostrou muitíssimo competente, executando canções simples, diretas e ricas, mas uma riqueza contida, nada muito exuberante. E Hynde sempre se destacou muito mais pela ação do que pela retórica ou pelo espetáculo – aqui cabe a comparação entre Gandhi e Hugo Chávez, um fez e o outro apenas diz. Quando me refiro a uma riqueza contida, digo em relação a expansão instrumental experimentada por Hynde, enriquecendo o som da banda acostumada a soar seca [como em álbuns anteriores]. Aqui há espaço para órgão, violinos, tambores e sitentizadores, sinais dos tempos, e Hynde mostrou não ser resistente aos novos tempos, porém sem dobrar-se a eles. O álbum em si é bem diverso, tem como pontos de destaque o virtuosismo na dose certa do guitarrista Robbie McIntosh [ver Tradition Of Love] e o bom trabalho, bastante consistente do baterista Blair Cunningham. “My Baby” foi um dos hits do disco, nota-se de início o vigor da voz de Hynde, sob uma base coesa de doces dedilhados de guitarra e uma bateria tipicamente oitentista. “When I Change My Life” é bucólica e calma, ao ouvi-la é fácil a identificação com o disco Out Of Time do R.E.M. [aliás, Stipe é fã confesso de Hynde], o conjunto de órgão e cordas dessa canção é lindo, é quase um sonho. “Light Of The Moon” e “Dance” são as mais agitadas do disco todo, enquanto que “How Much Did You Get For You Soul” é a mais rápida, com vocais de rap interferindo no meio da música. “Chill Factor” é uma linda balada entre o gospel e o blues, embebecida de muito órgão, e onde mais uma vez McIntosh rouba a cena com seu virtuosismo e suas levadas dilacerantes. “Room Full Of Mirrors” embora não tenha sido um hit propriamente dito, foi bastante executada nos Estados Unidos e no Reino Unido, lembra muito a urgência dos anos iniciais da banda, bastante marcada e forte, com tons das noites escuras de Londres. O grande destaque do disco e talvez o carro chefe do álbum é "Don´t Get Me Wrong”, uma canção alegre e cheia de suingue, tal como “I Remember You”. A letra revela uma Chrissie Hynde diferente da que estamos acostumados, pois embora sabemos que batalhou por um amor que parecia impossível [Ray Davies], a perda desse amor [tal como foi] e de seu companheiro Honeyman-Scott, a fez endurecer demais, o sofrimento tirou um pouco de sua alegria de viver, fez-nos pensar que fosse amarga e desiludida. Mas não, em Don´t Get Me Wrong ela se diz apaixonada e apoixonável, como toda mulher – afinal, os brutos também amam. Paixões, há as paixões, como são passageiras, Hynde diz para não entende-la errado caso ela passe como uma moda, para que sofrer. Versos inspirados como, “se estou tão destraída, estou pensando em fogos de artifício, que estouram quando você sorri”, ou “se eu me dividir com luz refratada, só estou viajando, por uma milha iluminada pela lua”, denunciam o quão as mulheres são sonhadoras, e bobas [no bom sentido – não me entedam errado]. O ritmo da canção traz ecos de coisas africanas, pois estava muito em voga na época os sons vindos do continente negro. Um verso simples de guitarra cheia de ginga, uma bateria constante e arranjos de teclado sintilando e enchendo o rosto de um sorriso maroto, apaixonado, e o coração de esperança, de confiança no amor. O disco é bastante alegre e confortante, afinal, Hynde sempre foi uma mulher apaixonada, por suas convicções, ideais e por sua música, e como tudo na vida, quando fazemos com o coração, a tendência é uma só, ser algo bom, e é isso que Get Close é, um disco bom.





























The Pretenders - Get Close [Sire/ Londos/ Rhino, 1986].


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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Entrevista.

Anderson Monçores.


Anderson Monçores é um livre pensador. Não é um acadêmico e nem um religioso, por isso pode ser chamado de livre. Faz há algum tempo estudos sobre a bíblia sem estar vinculado a nenhuma igreja ou denominação. É bastante conhecedor da palavra, além de ter uma visão crítica sobre a sociedade, sobre as igrejas e sobre a religião em si. Seu pensamento têm como foco mais a figura de Deus, a questão do fazer o bem e os ensinamentos de Cristo. É um homem discreto e simples, sem afeição a vaidades e polêmicas, apesar de lidar bem com questões polêmicas. Anderson já se mostrou crítico em relação a opinião dos intelectuais, principalmente depois de ter lido “As origens de Satanás” da acadêmica de Princeton Elaine Pagels. Ficando no meio termo entre a academia e igreja, Monçores prefere seguir com suas pesquisas e convicções, e de vez enquanto trocar algumas idéias com amigos, como no papo que teve sobre religião com o Iosbilario.com.

por Marlon Marques.


























1) Qual a relação de Deus com as desgraças do mundo?

R: Se você pensar na tênue linha entre o bem e o mal, você irá sem controle algum tentar achar um equilíbrio, e Deus está acima do bem e do mal, e com certeza, ele deixa o mal acontecer, para que haja algo de bom depois, e até da mesma maneira ao contrário. E desta maneira não há relação, o que há é equilíbrio de forças.

2) Qua o papél da religião hoje?

R: A religião hoje é mais difundida e por causa disso, mais complexa do que em outros tempos. Hoje não está somente em evidência o Judaismo e o Cristianismo, como outras. E todas tem o mesmo papel na sociedade, porém o que nos afasta de uma vida mais religiosa, não é o conceito de religião, mas os dogmas e regras absurdas, que as formam.

3) Qual a sua opinião sobre as disputas entre católicos e protestantes?

R: Todos querem ser certos, todos querem mandar. De alguma forma, nenhum dos dois lados está errado, e de alguma forma, os dois lados tem que se acertar.

4) Qual a raiz do mal hoje?

R: A mesma de cem, duzentos, quatro bilhões de anos atrás. Esse cara antes de ser expulso, estava sempre querendo estar onde não é o seu lugar.

5) Pedro ou Paulo, quem foi mais importante para Igreja?

R: O que seria deles sem Jesus? Da mesma maneira temos que saber antes qual é essa igreja que Jesus fundou no mundo, e aí sim, poderemos saber qual dos dois foi mais influente.


"Deus está acima do bem e do mal, e com certeza, ele deixa o mal acontecer, para que haja algo de bom depois".


6) O que é mais valioso, a fé ou as obras?

R: A fé sem obra está morta. Porém no Apocalipse está escrito que no dia do juízo final, muitos seram julgados conforme suas obras. Então posso te dizer com clareza que não se trata de fé ou obra, mas da benignidade de Deus.

7) O que você acha da midiatização da fé nos programas religiosos da tv?

R: É necessário propagar a palavra, isso sim. O problema são os valores, pois para manter uma igreja normal, é necessário dinheiro, para manter um programa na tv é necessário mais dinheiro. Todo o problema está em alcançar público. Por isso a midiatização. E isso é errado, pois a palavra nos é dada gratuitamente, da mesma forma que é errado se vender a bíblia. Mas ninguém quer gastar dinheiro para produzir e simplesmente dar.

8) O homem nasce bom ou mau?

R: O ser humano é o que ele é. Bom, ruim, ele nada mais é do que desejo. Desejo de comer, desejo de ter, desejo de dar, desejo de roubar, e assim vai. Somos a condição da vida e da sociedade em nossa volta, bem como da nossa criação e nossa índole.

9) Há saída para o nosso mundo?

R: Confúcio disse uma vez: “A saída é pela porta, não há outra saída”. E eu concordo, não devemos nos preocupar em arranjar uma saída, devemos nos preocupar no que iremos fazer até sairmos pela porta.

10) “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus”. Como você interpreta essa passagem?

R: O que tenta Jesus nos passar em suas parábolas, sermões e histórias. Jesus com certeza não estava falando de um rico que se apega a valores financeiros, que não são corrompidas por essa fácil enganação financeira. Ele estava falando de pessoas vis, que se entregam a esses mesmos males, e se fecham para os outros seres humanos.


"Não devemos nos preocupar em arranjar uma saída, devemos nos preocupar no que iremos fazer até sairmos pela porta".





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Artigo.

Paulo e o contra-senso da obediência as autoridades.


por Marlon Marques & Dirce Dalila.


























“Todo homem esteja sujeito as autoridades superiores, porque não há autoridade que não proceda de Deus, e as autoridades que existem foram por ele instituidas”, essa afirmação de Paulo em Romanos 13 é no mínimo suspeita, pois não há sustentação em outras passagens da bíblia. Se pararmos para pensar bem, o povo de Deus [Hebreus], e depois os cristãos, sempre foram dominados e conquistados por povos invasores, tais como os Babilônicos, Persas, Assírios e Romanos, sendo que após esse processo de conquista, tais povos [cada um em seu momento], tornaram-se a autoridade local. Então é correto afirmar que tais autoridades são legitimas? Se submeter a certas autoridades, especialmente os Romanos, é o mesmo que negar a própria fé, pois antes do império ser cristão, o era pagão, e tendo imperadores como Juliano e Deocleciano, atrozes perseguidores do cristianismo, como estar ao lado de tal autoridade. O martírio dos santos [considerados pelo Vaticano] ou o kidush hashem dos judeus são atos de resistência, morrer [não morrer matando] pela fé é digno, manter-se firme no que acredita é digno, e isso ocorreu muitas vezes por conta de perseguições das autoridades locais. Na sequência de Romanos 13, no versículo 2, Paulo diz: “de modo que aquele que se opõe a autoridade resiste a ordenação de Deus, e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação”. No contexto que Paulo viveu [século I, nasceu em 9 d.c. e morreu em 64 d.c.] foram imperadores, além de Claudio, Tibério e o primeiro deles Otávio, os megalomaníacos Nero e Calígula. Soberanos ególatras e afeitos ao excesso, consideravam-se como deuses e partilhavam em comum além dessas características, o ódio pelos cristãos. Da perspectiva cristã, como se submeter a uma autoridade que o persegue sem renegar sua própria fé? Outro ponto é, se Paulo diz que não se deve resistir a autoridade, então deve-se se submeter a ela, e nesse caso então significa aderir as ordens e segui-las estritamente, portanto, nesse contexto segundo Paulo, o melhor seria aderir ao paganismo [seguir as autoridades]. Segundo Lucas no Ato dos Apóstolos 22:27, Paulo é cidadão romano – inclusive também perseguidor de cristãos – e porque então ao escrever a comunidade romana os aconselharia a obeder o império que os perseguia. Seria uma forma de não perder os benefícios de sua cidadania romana? Históricamente sabemos que cidadãos romanos não eram mortos [se condenados] através das piores execussões da época – fogueira, leões e cruz. Eram mortos de maneira mais digna e também menos dolorosa. É só compararmos as mortes de Pedro e de Paulo, o pescador judeu foi crucificado, enquanto que Paulo foi decapitado, além de ter tido direito a prisão domiciliar quando foi detido. Críticos apontam para o fato de que talvez o texto tenha sido adaptado pelos redatores dessa epístola [uma vez que a crítica aponta que muitas epístolas não tenham sido escritas por seus autores atribuidos, mas sim por seus seguidores e discípulos, que em homenagem creditavam e eles a autoria]. Dentro de um contexto em que o cristianismo é a religião oficial do império, não ficaria de bom tom que as atrocidades romanas fossem explicitadas, dando em então um certa suavizando a história, redimindo o império por seu reconhecimento e adesão a palavra de Cristo. No livro de Ester 4:17, há uma contextação a essa afirmação de Paulo: “Não me prostrarei diante de ninguém, a não ser diante de ti”, ou seja, é somente Deus digno de submissão – assim como no Islã posteriormente – e não há a menor vinculação entre Deus e as atrocidades de certos imperadores, ou até mesmo de reis como Nabucodonosor e Sargão II, e não há como afirmar que tais autoridades venham de Deus, mesmo que esse seja onipotente. Embora Deus tenha mudado sua forma de atuação do velho para o novo testamento, seu filho o pregador do amor, não partilhava da mesma opinião de Paulo. Algumas pregações de Jesus iam contra a ordem estabelecida, tanto a da monarquia judaica, quanto a do império romano. Embora tenha dito que seu reino não era na terra, o amor fraterno de Jesus estimulava a libertação das pessoas, tanto espiritual, quanto existêncial – uma vez que o modo de produção em Roma era o escravismo. Ao aceitar a palavra de Jesus e crer nele, acreditava-se que apenas a autoridade de Deus era mais importante, e que a César somente lhe pertencia o tributo [Mt. 22, 15-22].


























[A conversão de São Paulo a caminho de Damasco - Caravaggio, 1600-1601].







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terça-feira, 21 de julho de 2009

Artigo.

Vidas Vigiadas: O Grande Irmão contemporâneo.


por Marlon Marques & Jiffy Stake*.



























Há 60 anos atrás o britânico [nascido na Índia] George Orwell lançava “1984”, uma das maiores obras literárias do século XX, fazendo uma brilhante crítica ao totalitarismo. Uma das características do totalitarismo é o controle extremo da sociedade, na obra de Orwell esse controle é exercido pelo Grande Irmão, de onde deriva o conceito “Big Brother”. Embora essa obra de Orwell seja uma distopia, ou seja, uma utopia negativa, não deixa de ser uma utopia – à rigor “o que não existe” – porém o século XXI tratou de reverter essa situação, transformando e contextuando “1984” para nossos dias. Passou desapercebido por quase todos, mas foi divulgada uma estatística macabra pelos jornais de São Paulo. Há na cidade de São Paulo, cerca de 1 milhão de câmeras. Isso suscita uma pergunta, o que representa isso? Estamos mais seguros ou sem privacidade? Sensação de segurança nas grande metrópoles é uma grande ilusão, isso sim é utopia. A polícia que é paga por nós para nos proteger, nos amedronta. No Rio de Janeiro uma parte da polícia é envolvida com o crime, a outra parte é o próprio crime, onde está a segurança? É claro que muitas filmagens de circuito interno já revelaram crimes, assaltos, sequestros, e também mostraram os rostos de crimonosos que tempos depois foram pegos, porém há que ponderarmos, ficamos reféns dessas câmeras, não podemos fazer nada que poderemos ser filmados. Sorria, ou chore, você está sendo filmado. Todos os nossos movimentos são monitorados, há diversas centrais receptadoras dessas imagens, todos são potencialmente suspeitos, todos estão na mira das câmeras, faça uma pose natural. Hoje a maioria das máquinas fotográficas possui o recurso de filmagem, e todos os celulares já saem da fábrica com câmera embutida, onde todos podem fazer seus filmes, úteis e inúteis, com ou sem o concentimento do filmado, isso é um verdadeiro reality show, ou melhor, reality life. A letra da música “A minha alma” do grupo O Rappa, traz um verso pertubador que diz: “as grades do condomínio são pra trazer proteção, ou talvez trazem a dúvida se é você que tá nessa prisão”, ou seja, será que as câmeras de segurança não nos aprisionam mais do que nos protegem? Hoje o ser onipresente em nossa sociedade – ou no inconsciente coletivo de Jung – é o “youtube”. Sua vida pode virar atração do youtube da noite para o dia, você pode tornar-se uma celebridade se exposto nesse site, é só lembrar de Mallu Magalhães por exemplo. O Reality life é diferente do reality show, porque a vida real é real e não uma incenação da vida real. Nós não somos atores brincando de ser verdadeiros, somos verdadeiros, naturais, pois não sabemos onde as camêras estão, não sabemos em que momento estamos sendo filmados, e imagine só, vivermos sob a angúsita da vigilância permanente. “O Show de Truman: O show da vida” é uma crônica fictícia de nossas vidas. É também uma distopia, mas lança-nos alguns questionamentos em relação ao tipo de sociedade que vivemos. É uma democracia controlada, regulada. Somos vigiados o tempo todo nas empresas, fábricas, supermercados, estacionamentos, portarias de edifícios, quantos e quantos arquivos de vídeo existem nos bancos de dados desses lugares. Nossos rostos estão espalhados por aí sem nosso controle, não sabemos se seremos usados em propagandas ou comerciais. A idéia de uma sociedade vigiada é para coagir as pessoas a agirem por vontade própria. Não sabemos ao certo qual o alcance dessas lentes e nem a veracidade dessa estatística que aponta 1 milhão de câmeras em São Paulo. Pode haver mais, ou ser apenas um truque de coação, mas o certo é que não temos mais privacidade. A perda da privacidade, faz com que desempenhemos papéis, e então há uma inversão, de reality life para reality show, pois não seremos o queremos ser, e sim o que querem que sejamos. Portanto é necessário cuidado com qualquer passo, ou movimento que fomos fazer, nunca sabemos se estamos sendo captados por uma câmera ou filmados por um celular qualquer, pois o Grande Irmão está sempre a nos observar.


























































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* Jiffy Stake é ensaísta e colaborador do jornal Oregon Times e da revista underground Free Music.







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sábado, 18 de julho de 2009

Ensaio.

Por ninguém, pra ninguém.

por Marlon Marques.













Esses dias eu estava lembrando que no ano passado (2007), completou-se 40 anos do lançamento de Sgt. Pepper Lonely Hearts Club Band, álbum esse que até hoje é considerado o maior feito pelos Beatles em toda sua carreira. É claro que não deixa de ser louvável esse fato, ainda mais por que grande parte da imprensa musical de relevância opinou nessa direção, mas o mais curioso nisso tudo, é que em 2006, não se comemorou 40 anos do grande Revolver, mas porque?

Talvez seja pelo fato de não ter-se tido tempo suficiente para aprecia-lo, pois era comum na época lançar um álbum a cada ano, e não a cada dois ou três como hoje, pois se ganha muito com as turnês, além de que os artistas atuais não possuem tanto talento assim para lançar grandes álbuns todos os anos. O caso mais expressivo que me ocorre agora é o Radiohead, que emplacou dois colossos musicais em seqüência, claro que não no ano seguinte ao primeiro lançamento, The Bends em 1995 e OK Computer em 1997. Então, em uma época tão fértil, tão cheia de grandes artistas e grande obras, Revolver ficou quase que ofuscado com o intenso brilho de Sgt. Pepper. Porém, não há como não se empolgar ao ouvir Revolver de faixa a faixa, pois consegue ser ao mesmo tempo inovador e conservador, moderno e antigo, agradando a todos os tipos de público, ora com sutileza de Here, There, and Everywhere, com a alegria de And Your Bird Can Sing, ou o hippismo de Yellow Submarine e She Said She Said, além das várias versões feitas por artistas de diversos gêneros. É só conferir na trilha sonora do filme “Uma Lição de Amor”(I Am Sam) com Sean Penn e Michelle Pfeiffer, a faixa número nove I´m Only Sleeping interpretada pelo discutível The Vines, e que está ótima, é um pouco mais rápida que a original, mas grandiosa e fresca como se fosse bem atual, e é nisso que os Beatles se saem melhor, é nessa vivacidade.

Também nessa linha ouvi lindamente interpretada, a canção que considero a melhor de Revolver, For No One, primeiro na voz de Caetano Veloso em 1975 no álbum Qualquer Coisa, revestida numa roupagem bossa novística, a música se revigora numa caetanidade, com direito a início assoviado e violão marcado, Caetano imprime seu inconfundível sotaque carregado a um inglês quadrado que ficou ótimo, e depois uma versão terminal feito pelo grande Elliott Smith, toda sussurrada do começo ao fim, Smith coloca uma emoção tão grande na canção, que chega a dar a impressão de que essa seria a última música que cantaria na vida. Mas nada é igual ao original, é como um quadro, por mais que a réplica sirva muito bem em nossa sala, nada se compara a ter um original, e nesse caso também, pois é lindo aquele começo com Paul ao piano e Ringo marcando de leve na bateria, a voz do mesmo Paul com uma firmeza e uma seriedade talvez não antes vista, anuncia os primeiros versos que conduziram a música até o derradeiro refrão. Nota-se um flerte do piano numa escala Mozartiana, algo realmente clássico, e numa música pop, para vermos o nível em que estavam o quarteto de Liverpool, porém o ponto mais lindo da música é o solo de trompa lá por volta dos 51 segundos, mágico, angelical. A letra fala de abandono e saturação em uma relação, uma situação de extrema dependência de alguém para com o outro, ao ponto de não aceitar a separação e buscar em falsas evidências aquilo que você gostaria que fosse. Isso fica claro na letra quando ele diz: “No entanto você já não acredita nela quando ela diz que seu amor já morreu…”, esse pensamento é claramente uma forma de amenizar a própria dor, pois você acredita piamente no que diz o refrão: “Um amor que deveria ter durado anos”, mas que agora você não aceita que acabou. O dia começa e seu mundo começa também a ruir, pois “você descobre que todas as coisas gentis que ela disse, não fazem mais sentido”, pois sua companheira acorda e sem pressa se maquia, toma lentamente seu café prenunciando sua saída, demonstrando uma indiferença inexplicável, pois como alguém que dividirá com você todas as coisas, até as mais intimas por tanto tempo, hoje o vê como um estranho. E o mais triste dessa história, é que o amor é tão sublime, que chega a admitir que “haverá um dia em que todas as coisas que ela disse, encherão sua cabeça, mas você não conseguirá esquecê-la”, e mesmo depois de quase rastejar-se pelo chão numa súplica desesperada, ela nada expressa, “e nos olhos dela você não vê nada, nenhum sinal de amor atrás das lágrimas choradas por niguém” (for no one).


























































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segunda-feira, 13 de julho de 2009


Artigo.

O Futebol como simulação da esperança.


por Marlon Marques e Dusty O`Connor.



















O amistoso entre Iraque e Palestina realizado no dia 10 de julho de 2009 deve entrar para história como o jogo da esperança. O futebol pode até ser chamado de ópio para as massas, mas não há como negar o seu poder de mobilização e comoção, e de porque não, fuga. É de conhecimento de todos a situação de palestinos e iraquianos, todos nós sabemos que viver nesses países [há dúvidas quanto a Palestina] na situação em que se encontram não é nada fácil. É uma luta sobreviver, ou melhor, “sub-viver”, é um ato de bravura acompanhar o ciclo de nascimento e morte do sol a cada dia. Guerra, morte, violência, desesperança, todos os dias são a tônica das vidas na porção desfavorecida e esquecida do Oriente Médio. Desde que as tropas dos Estados Unidos ocuparam o Iraque, as vidas das pessoas nunca mais foram as mesmas – sendo que em nada mudou, continuou tão ou mais ruim de quando Saddam Hussein ocupava o poder – e desde 2002 a seleção de futebol local não jogava em seu país. Cerca de 25 mil pessoas acompanharam a vitória do Iraque sobre a Palestina, porém muitas milhares no mundo inteiro comemoraram por algo ainda mais raro naquele país do que uma partida de futebol, um momento de paz. Mais do que uma vitória esportiva, foi uma vitória da nação, ou melhor, de uma parte da nação iraquiana, pois por um momento aquela pequena multidão que se aglomerou nas dependências do estádio Frasou Hariri em Irbil, não falou em morte, embora os atacantes iraquianos tenham fuzilado a meta do goleiro palestino por três vezes, não chorou, ou melhor, chorou, mas de emoção. Foi uma verdadeira celebração da fraternidade, algo inverso de que se vê nas ruas – é só notarmos a expressão no rosto das pessoas nas ruas e nas arquibancadas do estádio. O futebol tem o poder de nos concentrar em cada lance, tem o poder de nos transportar para bem longe da realidade, de nos colocar no lugar do atacante na frente do gol, ou do goleiro no instante decisivo de um pênalti. Todos temos o direito de ter esperança, lembre-se do povo haitiano na ocasião em que a seleção brasileira lá esteve, lembre-se da comoção social, e de como foi importante para muitos ali aquela oportunidade de ver seus ídolos, por mais banal que isso seja para você. É melhor celebrarmos uma partida de futebol, do que celebrarmos a estupidez humana e as estupidez de todas as nações [Renato Russo], é melhor simularmos uma realidade possível, do que tornarmos real as impossíveis atrocidades. É um jogo histórico por mostrar que o Iraque já caminha [assim esperamos] para um futuro de autonomia e estabilidade – pois se uma partida foi possível em meio ao constante clima de insegurança, é sinal de que as coisas "podem" estar mudando. É claro que sabemos que há a grande questão de fundo, política e geoestratégica, sabemos que mesmo Obama tem seus interesses na região, e o Irã pensa em coopitar o vizinho ao seu lobby local de alcance global. Porém talvez o futebol seja uma força capaz de mover a sociedade e a nação iraquiana a um caminho de independência e paz, como disse o presidente da federação iraquiana de futebol Hussein Saeed, “nós estamos todos aqui porque o futebol é a mensagem de amor”. Entretanto, sabemos também que sempre há aqueles que são contrários as mudanças, pois tem quem lucre com a situação mantida como está, e há sempre também a medição de forças entre a situação e a oposição. O problema é, que a situação é pró-americana, e a oposição é ligada a grupos extremistas, e no final das contas, nenhum dos dois lados estão[ou são] pró-Iraque. Cada um defende seus interesses pessoais, e o povo fica no meio desse conflito como escudo humano, onde muitas vidas se vão por fim de semana. Não seria melhor se aos finais de semana ao invés de as pessoas sairem as ruas para conflitos armados e mortais, saissem nas ruas para comemorar títulos e vitórias? O futebol não é apenas uma guerra simbólica, é também a simbologia maior da esperança, é só rememorar o milagre de Berna, ou o sonho [logo abortado] de um futuro a muito anúnciado de um Brasil próspero embalado pelo tetra [após os duros anos 80 e uma tenebrosa era Collor]. Acredito que é de fato um marco positivo na história recente do Iraque, não somente por demonstrar mínimas condições de uma vida normal possível, mas também por mostrar ao mundo que o povo iraquiano não se esqueceu do caminho que leva até a alegria e a esperança.






















































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domingo, 5 de julho de 2009

Crítica.

Rolling Stones - Their Satanic Majesties Request.


por Marlon Marques.

















“Their Satanic Majesties Request” é sem dúvida um grande álbum, disso acho que ninguém desacredita. Talvez o grande erro dos Stones foi a competição com os Beatles – aqui clara em relação ao Magical Mystery Tour e depois em Let It Bleed em relação a Let It Be. Uma competição nunca vencida pelos Stones, mas que nos rendeu grandes álbuns, como esse. Fiz aqui a comparação com Magical Mystery em detrimento à Sgt. Peppers, pois competição com esse álbum somente Pet Sounds mesmo. 1967 é o ano da psicodelia, do verão do amor, da estação das flores, do sonho, e se os Stones ajudaram a matar o sonho [ver festival de Altamont], porque é que não participariam dele no seu momento mais prodigioso? E foi o que os Stones fizeram, uma obra psicodélica, não na mesma viagem de ácido dos Beatles, Beach Boys e Byrds, mas numa onda mais bucólica como a dos Kinks, Grateful Dead e outros hippies chapados. O disco apesar dessa distinção é extremamente viajante, e mesmo não se comparando com o magistral Sgt. Peppers, é muito bem arranjado, sofisticado e bem longe do blues pesado característico das pedras rolantes. O disco é bastante alegre, à começar pela bela e mágica primeira faixa “Sing This All Together”, um coro diz: “por que não cantamos esta canção todos juntos?”, uma conclamação a união e a paz [ainda mais no contexto de Guerra do Vietnã]. O arranjo traz metais e solos de guitarra invertidos [experimentos vistos desde Revolver], cordas e um ar de mundo melhor é possível, onde a fraternidade e o respeito são os lemas supremos dos homens, batuques tribais e um belo arranjo de piano fazem o pano de fundo. “Citadel” tem um arranjo torto de guitarras e uma levada no estilo feliz dos Byrds, e um belo conjunto de cravo e mellotron de Nicky Hopkins, para nos dizer que na cidadela é mais seguro viver, longe da histeria dos grandes centros como Londres, Manchester ou Nova York. “In Another Land” ouvesse o vento bater em nosso rosto enquanto caminhamos rumo a um outro lugar, cantando estrada a fora como se a vida não fosse agora, mas num futuro reservado em outro lugar, Jagger é aqui como um menestrel e a banda lhe serve de apoio a um jogral caleidoscópico. “2.000 Man” é uma canção bastante irônica, fala sobre o que o homem contemporâneo fez a terra e o que o homem do ano 2000 fará. Jagger canta irônico: “Oh, papai, orgulho-me de teu planeta”, cheio de guerras, egoísmo e indústrias, onde o capitalismo invade os lares ditando um modo de vida destruidor que não precisamos. A canção é bem ao estilo The Mamas & The Papas e cai muito bem lendo On The Road de Kerouac, Keith Richard se sobressai conduzindo seu violão elétrico e solando sua guitarra, e ao fundo ouvê-se um orgão lindo. A quinta faixa é especial, é uma versão diferente de “Sing This All Together”, que conta com a participação dos Beatles, é mais longa, psicodélica e altamente chapada de lisergia, convida-nos a passear por um sonho colorido e distorcido. “She´s A Rainbow” é a Lucy dos Stones – não se sabe se é Pamela Des Barres ou Marianne Faithfull – porém a canção é belissíma, um arranjo primoroso. Cordas e um piano dão a tônica, descortinando um concerto por pastagens verdes e plantações de cogumelos gigantes e malucos, onde Jagger adjetiva sua musa dizendo que suas cores se espalham por todos os lugares, não como um arco-íris, mas como um caleidoscópio [mas quem é a menina de olhos de caleidoscópio mesmo?]. “The Latern” lembra os Beatles em Abbey Road, virtuosismo e lirísmo. A lanterna não chega a se acender, apenas ameaça, a música nunca chega a acontecer de verdade, apenas brinca com nossos ouvidos num arranjo minimalista, disparando acordes trêmulos e tortos que ativam em nossos cerébros viagens induzidas, mas cheias de emoção e esperança. Sem contar que nessa música Jagger se parece com Billy Corgan dos Pumpkins, ou é ao contrário? [irônico]. “Gomper” é meio oriental, meio indiana. É tocada em tons baixos, traz Brian Jones tocando xilofone elétrico e Richards emulando Harrison em suas incursões pela terra de Ravi Shankar. Aos três minutos a música começa a crescer e a psicodelia a se mostrar, com batuques, sopros e guitarras-cítaras nos iniciando nos mistérios da psique humana e do despertar de uma nova consciência, aqui e em uma outra terra. “2.000 Light Years From Home” é uma utopia interestelar, influência dos movimentos New Age e do ocultismo em voga nos anos 60. O orgão dessa canção é quase irmão do órgão de Light My Fire dos Doors, num arranjo com direito a teremin e levadas orientais [vide prelúdio em Gomper]. Talvez 2.000 Years Light From Home indique o fim da esperança nesse mundo, é só lembrarmos que cinco anos antes [1962] houve a crise dos mísseis em Cuba. O mundo quase acabou pela iminência de uma guerra nuclear, mesmo assim o homem não aprendeu e continuou em guerra, continuou a se ver como diferente [luta pelos direitos cívis], então talvez Jagger enxerguasse que mesmo sendo triste, a saída fosse irmos para longe daqui, em Aldebarã talvez – possibilidade acenada por cientistas do calibre de Freeman Dyson e Michio Kaku. “On With The Show” é bem apropriada para encerrar o disco mesmo. É o fim do dia, o trabalho aliena o homem ao invés de glorificá-lo, afinal, para fugir um pouco dessa vida estressante, nada melhor que cervejas, mulheres e música[sic]. É muito machista sim, mas é o que acontece, o moralismo do american way of life é derrubado aqui: “por favor, encham outro copo. É o momento de assistir o cabaré, sua esposa nunca saberá que você não está realmente trabalhando até tarde”. Órgãos, pandeirolas, guitarras elétricas servem de colchão para deitar a tristeza, afinal “leve os seus problemas para longe daqui”, canta Jagger, não há razão para ser triste, o mundo vai se acabar, assim como a noite, portanto aproveite, pode ser tarde. Their Satanic Majesties Request poderia ter tido melhores resultados, mas foi lançado num ano muito cheio de grandiosidades, por isso ficou totalmente ofuscado. Os Stones, por voltarem no ano seguinte ao seu blues habitual em Beggar´s Banquet, mostram que seu disco psicodélico foi apenas para mostrar ao mundo que poderiam também compor uma obra a altura de seus pares na época. Provaram? Não sei, o disco é pouco falado, pouco comentado, e talvez até pouco ouvido, mas as canções que compõe esse curto álbum são de uma preciosidade única, como o lago de lírios de Gomper, ou como o vestido azul da garota arco-íris, ou como as incertezas de um futuro obscuro pintado com as cores da esperança convalencente que pereceu com Bowie e seus asseclas glans. O sonho acabou, a competição também, os Stones saíram ilesos, os Beatles acabaram e Brian Wilson enlouqueceu, mas Their Satanic é com certeza um dos maiores coadjuvantes da história do rock, um álbum que só não foi grande como deveria porque foi lançado por vaidade na época errada, mas quem sabe ainda dê tempo, talvez 67 ainda não tenha acabado, pergunte a Jim Morrison.






































Rolling Stones - Their Satanic Majesties Request [Abkco, 2002].


download.






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Artigo.

Vida longa aos Rolling Stones
¹.

por Patricia Grilo
².





















O que dizer das duas horas mais prazerosas dos meus últimos meses? Poder ficar ali, dentro do cinema, e assistir mais uma performance fenomenal da minha banda favorita desde sempre, os Rolling Stones?

Ver Keith, Mick, Ronny e Charlie em ação num concerto beneficente no Deacon Theatre de Nova York sob a direção de Scorcese? Logo você, Marty, cineasta dos bons, cuja paixão pela música nos legou obras primorosas como “The Last Waltz”, onde retratatou a tour de despedida da grande The Band?
O filme se inicia. Assistimos as tratativas entre equipe e banda sobre como as filmagens do concerto transcorreriam. Vemos um diretor e sua equipe minutos antes do show apreensivos diante da incógnita a respeito do set list da noite, preocupados em captar a melhor imagem, o melhor ângulo, porque os Stones se realizam no palco, se consumam no palco, e ele – Marty - sabe disso.
Quando Scorcese entrega os pontos num clima de “seja O que Deus quiser”, eis que surge um assessor da produção entregando o tão aguardado set list.
A banda logo ataca com “Jumping Jack Flash” e Keith entra em ação executando o seu marcante riff que, para mim, é o riff definitivo da história do rock. Um Jagger menino, flutuando pelo palco com seus trejeitos característicos. Jovial aos 65 anos de idade. Na platéia, pelo menos umas 3 ou 4 gerações se confraternizam em meio a anônimos e celebridades como o casal Clinton, uma amostra da sua longevidade e carisma ao longo de mais de 4 décadas de rock'n roll.
Em seguida mais petardos, músicas há muito não executadas, outras surpresas como “She was hot”, e um casting dos convidados, que reuniu Jack White, Cristina Aguilera (!!) e o mestre Buddy Guy.
Primeiro Jack White, cujo sorriso não esconde a enorme satisfação de estar tocando no palco com aquelas lendas. Ataca de “Loving Cup”, faixa de Exile on Main Street, de 1972, e que fora por diversas vezes tocada pelos White Stripes em suas apresentações ao vivo.
A banda de apoio, sem comentários: de Bobby Keys aos backing vocals Bernard Fowler e Lisa Fischer, todos em excelente forma e numa noite pra lá de feliz.
Buddy Guy destruindo sua guitarra em uma Jam arrasadora com Ronny e Keith. Cristina Aguilera, quem diria, moçoila que bem poderia ser neta desses senhores, dá um banho de profissionalismo e garra em “Live with me” e ao final Jagger solta essa: “I loved it”! Nós gostamos, Mick. No mínimo achamos curioso. Aliás, você continua afiado nas suas apostas, vendo sempre o que é melhor para a sua banda e acertando na maioria delas.

E Mestre Keith, do que mais é capaz esse homem?
O bardo e sua guitarra. Não importa se diante de uma pessoa ou de um milhão delas: a deferência ao seu instrumento é sincera e comovente. Sempre. Afinal, nele reside toda a sua razão de existir, sua vida. O momento mais emocionante do documentário é a entrevista com Keith, onde o repórter pergunta: “Quando você está no palco, no que você pensa? Você se concentra na guitarra ou na platéia?”, ao que Keith responde: “No palco não tem como você interpretar. No palco você é o que é. Pelo menos para mim é assim. E isso só é possível porque amo muito o que eu faço”.
Esse amor é visível por todos Keith e como fãs, só temos a agradecer as noites que passamos em claro, algumas bebendo e jogando conversa fora por aí, vibrando ao som dos seus riffs. Muito bacana ouvir de Ron Wood, seu amigo e comparsa de cordas e “otras cositas más”, dizer: “tocar com Keith é demais. Embora não pareça, ele é um dos sujeitos mais éticos e atenciosos que conheço”.
O repórter, então, pergunta a Keith: “Quem é melhor guitarrista: você ou Ron?”
E Keith sentencia: “sozinhos não somos grande coisa, mas juntos valemos por 10 guitarristas”. E, falem o que quiser, pode tratar-se de um conjunto ou mesmo uma corporação (para muitos uma instituição), mas se Jagger é o cérebro da banda, Keith é a sua alma.
Ao sair da sala com a energia revigorada, paro pra pensar que os meus problemas nem são tão grandes assim. Afinal, ver a disposição e entrega daqueles senhores que há mais de 40 anos estão na estrada e viveram tantas experiências, inúmeras vezes desacreditados, vivendo no limite e além da linha que transpõe qualquer ato mínimo de racionalidade, vendo-os ali, felizes, com os anos e percalços da vida marcados em seus rostos, enormes sulcos, me envergonho da minha pequenez.
Muito obrigada, Stones, por mais uma vez darem um sentido à minha vida. E mais uma vez volto aos meus 07 anos de idade, em casa, colocando o volume da vitrola no máximo para escutar o riff de “Satisfaction” pela 1ª. vez, num misto de curiosidade e excitação: uma experiência indescritível!
Hoje chego em casa e procuro o tal disco. Ele está lá, resistindo ao tempo. Procuro pela mesma faixa e, saudosa, recordo das conversas com a garotada da rua, do Júlio e do Passarinho, os nossos Jagger e Richards, quando o Márcio, irmão do pássaro, comprou uma telecaster e a garotada toda foi até a porta da casa deles pra ver a guitarra “igualzinha a do Keith Richards!”, garotada que realizava verdadeiras ações em conjunto – isso sim, uma verdadeira benemerência – de gravar fitas K7 para compartilhar com os amigos o deleite que era ouvir cada disco dos Stones e de tantas outras bandas legais que a gente curtia e curte até hoje.
Eu sei, alguns discos nem tão brilhantes ali, alguns riffs marcantes aqui, mas a essência, essa continua firme e forte – e não há como não admitir o fascínio incansável que esses senhores ainda exercem sobre milhares de pessoas - fato comprovadíssimo após o prazer de assisti-los ao vivo em 1995 (uma das maiores emoções e satisfações da minha vida) e hoje ao final de 122 minutos de puro deleite. O sentimento era o mesmo, o de reverência e agradecimento a essa que é a maior banda da história do rock’n roll, falem o que quiserem, aconteça o que acontecer. Porque tudo se resume a antes e depois dos Rolling Stones. O resto é imitação barata, no mínimo esforçada.


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1. Publicado originalmente em 31.05.2008 In: www.bombrilnaantena.blogspot.com.

2. Advogada, pós-graduada em Relações Internacionais e especialista em cultura, música, cinema e literatura.



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Artigo.

Ser ou não ser, eis a questão? – ou uma verdade paradoxal.

por Marlon Marques.


























Não sei ao certo se Max Lopez chamou Elicarlos de “macaco”. O que sei é que os antecedentes dos argentinos não são favoráveis. Basta apenas se lembrar do jogador Desábato. No jogo São Paulo e Quilmes na Libertadores de 2005, o jogador argentino também foi acusado de racismo pelo brasileiro e negro Grafite. Elicarlos também é negro assim como Grafite, e Max Lopez também é argentino, assim como Desábato, será isso mera e infeliz coindicência? Em 1963 no jogo Santos e Boca Juniors na Argentina, a torcida do time portenho fez gestos e ruídos de primatas contra Pelé e outros jogadores santistas, mas uma vez a mesma equação, Pelé negro e o Boca Juniors um time argentino. A Argentina sempre teve ligações muito fortes com a Europa, sendo Buenos Aires conhecida como a Paris latino-americana. Os argentinos são racistas sim, e é fato que houve um programa de pureza étnica nesse país, para garantir que não houvessem negros e que esses não atrapalhassem o desenvolvimento do país [corrente de pensamento difundida à partir da Europa através das idéias eugenistas no século XIX]. Essas idéias eram defendidas por um certo general Sarmiento. Porém não podemos afirmar que todos os argentinos são racistas, mas é certo dizer que muitos o são, e no futebol essas questões vêem a tona com alguma frequência. Na realidade o futebol nos mostra o que é evidente, nas arquibancadas ou até mesmo em campo, nos mostramos tal qual somos de verdade, ao passo que tais atitudes no âmbito da vida social torna-se inviável. Tome como exemplos o exercício de liberdade, rebeldia e autogestão da “Democracia Corinthiana” no fim, mas ainda na ditadura, ou a seleção italiana de futebol que usou camisas negras na final da copa de 1938 – alusão aos camisas negras de Mussolini. O futebol espelha a sociedade, e a sociedade espelha o futebol. Na Espanha, Roberto Carlos, brasileiro e mestiço sofreu agressões de diversas torcidas desse país, assim como o camaronês Samuel Eto´o, que chegou a abandornar uma partida contra o Real Zaragosa em 2006. O futebol é mesmo engraçado, pois consegue inverter inclusive a lógica dos verbos ser e estar. Somos ou estamos racistas? No futebol, as duas coisas. Uma parte da torcida do Grêmio demostrou claramente isso no último dia 2 de julho de 2009, na segunda partida da semi-final da Libertadores entre o Grêmio e Cruzeiro. O jogador Elicarlos começou a partida no banco de reservas, porém quando entrou, essa parte da torcida gremista começou a insultá-lo imitando ruídos de um macaco. Porém a mesma torcida aplaudiu quando o jogador gremista Perea entrou em campo depois de longo tempo parado por conta de uma lesão. Ambos são negros, porém a mesma torcida que chamou um negro de macaco, aplaudiu um outro negro – o que isso realmente significa? Somos ou apenas ficamos racistas dependendo do contexto? Ou somos racistas por conveniência, quando é preciso um pai ser bravo com um filho ele é, mesmo amando o filho, então, esses torcedores do Grêmio não são racistas, apenas foram racistas naquela ocasião, afinal, eles até toleram Perea, Makelele e o Joílson, todos negros [irônico]. É contaditório, pois parece que na verdade os negros não prestam, porém quando “estão” a nosso favor torna-se tolerável [não significa que gostamos], porém quando não “estão” [a nosso favor] aí sim, podemos chamá-los de macacos, pretos, inferiores, ou qualquer outra denominação tão abominável quanto mulato ou escurinho. O meu veredito final é que nós somos racistas, pois o brasileiro é bastante racista sim, e os sulistas em especial [bom que fique claro não é uma generalização]. Portanto não é surpresa nenhuma a atitude de Max Lopez, assim como a dessa parcela da torcida do Grêmio, pois todos sabemos que os sulistas sentem-se muito mais próximos dos argentinos do que do resto do Brasil. E se os estados do sul [no futebol também] imitam a garra, a técnica, a competitividade e o churrasco argentinos, porque não haveriam de copiar também o racismo? Mas o mas irônico de tudo isso é o fato de que o belo hino do Grêmio foi composto por Lupicínio Rodrigues, homem negro e talentoso nascido em Porto Alegre, mas não se preocupe, como esse é dos nossos, isso nós toleramos.







































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