segunda-feira, 29 de junho de 2009

Crítica.

Green Day - Dookie.


por Marlon Marques.























O tempo realmente faz coisas impressionantes. Há 15 anos atrás o Green Day lançava Dookie, o álbum que marcou uma geração que queria ser rebelde. Para os meninos que nasceram no ano do tetra da seleção brasileira, já é tempo de descobrir as coisas boas da vida, para nós, quase balzaquianos, nos resta lamentar o tempo que passou, e que foi bom. Não entrarei em delongas sobre as diferenças desse Green Day de 1994 para o de hoje [American Idiot será fruto de texto futuro], irei falar mesmo do disco que marcou uma época muito boa da minha vida, e da vida de muitos da minha geração e que hoje sentem vergonha de dizer que já ouviram um dia. Billie Joe foi um grande ícone da garotada pseudo-louca da primeira metade dos anos 90, roupas largadas e sujas, cintos de rebites, cabelos coloridos, skate e muito som, na verdade um meio do caminho entre um punk falso e um hard core light. Porém é bom dizer, era bom [e é ainda?], para aquele contexto, para aquele momento e para aquele público, era bom, o mesmo não se pode dizer sobre hoje, uma vez que a era da informação avançou ao ponto de termos blogs e um sem número de resenhas sobre os grandes discos do passado e que nos dizem muito sobre o que é um bom disco. Dookie estourou, vendeu muito, fez o Green Day aparecer na mídia – quem não se lembra do clipe no sanatório de Basket Case – fez muitos garotos se rebelarem no quarto, fez muitos pais reclamarem do barulho nas caixas de som. O som é puro pop, bem feito, feito para cair mesmo no gosto do público consumidor de música fácil, porém era [e é – sem dúvida] cativante e empolgante. Era simples, poucos acordes no melhor “do it yourself”, acessível para meninos de dez à quatorze anos, com seus skates embaixo do braço e espinhas na cara. Voceis queriam o quê, que ouvissemos Black Flag, Minutemen, Fugazi e Hüsker Dü? Quem ouve essas coisas [irônico]? Nessa época todos estavam boqueabertos com o grunge ainda, sons mais cabeça não estavam em voga, não havia ninguém para nos dizer “ouça isso”, “ouça aquilo”. A indústria faz tudo ser produto, e mesmo revistas de rock mais underground precisam vender, a MTV precisa de audiência, e o Green Day é o pop perfeito de massas da juventude – veja o nexo – em 94 eram os moleques skatistas, hoje são os emos e punks de butique da Augusta. Quanto à Dookie não há muito o que dizer além do que sabemos. Eu o considero um bom disco, coeso, simples e extremamente agradável. Dookie é um filtro de água onde até as impurezas são positivas. “Having A Blast” e “Chump” são pop song´s rapidinhas, filhas da mesma mãe, são muito parecidas. Rápidas, básicas, dão um cartão de visita muito aconchegante, assim como a ótima “Burn Out”. A primeira faixa do disco é forte e pulsante, mostra Tré Cool como destaque da banda logo de início – com direito a solo de bateria – a levada empolgante da música é cheia de riffs certeiros e rápidos. “Pulling Teeth” é mais lenta, mais calma e apresenta Mike Dirnt, sua levada de baixo se sobressai muito da massa sonora da música, Billie Joe canta de forma mais sútil, assim é também em no começo de “F.O.D.”, que depois se derrama na barulheira desenfreada. “Emenius Sleepus” e principalmente “In The End” são as velozes do disco, levadas de guitarras sujas e vocais urgentes de Billie Joe Armstrong fazem a alegria dos skatistas das autobans da vida. “Sassafras Roots” tem umas caídas diferentes, uns jogos de batidas de meio tom e baixos agressivos, mas nada muito diferente das demais citadas. O problema de Dookie é a repitação, fruto da inventividade limitada da banda. “Long View” explora algo diferente logo na introdução, uma batida de marcha militar e um bonito fraseado de baixo de Dirnt – essa composição se alterna com o refrão raívoso da música, onde Billie Joe canta lascivamente: “morda meus lábios e feche meus olhos, me leve para o paraíso”. A faixa seguinte é mais séria e fala de outro paraíso, não no sentido de jardim das delícias, mas no sentido de lugar de conforto, em “Welcome To Paradise”, Billie Joe exorcisa sua infância pobre e convida sua mãe [ao som de um canção raivosa e cheia de guitarras nostálgicas e lamentosas] a sua nova casa, a terra do desperdício – produto do sucesso imenso da banda. “Basket Case” é um sonho embalado à guitarras loucas e um refrão pegajoso. Feche os olhos e ouça aos 0:43 segundos de música o riff de guitarra entrecortado pelo baixo e a entrada da bateria, impossível não se lembrar do tempo que passou, da escola ou da garota bonita que não lhe dava bola. A música é ainda hoje o maior hit da banda, não há quem não conheça Basket Case, e justamente porque é cativantemente simples. “She” é talvez a outra grande canção do disco, empolgou tanto quanto Basket Case, porém é mais emocional do que essa última citada. She tem a urgência das paixões da juventude, e o vigor das lembranças, e nós que éramos tão alienados. Éramos alienados inocentes, frutos de uma sociedade que nos via como lixo dotados de carteiras de identidade e cpf, ferramentas inúteis, como Billie Joe diz na letra, vivendo num mundinho limitado tal qual Truman vivia. Essa crise de identidade é cantada belamente em “Coming Clean”, uma levada empolgante e simples, lembra bem o hard core light de gente como MXPX. “When I Come Around” é a antibalada do disco, linda e confessional. Aqui Billie Joe relata o quanto seu estilo de vida junkie pode ser solitário. Ele está só e sua garota também, estão tentando se encontrar num mundo ruim e Hobbesiano, ambos precisam um do outro, ela hesita em largá-lo e ele faz chantagem emocional, apelando para seu arrependimento possível, será? O fato é que não há do que se arrepender em ouvir Dookie, são 14 faixas de pura diversão e maturidade interrompida, pueridade e vontade de crescer, ma non troppo.





























Green Day - Dookie [Reprise, 1994].

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Crítica.

The Young Gods - Super Ready Fragmente.


por Marlon Marques.

























O trio suiço The Young Gods é uma grande banda. Essa afirmação, se apóia em dois pilares basicamente. O primeiro é a carreira bastante regular da banda – lançou pelo menos dois grandes álbuns antes desse, L´Eau Rouge [1989] e Play Kurt Weill [1991], e o segundo pilar é o fato de gente como Maynard James Keenan e Mike Patton serem admiradores da banda e terem sido influenciados por eles. O The Young Gods é rotulado como industrial, porém seu som é muito diferente do caos puro do Ministry, da depressão do Nine Inch Nails ou da megalomania de Marilyn Manson. O grande destaque porém fica por conta da voz de Fraz Treichler, potente, aveludada, consistente e bonita. A música do The Young Gods vai além do mero industrial justamente pela competência e inventividade da banda – evidencia já mostrada nos álbuns citados anteriormente. Esse Super Ready Fragmente é bastante melódico e dançante, mas não fica limitado apenas a programação eletrônica, há arranjos instrumentais e harmonias bem executadas, aquele que tiver ouvidos, ouça. “I´m The Drug” a primeira faixa nos dá um cartão de visitas bastante distorcido, como os próprios integrantes da banda já haviam antecipado, esse disco teria uma maior influência de guitarras, talvez um pouco ausente em trabalhos anteriores. Treichler demonstra sua competência vocal na introdução de “Freeze”, algo parecido com U2, bastante rock e alguns poucos efeitos eletrôncos. “C´est Quoi C´est Ça” é toda influência da banda em nomes como Nine Inch Nails e Orgy, programações sombrias, chiados defeituosos e vocal macio, porém incisivo. “El Magnifico” e “The Color Code” são dançantes, ótimas pedidas para pistas de dança, The Color Code se executada a ouvidos desavisados passa fácil por Chemical Brothers. “About Time” tem um arranjo pulsante com ecos de guitarra e intervenções eletrônicas, o vocal de Treichler mais uma vez se acentua pela qualidade de seus agudos. “Stay With Us” presta homenagem a música indiana pelo uso de cítara, e “Machine Arrière” é apenas uma vinheta robótica que abre um caminho que nos leva até a faixa título do álbum “Super Ready Fragmente”. Climática e intensa, Super Ready Fragmente é a faixa mais longa do disco, tem nove minutos, e dá uma aula sobre como uma canção longa pode não ser chata. Cada arranjo parece milimetricamente composto, caos e harmonia convivem de forma complementar, dando vida a canção. “Secret” é densa e apresenta lindas linhas de baixo grave, é uma composição bastante complexa, bateria quebrada, peso sob medida e pling plongs eletrônicos soltos pela música se encaixam com perfeição aos falsetes de Treichler e as modulações perfeitas que esse faz com sua voz. “Everythere” começa monótona, mas ganha corpo no final, com guitarras pesadas cheias de overdubs, criando camadas sobre camadas de sonoridade caótica. A última faixa “Un Point Cest Tout” é gelada e sombria no início, porém vai ganhando corpo assim como Super Ready Fragmente, os vazios criados pela ótima produção de Roli Mosimann [NIN, The The, Celtic Frost] secam as batidas da bateria, os efeitos brincam com paisagens sonoras desertas e silenciosas, as guitarras imitam Black Sabbath e por fim resta o ruído último da memória se esvaindo. Super Ready Fragmente é um bom álbum, bem produzido e bastante variado, e é justamente por isso que torna-se bom, por não radicalizar nem guitarras nem eletrônica, e também por não fazer o que todos fazem quando fundem esses dois elementos, sempre erram a mão para um lado ou para o outro, o Young Gods acerta em cheio nesse disco coeso e ótimamente audível.



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quinta-feira, 25 de junho de 2009


Ensaio.

A Arquitetura da Angústia
¹.

por Marlon Marques.


















Estou sozinho no meu quarto, observando a noite negra de uma brisa levemente fria, no som toca Portishead. É inevitável a sensação depressiva que toma conta de qualquer ambiente que se toque essa banda, pois além de uma perfeição narcísea, é impossível não se arrepiar ao ouvir a canção “Humming” com seu início fantasmagórico. Se o Portishead tivesse se formado nos anos 20, com certeza F.W.Murnau o usaria como trilha sonora de seus filmes se esse recurso estivesse a época disponível, pois não há como não comparar com a famosa cena da projeção da sombra de Nosferatu com suas garras afiadas, e com o medo primitivo que o expressionismo alemão nos dá. Já “All mine” é uma sinfonia quase fúnebre, com batidas secas e cortantes, um clipe preto e branco climático e uma menina assustadoramente inexpressiva, quase morta no vocal, acompanhada por uma banda de velhos vestidos em trajes de gala para um concerto cemiterial. Com o transcorrer da canção e o bradar dos versos, chega-se ao refrão clamoroso que é o título da música, nessa hora um efeito cria um vulto crescente da menina a deformando, dando-a uma aparência medonhamente cadavérica. Outra experiência sombria é ficar em silêncio absoluto no escuro ouvindo a faixa “Over”, é como vagar a meia-noite pelo cemitério da consolação e perder-se entre seus labirintos. Medo e paranóia, depressão e vertigem são sensações causadas pelas músicas desse álbum [o homônimo Portishead], que invadem nosso inconsciente despertando fantasmas internos que há muito estavam mofando em nossa mente. O solo torto de guitarra aos 3 minutos e 28 segundos sobe a espinha como um calafrio, com um sopro na nuca inesperado no meio da noite. Mas há também beleza no Portishead, principalmente na singeleza da gélida “Mourning Air”, que começa com um sussurro e uma pequena e fina seqüência de dissonâncias de baixo tom de guitarra, porém aos 0:35 segundos ouvisse um metal, aquele que tudo salva, uma clarineta ou espécie de trombeta do juízo final preludiando a canção. Esse clarin da inicio emula um acid jazz denso, climático, marcado por uma linha de baixo soturna e um vocal levemente desesperado de uma Beth Gibbons inspirada. A tradução livre dessa canção chega a um “Ar Fúnebre”, e fala sobre fraqueza e dependência em relação a hesitação em se dar uma nova chance a uma possível traição. É um belo tratado de angústia e beleza mórbida, não se assemelha em sonoridade, mas em termos de profundidade é possível ver um “quê” de The Cure no Portishead, é ouvir pra crer.





























1. Publicado originalmente em 11.01.2008 In: www.bombrilnaantena.blogspot.com.








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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Crítica.

Portishead - Dummy.


por Marlon Marques.


























Dummy é o álbum de estréia do Portishead, lançado em 1994, e também o marco zero do Trip Hop. Parece até um clichê o fato de as bandas não assumirem os rótulos criados, mas com o Portishead isso realmente é verídico, eles nunca se colocaram como parte de uma cena com Tricky, Massive Attack e Bjork – mesmo embora próximos desses dois primeiros. Poucos discos de estréia são e foram tão aclamados como Dummy, as revistas britânicas Mixmag, The Face e Melody Maker o elegeram disco do ano, e no ano seguinte [1995], ganhou o cobiçado Mercury Music Prize. Porém tudo isso é plenamente justificado quando se ouve o disco. Logo de início ouvimos as batidas secas e os scratches de “Mysterons”, o som é diferente de qualquer outra coisa feita naquele momento crítico da música mundial. E não é exagero, pois embora o fantástico Herbie Hancock já tenha mesclado batidas de rap com jazz, só o Portishead conseguiu fundir rap, jazz, eletrônica [embora o rap seja de certa forma], dub e trilhas sonoras, numa musicalidade única e surpreendente. A cantora em questão, uma certa Beth Gibbons, uma mistura de Nico com Bjork, esbanja seu talento derramando suas mágoas sobre letras tristes e confessionais. “Sour Times” é melancólicamente linda, e contundentemente nostálgica: “porque tudo o que me sobrou são as recordações de ontem, Oh, essas épocas azedas”. “Strangers” tem uma batida forte, marcada, é densa como uma noite de fog londrino. É uma canção entrecortada por efeitos sonoros quase que tirados de filmes, é aqui que os vocais de Gibbons começam a ter mais destaque, emoção em profusão. Gibbons demonstra em “It Could Be Sweet” o quanto é versátil, Geoff Barrow a definiu como um camaleão vocal, e nessa faixa isso fica muito claro. Aqui Gibbons é cortantemente suave e elegantemente sútil, sob uma base minimalista, mezzo bossa nova/acid jazz, cool. As batidas cortantes e fortes de Strangers, voltam em “Wandering Star”, o recurso dos samples enriquece a música com intervenções contextuais, Beth mantém a suavidade, enquanto ao fundo descortina-se um acompanhamento levemente orquestrado. Essa orquestração aparece verdadeiramente em “It´s A Fire”, mesmo que em alguns momentos, pois essa canção é toda dominada por uma atmosfera fantasmagórica criada por um órgão de catedral – em alguns momentos chega a lembrar algo de New Age [sic]. “Numb” é tensa e sinistra, sua letra é cheia de figurações complexas. Os scratches dão um show a parte em Numb, o clima de tensão é provocado por cacos de efeitos disparados entre as batidas, no fundo pequenos alarmes e um jogo de cordas nos inquietam de uma forma quase paranóica. Se não há uma explicação semântica definitiva para o Trip Hop, há uma explicação sonora, ela chama-se “Roads”. Linda, triste, dolorida, tudo nessa canção é perfeito, a interpretação altamente emocional de Beth Gibbons, os arranjos, a execução da música, a letra, enfim, isso vai além de um rótulo. O mórbido começo com ondulações de guitarra preparam uma suíte esfumaçada, como um bar no fim da noite onde se vê um homem solitário em sua dor tomar sua última taça de mágoa. A tão citada orquestra enfim acompanha a canção inteira, enchendo de beleza ainda mais a perfeita canção. “Não tenho ninguém ao meu lado, e certamente isso não está certo”, é essa dor da solidão que a música retrata tão bem, que é impossível não se emocionar na solidão de um dia frio e escuro. “Pedestal” é sem dúvida a mais experimental e jazzística do disco, enquanto que “Biscuit” é emocionalmente sombria, cheia de iluminações e efeitos de distorção de voz. Dummy de fato é inteiro muito bom, porém há sem dúvida dois grandes momentos claros nesse disco, um é Roads e o outro é “Glory Box”. Uma linda canção que tornou-se o maior sucesso comercial do Portishead, justamente por sua beleza incomum e acessível. O crítico Max Reinhardt definiu-a como lânguida e sedutora, o que de fato é, uma canção envolvente e comovente. A letra brinca com a natureza dos genêros, homens durões, insensíveis e nada românticos, e mulheres sensíveis, românticas e machucadas pelo amor. Gibbons deixa claro que quer ser apenas uma mulher, tal qual as mulheres são, porém apela para o homem dizendo: “apenas dê uma olhadinha de fora quando você puder – mostre um pouco de ternura”. Esse homem a fez sofrer, ela se cansou de brincar de tiro ao alvo com seu próprio coração – e como é típico das mulheres – decide deixar para outras garotas esse jogo de auto-flagelação. “Me dê uma razão para amar você?”, amolecida pergunta após um suposto apelo do homem, que a vê indo embora após tanta dor e mágoa. As cordas dão um tom de sofisticação a canção, que ainda conta com um belo solo de guitarra de Adrian Utley, além de suas nuanças e marcações bluesisticas durante toda a música. Beth Gibbons mais uma vez interpreta com um sofrimento exemplar, uma emoção sem limites, faz-nos viver essa dor de forma muito intensa e real, e acho que intensidade é o adjetivo mais apropriado para descrever esse belo álbum e sua virtuosa vocalista.


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Crítica.

Vinícius De Moraes e Odette Lara - Vinícius & Odette Lara.


por Marlon Marques.


























Sempre que ouço falar em bossa nova, a primeira coisa que me vem a cabeça é a antiga questão Hamletiana, a bossa nova é uma sambificação do jazz, ou uma jazzificação do samba? Embora essa questão ainda persista, o imaginário coletivo associa o ritmo a nomes como o de Tom Jobim, Toquinho e Vinícius [de Moraes], João Gilberto [Chega de Saudade], Roberto Menescau e Carlos Lyra, nomes menores como disse certa vez Nelson Motta. Porém é necessário salientar que grande parte do prestígio que nossa música possui no exterior, deve-se à bossa nova, na verdade a bossa nova consolida e pavimenta um caminho iniciado pelo grande Pixinguinha na virada do século. Utlizando propositadamente o título do filme de Hugh Grant “Letra e Música”, é necessario dizer que a bossa nova deve ser analisada dessa forma, conteúdo e forma. O que sempre me incomodou um pouco é o fato de que a bossa nova era o ritmo da burguesia boêmia carioca, que desprovidos de qualquer senso crítico, esbanjavam em suas letras um amor extremamente provinciano e esnobe, cantando uma alegria mantida pelo dinheiro de sua classe que os mantinham intactos em seus lugares privilegiados. Diria até que viviamos um tempo romântico, a era JK, do desenvolvimento, da modernidade, simbolizada nas curvas sinuosas das obras de Niermeyer, da nostalgia da eterna capital do Brasil, de um Rio de Janeiro mágico e terno, onde os malandros da lapa tomavam no mesmo copo dos rapazes bem nascidos do seio da elite carioca. Décadas antes, e até mesmo um certo prelúdio da nova bossa, os negros pobres dos morros mostravam aos brancos elitistas o samba, Noel ia ao subúrbio, enquanto Ismael Silva e Donga frequentavam os salões, era a celebração do Brasil brasileiro. Porém o Brasil de Jânio e Jango não era tão alegre quanto o do presidente “bossa nova”, as trevas de uma noite que duraria 20 anos estavam se aproximando daquele céu de brigadeiro, não havia mais espaço para se enganar sendo mais alegre do que triste, a ficha deveria ter caído. Enquanto os homens e mulheres mais maduros se alienavam com a bossa nova, os jovens se esbaldavam com a jovem guarda, pois não importava o que acontecia ao país, que tudo fosse para o inferno, o mesmo em que a liberdade pública fora lançado. O contexto mudou, a bela e graciosa garota de Ipanema, deu lugar a guerrilheira revolucionária bradando gritos contra o estabelishment político, o barquinho deu lugar ao tanque, e o violão foi trocado pelos canhões e fuzis dos militares. O que muitos críticos do gênero dizem é que algumas letras são extremanete infantis e banais, exceto as canções de amor, que possuem de fato um grande requinte poético, vide a obra de Vinícius de Moraes. Quanto a música de fato não há o que se discutir, com exceção feita ao fato de que algumas canções serem muito semelhantes nos arranjos e no compasso. A influência do Jazz é inevitável, principalmente no uso de metais e no ritmo imposto pela bateria, porém a bossa nova tem o tom sensual e quente dos trópicos brasileiros, sem a crueza reta do jazz. Os arranjos do maestro Jobim ou os acordes de um Toquinho, e principalmente da técnica refinada de João Gilberto, são marcas musicais como bandeiras que marcam posição num território, encontrando a leveza de vozes como a de Odete Lara e Maysa, e até de Elizeth Cardoso. E é justamente na riqueza instrumental que a bossa se destaca, são sons plácidos de uma calmaria que emula um passeio pela orla de copacabana numa doce manhã de janeiro, contemplando a beleza natural de um paraíso abençoado pelo Cristo, que oferece como alternativa as balas perdidas, os braços de um abraço fraterno. Há também uma certa beleza na tristeza cantada pelos trovadores da bossa, uma certa melancolia, um certo sonho, reforçado pelos arranjos orquestrais e pelos climas produzidos pelas cordas e pela cadência desse samba sofísticado. O álbum “Vinícius & Odette Lara” foi lançado em 1963, consolidando a parceria do poeta com o grande músico Baden Powell, além dos grandes arranjos do maestro Moacir Santos, outros destaques são os clássicos emplacados pelo álbum, “Samba da Benção”, “Samba em Prelúdio” e “Mulher Carioca”. Um belo álbum, onde com toda certeza a interpretação de Odette chega a picos de beleza em “Além do Amor”, linda letra de Vinícius, tocantemente triste, não há como não se emocionar com o verso: “Beijia até o fim – As minhas lágrimas de dor – Porque eu te amo, além do amor”. Agora “Só por Amor” é de deixar qualquer um boquiaberto, estarrecido, com sua beleza, um compasso lúgubre acompanha os lindos versos de um amor burro, “Você que nunca disse não – Só por saber – Que o coração sabe demais – Que a razão não tem razão”, de fato, o amor as vezes é belamente cego, nos faz abrir mão de um mundo de possíbilidades, por ilusões vãs de um sentimento incondicional. Outro destaque vai para “Mulher Carioca”, cantada pelo poeta Vinícius acompanhado de um coralzinho, versa sobre a beleza da mulher brasileira de vários estados, do Espiríto Santo à Bahia, do Amazônas à São Paulo, porém é da mulher carioca o posto de mulher especial, com seu jeitinho peculiar, seu passinho, seu carinho que não encontra par em nenhuma outra Brasil à fora, e é nessa música que o infantilismo bossanovista se apresenta, com esses nhem-nhem-nhem-nhem-nhem chatamente idiossincráticos, cantados de uma forma extremamente tediosa e irritante. “Samba em Prelúdio” é um duo perfeito de Odette e Vinícius, começando com um minimalismo de piano e cordas, para logo se deixar seduzir pelo ritmo sincopado peculiar da bossa, um samba diferente, uma bela declaração de amor e uma linda canção que derreterá com certeza qualquer coração feminino [e masculino porque não!]. A letra se inicia com o homem [Vinícius] dizendo que sem a amada é incompleto, “Sou chama sem luz – Jardim sem luar – Luar sem amor – Amor sem se dar”, amar é uma entrega, no prazer e na dor, uma entrega a verdade do sentimento, do néctar do sentimento, do fino de uma bossa eterna. A canção prossegue triunfal com a pálida voz de Odette, que termina dizendo: “Estou tão sozinha – Tenho os olhos cançados de olhar para o além – Vem ver a vida – Sem você meu amor eu não sou ninguém”, sem dúvida é uma ode ao amor, a letra é a confirmação da sentença bíblica da unidade do matrimônio, seja ele oficial ou não, pois o amor não carece de procurações ou papéis timbrados, precisa sim existir na mente e nos corações dos poetas e dos amantes, pois como nos disse Fernando Pessoa, “Deus quer – O homem sonha, e a obra nasce”.


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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Artigo.

Crítica.

The Cranberries - To The Faithful Departed.



por Marlon Marques.


























Toda banda de rock que inicia sua carreira com um bom álbum de estréia, terá o grande desafio de lançar o segundo álbum a altura, ou melhor do que esse de estréia. Sabemos que a pressão dos fãs, da mídia, da indústria é muito grande, pois todos anseiam por novos hits, ou melhor velhos hits, apenas com um roupagem diferente. Isso aconteceu com o The Cranberries, pois seu primeiro álbum de 1993, Everybody Else Is Doing It, So Why Can´t We?, tornou-se um grande sucesso e ainda de quebra legou ao mundo um grande hit, a canção Linger. Porém em meio a muita expectativa é lançado em 1994 o álbum No Need To Argue, contendo diversas músicas que se tornariam clássicas depois, mas principalmente pelos dois carros-chefe que levariam o disco ao topo das paradas do mundo todo, Ode To My Family e Zombie. Pronto, a lição já estava feita, o segundo álbum superou o primeiro, e ao invés de um, dois hits, sucesso garantido de vendas, fama e execução a exaustão dos clipes via MTV, a banda havia passado pela sabatina e confirmado sua transição de promessa para realidade.

O terceiro álbum porém não alcançou o mesmo sucesso esperado, tanto pela gravadora, quanto pelos fãs e pela crítica, que chegou a pronunciar que banda havia perdido a magia ou feito um álbum anti-comercial. Porém é necessário analisa-lo de uma outra forma, levando em consideração vários aspectos pouco citados pela maioria das pessoas que simplesmente o ignoram. Claro que To The Faithful Departed é um álbum bem diferente dos anteriores, é menos pop e mais elaborado, nota-se claramente a exaltação das raízes celtas do grupo, num diálogo com suas tradições. É um álbum muito bem produzido, além de trazer um Cranberries em ótimo entrosamento, mostrando uma clara evolução da banda como um todo, desde os caprichos dos instrumentais e a diversidade de instrumentos usados nas músicas, como no vocal de Dolores O´Riordan, mais limpo e alto, mais audível e seguro, pois nos álbuns anteriores nota-se uma mulher ainda muito insegura de seu talento, como que escondendo seu canto atrás da massa sonora. Toda a ótima produção do álbum é fruto também do dinheiro disponibilizado para a gravação, pois o que a Island queria mesmo era outro No Need To Argue, enquanto a banda queria fazer uma obra mais madura, um trabalho mais artístico que os demais, porém há um abismo entre as pretensões da banda e as pretensões da gravadora, que adota como estratégia, a idéia de “falar a língua do mercado mundializado, explorar um lugar específico que, no entanto, não seja diferente, vestir o diferente com roupa conhecida[1]. Esse conflito fica mais evidente nas palavras da própria Dolores: “ O mercado havia se tornado agressivo demais(…)”[2], e essa agressividade fez com que a banda não agüentasse tamanha pressão, apesar do álbum ter vendido 6 milhões de cópias, ter gerado uma turnê bem sucedida, além de dois ótimos hits radiofônicos, Salvation e Free To Decide.

A primeira faixa do disco, é uma canção muito vigorosa e pungente, Hollywood é um grito de libertação feminina, uma mulher que quer alguém de verdade e não em momentos, e mesmo que goste dele e até o procure, o manda embora também. Esse desprendimento é completado pela fúria continua de Salvation, onde Dolores proclama que a “salvação é de graça”, a letra fala justamente sobre fazer o que bem se quer sem se importar com as diretrizes da sociedade, ainda mais se tratando da católica Irlanda. When You´re Gone quebra o peso com um dedilhando e um sussurro de ninar, é uma música tão cativante que foi inevitável que se torna-se o terceiro single do álbum. É uma linda declaração de amor, possivelmente para Don Burton seu marido, que ao que tudo indica pela própria letra, trata-se de como o casamento e o fato de ter alguém ao seu lado mudou-lhe a vida. Mostra o quanto há fragilidade ainda nas mulheres, mesmo as mais progressistas e liberais como Dolores, versos como: “Eu poderia estar sozinha dormindo sem você, E de dia tudo é tão complexo, Não há nada simples quando não estou ao seu redor(…)”, mostram o quanto estava se sentindo insegura possivelmente com relacionamentos instáveis como o supra-citado em Hollywood.

Free To Decide é realmente incrível, começa com um fraseado de guitarra para logo entrar num jogo pop com direito a órgão de fundo e refrão extremamente pegajoso, pois não há como não sair cantarolando depois de ouvi-la. É a partir dessa canção que Dolores começa a abordar o tema dos conflitos europeus e demonstrar além de consternação pela situação, forte consciência política. Aqui Dolores é livre para decidir o quer de seu destino e de seu momento, já conquistou gratuitamente a salvação, agora não pode se deixar levar pela paixão apenas, deve-se ser racional e saber que se há problemas na relação, pode-se sair dela a qualquer momento. Há uma certa dose de feminismo no primeiro verso da música: “Eu viverei como escolhi ou eu não viverei de maneira nenhuma”; o que indica um equilíbrio de força com fragilidade, expressa em When You´re Gone. A próxima faixa é de uma beleza lânguida e tão realista, que chega a doer o coração. O instrumental é algo a parte, uma canção folk, cheia de violinos e metais, com um andamento calmo, ideal para degustar a letra e se sensibilizar com a Criança de Guerra. War Child é cantada de uma forma tão intensa e emocional que pode levar os mais sensíveis as lágrimas, narra os horrores das guerras em geral, mas em especial a guerra da Bósnia, onde muito sangue inocente, inclusive de crianças, foi derramado por questões religiosas, étnicas e territoriais. Dolores tem razão ao dizer que “Em tempos de guerra nós todos somos perdedores(…)”, e esse sentimento ela pode viver na pele nos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda, eternizado na letra de Zombie, esses conflitos religiosos na Irlanda, “remontam o século XVII, quando se deu uma grande imigração de protestantes britânicos (especialmente presbiterianos da Escócia), que se instalaram na região nordeste da ilha(…)”[3]. O álbum segue com a agitada e pessimista Forever Yellow Skies, e com as lembranças de The Rebels, onde narra fatos de sua adolescência, auto chamando-se de rebelde, até chegar na instrumental Intermíssion, quase um ambient-music, com sopros, piano, guitarra dedilhada e tambor, lembra um concerto campestre ou uma celebração celta no meio da floresta. É notável o nível de elaboração das músicas, cada canção parece ter vida própria e é isso que enriquece esse disco, pois se fosse um álbum temático talvez soasse repetitivo demais, mas não, é muito heterogêneo e multifacetado, fala de amor e condena o absurdos da guerra, e mostra também uma sensibilidade com o próximo quase católica, o que não é de espantar e nem de se afirmar, pois Dolores disse que “era bastante religiosa quando criança(…)”[4], mas pelo que proclama nas letras e principalmente em Salvation, o caminho não é a religião constituída e formal, mas algo mais amplo, talvez isso explique o retorno as raízes celtas e a exaltação da natureza como expressa na arte do encarte do disco, declara ainda que é “muito espiritual” e “acredita em Deus”, e diz passar esses valores para seus filhos, valores fraternos de compaixão com o próximo. O álbum pode ser pensado como um disco de vinil com lado A e lado B, pois como tem 15 faixas e a oitava “Intermíssion” é instrumental, ela divide o álbum em sete músicas de um lado e sete do outro, e assim encerra-se o lado A. O disco segue com a forte “I Just Shot John Lennon”, que conta a história da trágica morte de John Lennon, no auge de sua carreira solo e vivendo segundo ele mesmo o melhor momento de sua vida, repentinamente como diz a letra, voltando do estúdio, foi abordado por Mark Chapman que disparou contra ele cinco tiros com um revolver calibre 38, ouvidos no final da canção. “Eletric Blue” é uma música espiritual, o inicio lembra muito canto gregoriano, com acompanhamento de um órgão de uma velha catedral, há até o estalo de um sino, criando ainda mais essa atmosfera sacra.

I´m Still Remembering” é uma das mais belas canções do álbum, um verdadeiro primor de uma delicadeza superior, evocando a um sonho distante. O dedilhado do inicio da música, a levada lenta e crescente, embala o vocal passional de Dolores, numa interpretação cheia de sentimento, em versos lindos como, “Eu ainda me lembro da vida antes de me tornar sua esposa. Eu ainda me lembro da dor”; são reminiscências de uma vida transformada, é uma narrativa de desespero e louvação ao amor. Se Dolores homenageou o John Lennon em uma canção, agora presta homenagem a sua banda, os Beatles. A canção “Will You Remember?” é idêntica a “Being For The Benefit Of Mr. Kite!”, sétima faixa do álbum Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band de 1967, uma fábula circense, de compasso binário como as marchas de exército, ao invés de soldados, desfilam teclados e dedilhados de guitarra imitando banjos antigos. Dolores tem se mostrado muito melancólica e saudosista em suas letras, fala de um tempo triste porém com muita saudade, é uma relação um tanto ambivalente com o passado.

Essa evidência é clara em “Joe”, com sua levada terna e um maravilhoso arranjo de alaúde, fala sobre uma pessoa que conheceu em seu passado e que a fez muito bem, a tonalidade envelhecida da música nos evoca justamente a um passado, como na introdução “havia um tempo(..)”, além da indicação “anos preciosos para se lembrar”, claramente se rendendo a essa saudade contida. Em “Cordell” o tema é a perda, tem um arranjo simples, violões com efeito overdub dão a impressão de recheio a música, soma-se a isso, sussurros ao fundo a lá “Linger” e um solo de flauta no final.

O álbum se encerra com a grandiloquente “Bosnia” , uma canção épica, que narra os horrores da guerra da Bósnia, travada entre a minoria de Sérvios que ali viviam, de religião cristã e os bósnios de religião islâmica. Os sérvios após a independência da Bósnia da antiga Iugoslávia, reclamaram de serem desfavorecidos pelas leis islâmicas vigentes na Bósnia, por conta disso os sérvios começam uma política de limpeza étnica e religiosa com os bósnios viventes em suas áreas. O governo da Bósnia reage contra os ataques sérvios, tem-se inicio a guerra civil, acirrada com a intervenção do governo da Sérvia sob alegação de defesa de seus nacionais que habitam a Bósnia. O resultado é a destruição e a morte de milhares de pessoas, entre elas crianças e idosos. A letra começa dizendo na primeira estrofe, que “A vida era muito injusta. Nós vivemos nos nossos círculos seguros. E pessoas morrem aqui perto”; isso indica que há uma consciência de que a vida é cíclica, de que hoje acontece com você, mas amanhã poderá acontecer comigo ou com os que eu amo, e isso traz um sensação muito ruim. Susan Sontag aponta que “fotos de uma atrocidade podem suscitar reações opostas. Um apelo em favor da paz. Um clamor de vingança. Ou apenas a atordoada consciência, continuamente reabastecida por informações fotográficas, de que coisas terríveis acontecem[5], essa constatação ilustra bem o sentimento que Dolores nos passa com essa canção, pois ela nos toca no fundo de nossa alma ao imaginar a dor sentido por todos aqueles que choraram as muitas vidas ali perdidas, e como diz a letra, “Sarajevo erga outra sepultura.” Musicalmente falando a canção é magistral, dedilhado típico dos Cranberries, efeito delay, bateria militar fazendo alusão a marcha da guerra, violinos dando dramaticidade e carregando nossos coração de dor e inconformismo até culminar no refrão cheio de emoção na voz de Dolores e um jogo de clarinetas e clarins elevando a canção a um status de sinfonia. Com toda certeza após uma audição mais atenta será impossível não reconhecer a qualidade desse álbum tão subestimado por sua época quanto pela nossa também.



[1] TOSTA DIAS, Márcia. Os donos da voz. São Paulo: Boitempo, 2000. p.121.

[2] OLIVEIRA, Daniel. As dores de Dolores. Show Bizz. São Paulo, n. 09, p.39, setembro. 1999.

[3] OTERO, Edgardo. A origem dos nomes dos países. São Paulo: Panda Books, 2006. p.340.

[4] Op. Cit. p. 40.

[5] SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros.São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.16.

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Artigo.

A História se repete duas vezes, uma como tragédia e outra como farsa.



por Marlon Marques.



















Karl Marx disse certa vez que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda com farsa”. Essa frase se encaixa claramente com o que aconteceu com o Internacional por duas vezes em jogos contra o Corinthians. No ano de 2005, no estádio do Pacaembú, o árbrito Márcio Resende de Freitas, cometeu um erro “Crasso” contra o Internacional na suposta final do campeonato brasileiro desse ano. Aos 36 minutos do primeiro tempo, o ótimo argentino Carlitos Tevez fez um à zero para o timão. Aos 4 minutos da segunda etapa, Rafael Sóbis empatou a partida, muito equilibrada também. O lance decisivo – e a tragédia da história – ocorreu aos 28 minutos do segundo tempo, o volante Tinga avançou pela esquerda, passou por Rosinei [hoje no Inter] e sofreu falta dentro da área de Fábio Costa. Pênalti! O árbitro não marcou, e ainda por cima, expulsou Tinga [injustamente]. O campeonato acabou sendo vencido pelo Corinthians, o que poderia ter sido diferente [culminando com um título do Internacional]. “Tragédia”, talvez a palavra mais adequada para expressar o sentimento colorado naquela ocasião, algo terrível – semelhante ao acontecido com o Santos em 1995 contro o Botafogo, com o mesmo Márcio Resende de Freitas como árbitro. Certos erros não podem acontecer, decidem campeonatos e destinos de equipes. Médicos, Pilotos de aviões e Árbitros de futebol não podem errar, pois estão em jogo vidas, emoções e sentimentos de nações inteiras. A final do Campeonato Brasileiro de 1995 foi o “fato”, o Campeonato Brasileiro de 2005 foi a repetição da história [a mesma de 1995] como tragédia, e a Copa do Brasil de 2009, parece-me a farsa. O jogo teve como palco o mesmo Pacaembú, quatro anos depois envolvendo os mesmos Corinthians e Internacional. O árbitro da partida da vez, Héber Roberto Lopes – que embora esteja em boa fase, não nos esqueçamos de sua fama de caseiro. Os principais lances da partidas [decisivos por sinal] envolvem um gol, cartões e critérios. Vamos inverter a ordem e começar pelos critérios. Héber já sabia de antemão quais os jogadores pendurados das duas equipes, porém caseiro como é, não usaria [como não usou] um mesmo peso e uma mesma medida para as duas equipes. O Corinthians diga-se de passagem, jogou muito até o segundo gol, mas jogou muito bem, é bom deixar claro. Três dos principais jogadores do Corinthians [Chicão, Cristian e Elias] estavão pendurados, com exceção do Cristian, os outros dois eram para ter tomado amarelo. Elias fez pelo menos quatro faltas de cartão amarelo, não tomou nenhum cartão. Chicão por sua vez, fez duas obstruções, pelo que sei, obstrução é quando um jogador intencionamente deixa a bola e lança-se a frente do adversário, impedindo-o de prosseguir o lance, ou seja, se ele não quis jogar deixando a bola em segundo plano, isso é amarelo, sem contar o empurrão de Chicão em Leandrão, culminando na falta batida por Andrezinho e na ótima defesa de Felipe. Agora imagine a pressão no Beira-Rio sem Chicão e sem Elias? Outro lance foi o de Douglas. A FIFA recomenda que todo carrinho por trás deve ser punido com cartão vermelho direto, entretanto, a mesma entidade recomenda que mesmo carrinhos de frente, de lado, soladas, ou entradas mais fortes que coloquem a integridade física do atleta em risco, devem também ser punidos com cartão vermelho. Héber então o que fez, ao invés de expulsar Leandrão já na entrada em Cristian, deu apenas o amarelo – para mostrar que esse tipo de jogada é passível de cartão amarelo apenas. Leandrão fez falta igual e recebeu o segundo amarelo e foi expulso, ou seja, Héber deixou a impressão de que expulsou Leandrão pelo segundo cartão amarelo, e aí entra um paradoxo. Douglas fez jogada semelhante e levou só o amarelo, porém é falta para expulsão direta, então essa inversão de critério, tornou-se um álibi para Héber, pois quem perderia mais, o Inter sem o reserva [e fraco] Leandrão, ou o Corinthians sem o titular [e limitado] Douglas? O gol de Ronaldo é outra polêmica, pois pela transmissão da tevê, não deu para ouvir o apito do árbitro e nem a sinalização com a mão indicando a falta, porém ao rever o lance [diponível no you tube], é claro o som do apito e Héber erguendo o braço [indicando a falta]. No transcorrer da jogada, Elias mal deixa a bola quicar e parar, bate rapidamente e encontra Ronaldo livre, no mano à mano com Índio, para marcar o segundo gol [e de grande vantagem] para o Corinthians. A regra permite a cobrança da falta rápida, só não permite com a bola rolando. Héber contemporizou e deixou o lance seguir – e ele estava a menos de 10 metros do lance, para não haver desculpa de que ele não viu. O lance pegou a zaga do Inter desorganizada, sem chances de recuperação, onde talvez com os segundos perdidos por Elias em arrumar a bola para depois escolher onde bater a falta, faria com que a zaga do Inter se posicionasse melhor, evitando o segundo gol [hipótese]. Esse segundo ato, é a repetição da história como farsa. Nada está definido ainda, porém vamos concordar que a vantagem do Corinthians é muito boa, venceu por dois gols, não tomou gol em casa, e vai para os 90 minutos restantes podendo empatar ou até perder por um gol de diferença. Porém em outra coisa concordemos, se fosse um à zero apenas o jogo, a possibilidade de reversão do Inter seria bem maior do que é – já que é possível – porém só esperamos que os deuses da bola sejão justos, pois não podemos e não queremos uma arbitragem favorável ao Inter no Beira-Rio prejudicando o Corinthians, mas que a justiça seja feita na bola, que é onde a diferença deve ser feita, não no apito, ou nas vicissitudes da história.

















































































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sábado, 20 de junho de 2009

Incubus - A Crow Left Of The Murder

Por Kaled Abdul Sarif































A Crow Left of the Murder
é o sexto álbum da banda Incubus, lançado dia 3 de Fevereiro de 2004.

  1. "Megalomaniac"
  2. "A crow left of the murder"
  3. "Agoraphobia"
  4. "Talk shows on mute"
  5. "Beware!Criminal"
  6. "Sick sad little world"
  7. "Pistola"
  8. "Southern girl"
  9. "Priceless"
  10. "Zee deveel"
  11. "Made for tv movie"
  12. "Smile lines"
  13. "Here in my room"
  14. "Leech"

"Download"

domingo, 14 de junho de 2009

Artigo.

Uma volta relevante?


por Dusty O´Connor.


























Voltas nem sempre são positivas. As vezes cria-se uma expectativa enorme em torno de uma volta, e o que se ganha em troca é decepção. O Guns N`Roses talvez seja o exemplo mais bem acabado de fracasso e decepção. Fracasso de vendas e decepção de público, o disco Chinese Democracy foi tão aguardado, junto com a volta da banda – claro que não em sua formação original – e o resultado foi catastrófico. Entretanto, Pink Floyd é um exemplo de sucesso em uma volta, voltou em 87 com o disco A Momentary Lapse Of Reason e lançou em 94 The Division Bell, que junto com o ao vivo Pulse chegaram ao topo das paradas. O Alice In Chains também fracassou em sua volta, e AC/DC, Black Sabbath, Queen e The Doors, voltaram discretamente, sem o mesmo brilho que os consagraram[e até não daria mesmo]. A volta do Faith No More – volta talvez não, é mais uma reunião – traz-nos uma série de questões, e uma delas é, será que essa volta é relevante? Há duas formas de se analisar essa questão, uma do ponto de vista do público e outra do ponto de vista da banda. Do ponto de vista do público, essa reunão ou volta será relevante por dois motivos. O primeiro que já se sustenta em si mesmo, é porque muitos não viram a banda ao vivo. E todos nós sabemos que nunca assistir um show pelo dvd em casa será a mesma coisa de assistir ao vivo, de sentir a energia bruta e o calor de um show in locus. O segundo motivo é caso a banda lance material inédito [o que acho pouco provável] é só lembrar do The Police. Um disco de inéditas do Faith No More no futuro, seria um feito extraordinário, pois depois de 12 anos do último de inéditas [Album Of The Year], seria interessante ouvir músicas novas, levando em consideração a grande capacidade que os integrantes da banda possuem como músicos, e também por toda a experiência acumulada nesses anos em que cada um tocou seus projetos. Analise pela diversidade do que cada um estava [e está ainda] fazendo, mesmo sem contar as mil e uma faces de Mike Patton, é só pensar em coisas como Korn e Ozzy Osbourne [Mike Bordin], Brujeria [Billy Gould] e Imperial Teen [Roddy Bottum], para citar apenas alguns exemplos. Seria muito bom ver e [ouvir] o resultado dessa diversidade. Pelo ponto de vista do Faith No More é inevitável pensar no aspecto financeiro. Muitas datas de shows, propostas de contratos, turnês, festivais, merchandising, procura pela discografia da banda, dvd´s, etc. Além do quê, uma volta dessas envolve muito dinheiro, e embora os integrantes da bandas tenham suas carreiras consolidadas e nãos lhes faltem trabalho, o prestígio do Faith No More é tamanho, que mobiliza vultuosas quantias em dinheiro, e faz até bolsas de valores despencarem. Essa volta é relevante também para reafirmar a influência da banda e mostrar que não entrou para a história à toa. No site de vídeos youtube já estão disponíveis pedaços de alguns shows recentes feitos pela banda, nota-se alguns cabelos brancos aqui, outros acolá, mas a técnica continua a mesma. Nesse shows a banda tem mostrado seu repertório mais clássico, porém tem tocado músicas menos executadas, como Caffeine e Cuckoo for Caca. Isso indica que não vão apenas se limitar a apresentar velhos hits e apenas satisfazer a vontade dos fãs, mas vão executar músicas esquecidas no tempo, e mostrar a um público que descobriu a banda a pouco tempo, o verdadeiro significado de rock honesto e compromissado, não com a industria fonográfica, como si mesmo e com o público. Essa volta é relevante por se tratar de uma grande banda, de uma banda autêntica – o que carecemos muito nos tempos atuais. O Faith No More, principalmente a partir de Angel Dust nos mostrou que é possível fazer hits, tocar na rádio e abrir horizontes de rockeiros ortodoxos xiitas. Não se vê um compromisso com estilos musicais ou com grupos urbanos, se vê sim, um compromisso e uma identidade com a boa música, bem cantada e bem executada. O que já estamos vendo pelo youtube é apenas uma mostra do que veremos no Brasil, caso realmente o show de São Paulo de fato aconteça. O que posso dizer é que será um show muito melhor do que o último no extinto Philips Monster of Rock em 95, pois shows em festivais geralmente não são bons, e esse agora será uma apresentação isolada, com um público específico, pois na ocasião dessa última vinda, o público presente era todo de metaleiros, que não entenderam o Faith No More, com seu som único e diverso. Portanto, ainda é tempo de todos tirarem suas bitolas e olharem em outras direções, pois num mundo que prega a diversidade temos coisas muito iguais e repetitivas, o mundo precisa novamente do Faith No More para alargar esses horizontes tão estreitos e mostrar que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a mtv e as rádios de rock por aí.





























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Crítica.

Faith No More - Album Of The Year.


por Marlon Marques.





















Album Of The Year é o ultimo disco de estúdio do Faith No More. É um disco um pouco [ou muito] mal visto pelo público e pela crítica. Esse disco porém é bem profissional, pois é de conhecimento de todos, que nessa época os ânimos entre os integrantes – especialmente Mike Patton e Mike Bordin – estavam muito exaltados e o fim estava próximo. Patton chegou a declarar que Album Of The Year é o seu disco mais medíocre, menos inspirado. Agora pensa. Se esse é o disco menos inspirado da banda, o que é inspiração então? E mais, como qualificar o que fazem hoje em dia as bandas de rock? A mídia como sempre esperava mais um “The Real Thing” com pelo menos duas ou três Epics, já que os dois últimos álbuns, “Angel Dust” e “King For A Day” foram extremamente anticomerciais. Como sempre aqueles que esperam o mais do mesmo, se enganaram, e o Faith No More voltou no seu álbum mais sombrio, superando até as sombras de Angel Dust. Porém há um detalhe até conhecido, quem sabe não esquece, é como andar de bicicleta, você saberá mesmo depois de muitos anos sem subir em uma. E o Faith No More prova isso nesse último e ótimo disco. Mesmo sem a mesma harmonia de antes, a banda continua afinada no estúdio, e por incrível que pareça, na maioria das músicas todos os integrantes colaboraram. O disco é bem denso e pesado, e com os teclados de Bottum ressaltados, o disco torna-se climático também. “Collision” abre o disco em grande estilo, coesa, firme, apresenta uma banda concentrada, e logo de cara nos dá um direto de esquerda do queixo para o maxilar [como a capa do disco vulgar display of power do pantera]. Outro ponto é a produção, bem dividida, separando os intrumentos, dá pra ouvir todos perfeitamente, além de alguns efeitos de voz. Seguem esse linha de Collision, “Naked In Front Of The Computer”, pesada e bastante marcada pela bateria do ótimo Mike Bordin, e “Got The Feeling”, pesada também, rápida e muito bem cantada por Patton, com gritos estéricos e efeitos. “Stripsearch” é a mais eletrônica do disco, lenta, calma, trazendo Mike Patton dando uma verdadeira aula de canto, além dos solos lindo de Jon Hudson. “Helpless” é a balada do disco, com direito a overdub de violões, tecladinhos flutuantes e paisagens bucólicas, é quase uma CowBoy Song, dá até pra tocar no rádio, bela. “Last Cup Of Sorrow” tocou algumas vezes no rádio, assim como “Ashes To Ashes”, isso na época em que a Mix FM e a 89 ainda eram rádios de rock. Last Cup Of Sorrow é um alerta sobre o tempo que passa e sobre como a vida pode ser injusta com você, portanto não abaixe a cabeça, engula esse trago, pois essa é sua última taça de mágoa. O som é tenebrosamente gélido e bonito, como o som de Ashes To Ashes, sendo essa última mais lúgubre. “Mouth To Mouth” é o lado multicultural e nostálgico do Faith No More. Nostálgico pois o som se parece muito com as músicas dos primeiros discos do Faith No More – ainda com Chuck Mosely nos vocais - e multicultural, por adicionar incluências orientais em sua sonoridade [há algo de judaico e de árabe nessa música – o mesmo que Patton faria dois anos depois em “Ars Moriendi” do Mr. Bungle]. Esse experimentalismo também se vê no formato de “Home Sick Home”. Uma canção diferente, o vocal de Patton está puxado, esticado como um elástico, mais grave – mais perto de seu lado crooner – é uma canção barulhenta, bem rock, porém um tanto sludge, arrastada. “She Loves Me Not” é a romântica do álbum. Patto se parece aqui com os antigos cantores de soul music americanos, alternâncias vocais, coraizinhos, instrumental climático-emocional e ritmos suingados. Patton antecipa um pouco do que iria fazer no disco seguinte do Mr. Bungle, veja as semelhanças entre Shes Love Me Not e Vanity Fair, e entre Mouth To Mouth e Ars Moriendi [essas duas músicas do álbum California do Mr.Bungle]. “Paths Of Glory” é angustiante e sombria. É baseada no filme de mesmo nome de Stanley Kubrick, o filme conta um história verdadeira ocorrida na I Guerra Mundial, sobre abuso de poder, valentia e sangue, glória e sangue. “Pristina” também é uma canção arrastada e angustiante, é uma fusão de Paths Of Glory com Home Sick Home, melancólica e apoteótica, uma grande música. Em suma Album Of The Year é um disco inspirado – ao contrário do que disse Mike Patton – um disco eclético, cheio de canções diferentes, e acima de tudo experimental. Experimental no sentido de buscar direções diferentes, de sair do marasmo e mesmice que muitas bandas se encontram [e se encontravam a época]. Bandas como Silverchair, Bush, Foo Fighters, embora algums tenham caído no grande esquema, seguiram esse caminho, não tão fora dos padrões assim, mas lançaram discos diferentes de seus trabalhos inicias, um grande disco por exemplo é o Neon Balroom do Silverchair. Se o Faith No More continuasse com a mesma fórmula de The Real Thing, teria se tornado presa fácil do grande mercado, teria morrido na competição da indústria e não teria forças para exercer tamanha influência como exerceu e continua exercendo, e exercerá até quando houver pessoas e bandas afim de alçar vôos por paisagens diferentes e autênticas.



























Faith No More - Album Of The Year [Reprise/WEA, 1997].

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sábado, 13 de junho de 2009


Ensaio.

It´s Too Late: A Oportunidade perdida de Johnny Rivers. ¹

por Marlon Marques.















"No transcorrer do tempo, uma oportunidade perdida, estará perdida para sempre".
Heráclito.


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Geralmente as músicas que falam sobre rompimentos ou separações, são tristes e mórbidas, recriando aquele clima de desilusão da perda de um grande amor. Alguns como Nick Cave até compuseram álbuns inteiros sobre o tema [The Boatman's Call – 1997], mas nem sempre deve-se ser assim, e “It´s too late” prova isso. Essa é uma canção linda e alegre, parece meio disco, meio festiva e em nada lembra o sentimento de perda. Começa-se com um órgãozinho em profusão a lá jovem guarda, enquanto esse siguezagueia um violão e um bateria abafada dão a levada da música, que é de certa forma simples, porém cativante. A letra mostra um rapaz que acaba de perder a pessoa amada, mas que de início ainda está disposto a pelo menos tentar reatar, na verdade ele está contando isso a alguém, e deve ser num bar ou numa festa pelo clima de descontração. Acho que as grandes ironias da vida com o passar do tempo devem com certeza causar mais escárnio do que indignação, não deve ser fácil ouvir de quem se ama com ar de riso nos lábios que encontrou um outro amor e que a partir de agora vai esquece-lo. O narrador não fala o que exatamente aconteceu, já parte do fato, mas da pra supor que não tenha sido nada grave pelo menos para a garota, porque depois de algum tempo ela confessa sua decepção e arrependimento e decide voltar: “ And now you tell me, Thar your new love isn´t true, Like he should be, You say you´re gonna forget him, And you´re gonna come back to me.”


It´s too late

It´s too late (chorus)


Surge daí uma pergunta, o amor tem direito de acabar, ou amor que é amor nuca acaba? O narrador prossegue dizendo que as coisas mudaram, oras, você não quis ir embora quando eu quis reconciliar, agora eu também arrumei um novo alguém e agora é muito tarde. Ele aproveita a ocasião pra dizer talvez o que estava preso em seu coração há muito tempo, das suas tentativas em chama-la, das suas noites de solidão e de como todos foram testemunhas de seu amor, e implicitamente ela também o sabia. Ela esperava encontra-lo de braços abertos esperando a sua volta, na vã esperança de que o sentimento não tivesse morrido, porém ele alega não ser o mesmo tolo que foi usado e humilhado, e que ela não tem o direito de voltar. Alguns seres humanos acreditam ter a posse do outro e se esquecem que um relacionamento é bi-lateral, é uma relação entre duas pessoas com direitos e deveres, e escolhas também, certas ou erradas, e que não se pode brincar de tiro ao alvo com o coração alheio. Acredito que o amor pode acabar porque ele tem sempre um começo, e ainda mais quando há um trauma envolvido, o ser ferido e zombado pela outra parte tende a projetar sua pulsão de morte contra esse outro, invertendo o sentimento, do amor ao ódio, como nos extremos de um fita de cetim que se desfaz no ar como um laço quando desatado.


That it´s too late

To say you´re sorry

It´s too late

To say you´re mine

I have found myself a new love

And I´m gonna make her mine

It´s too late

It´s too late





























Johnny Rivers - 20 Greatest Hits [EMI, 2001].

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1. Publicado originalmente em 25.12.2007 In: www.bombrilnaantena.blogspot.com.



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sábado, 6 de junho de 2009

Dossiê Caetano Veloso.



























Crítica.

Caetano Veloso - Estrangeiro.


por Marlon Marques.

Quando “Estrangeiro” foi lançado [1989] eu tinha apenas cinco anos de idade, e foi somente 11 anos depois, que tomei contato com essa grande obra da música brasileira. Tomei emprestado de um amigo [Gaga] uma coletânea de Caetano Veloso da série Millennium, um disco bastante variado, com canções de várias fases do compositor. E por incrível que pareça, entre as algumas músicas do qual não gostei, estavão justamente “O Estrangeiro” e “Raí de Cores”, ambas desse disco. Não gostei por não ter ouvido direito, e também por não ter compreendido direito, não tinha à epóca repertório para entender tamanha complexidade. É isso o que posso dizer desse álbum, complexo, e também de vanguarda. Caetano reuniu um time de primeira para fazer esse disco, só grandes músicos, nacionais e internacionais, gente como Naná Vasconcelos, Carlinhos Brown e Tavinho Fialho; Arto Lindsay, Bill Frisell e Marc Ribot. Embora no disco haja “Meia-lua Inteira”, Estrangeiro é muito distante da MPB tradicional, aquela esquema fácil que costumamos ouvir na Nova Brasil FM, é um disco a frente. Caetano fecha a década de 80 com um disco primoroso, um disco muito bem tocado, bem arranjado e bem produzido, com letras ora hermérticas demais, ora poéticas demais, mas sempre caetânicas. Hoje a impressão que tenho é que Estrangeiro deveria ser mais lembrado [e tocado], deveria não, deve, pois há ali versos poderosos, que significam muito, além da riqueza musical, e da alta técnica envolvida em cada acorde, em cada minuto de música desse belo tratado de beleza. “O Estrangeiro” é uma grande canção, o próprio Caetano declarou em 91, de fato. Trata a beleza como algo subjetivo e conjuntural, pois de nada adianta a praia de Botafogo ser bela mas ao mesmo tempo poluída [uma visão baseada em Simmel], o amor é cego, é dual, a Baía de Guanabara é bela e banguela ao mesmo tempo. “Raí de Cores” é uma continuidade de “Trem das Cores”, claro que em um outro sentido, mais abstrato, é quase um fusão entre Seurat e Pollock. “Branquinha” é uma canção de amor feita para Paula Lavigne, sua mulher na época, hoje sua empresária e ex-mulher. É uma linda música, aquela batida típica no violão e a voz suave e puchadissima de Caetano em frases como “carnação da canção que compus“, ou “vou contra a via, canto contra a melodia, nado contra a maré. Que é que tu vê, que é que tu quer, tu que é tão rainha”. Essas duas últimas inspiradas em pessoas, em Paula Lavigne e em Tônia Carreiro, Caetano disse ter visto uma entrevista com a atriz [Tônia] e perguntaram a ela qual a sua cor preferida, então teve a idéia para Raí de Cores, "qual são as cores, que são suas cores de predileção". Há também uma homenagem e uma canção que não é de sua autoria. A homenagem é para o seu grande ídolo, João Gilberto em "Outro Retrato". O som é bem tropical [não tropicalista], diria ser um certo “suingue de vanguarda”, exagero, talvez, mas o fato é que a canção é simples, a letra diz apenas que João o influenciou tanto poética quanto musicalmente falando, mesmo esse [João Gilberto] não gostando nem de música, nem de poesia. “Meia-lua Inteira” é de Carlinhos Brown, que deve muito a Caetano Veloso, mas tem seus méritos também diga-se de passagem, é a mais MPBzona do disco. É pop, é de rádio e foi trilha de novela da globo [Tieta], quer mais. É boa e dançante, tem um dado de Bahia muito forte, talvez antecipando o disco “Livro” em certo sentido. “Jasper” é cantada em inglês, tem um toque futurista, é climática, lembra muito o trabalho de Andy Summers e coisas do próprio Bill Frisell, batidas eletrônicas secas [no molde do Kraftwerk e do New Order], percursão brasileira e um pouco de jazz rock. “ETC.” é também um canção bem MPB, no mesmo esquema, violão, voz, arranjo minimal, já “Este Amor” segue a linha de Jasper. Uma canção com ritmo moderno, lento, arranjo diferente do que se estava acostumado no Brasil na década de 80 – por isso chamei de som de vanguarda – uma mistura de ritmos, não uma fusão, pois tanto os elementos de fora quanto os de dentro não criam algo novo, não somem, apenas convivem juntos. “Genipapo Absoluto” também é uma canção bela, violão simples acompanhado por uma colcha de efeitos e pequenos ruídos, onde repousa uma letra poética e hermética ao mesmo tempo, a mesma dualidade de O Estrangeiro, uma anti-dialética, que é o permeia o disco como um todo. A grande música do disco junto com O Estrangeiro é “Os Outros Românticos”. Um som cheio de nunças, um ritmo com pé na África [umas batidas meio tribais], ecos de guitarra de Arto Lindsay e os climas do teclado de Peter Sherer. A letra corrobora com o apocalipse da música, ambas dualmente se completam. É um retrato cantado do fim de uma década, não apenas, do fim de uma era, que cai simbólicamente com o muro de Berlim, lançando para o futuro novas utopias e nos reservando novas incertezas também.












































Caetano Veloso - Estrangeiro [Polygram, 1989]

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Artigo.

Os Outros Românticos.


por Ladislau Smack & Marlon Marques.











































Quem eram os “outros românticos”? Aventureiros que atravessaram todo o século XX – e que subexistem ainda. Sabemos que os seres humanos, imperfeitos que são, querem ser nivelados por cima, e a igualdade é um discurso bonito, mas vão. A revolução francesa mostrou que o romantismo dos ideais de igualdade foram por terra – os Estados Unidos confirmaram que na terra da liberdade a igualdade é apenas uma palavra, que morreu com Luther King em 68, e que talvez respire com Obama. O socialismo foi uma alternativa tão letal e insustentável quanto o capitalismo o é, a diferença é que o socialismo nivelou as pessoas por baixo. Se mostrou retrógrado e se mostra ainda em Cuba – o que demonstra a ambivalência presente nos seres humanos – líderes vivendo na caverna de Platão, no escuro. Nas trevas de uma Idade Média contemporânea, obscurantista, sai a igreja entra o partido, sai o dógma da infalibilidade papal, entra o da infalibilidade do dirigente do partido. A forma como a União Soviética foi conduzida, não conseguiu manter a competição em igualdade de condições com o Estados Unidos. A corrida armamentista e tecnológica se manteve equilibrada a maior parte do tempo, porém divergências ideológicas e políticas – principalmente com a divulgação dos escândalos de Stálin – fizeram com que a União Soviética ruísse, politica e economicamente. Não foram capazes de acompanhar as transformações mundiais, a quase invisível [à época] globalização que integrava cada vez mais as nações, mesmo as nações inimigas. O capitalismo não é ético, trai seus próprios princípios doutrinários e ideológicos, pois a pregação dos papas Milton Friedman e Friedrich Hayek de auto-regulação é suplantada em momentos de necessidade – veja hoje o quanto o governo Obama interfere [quase comanda] nos assuntos econômicos do país. O socialismo é ético por não trair seus ideais, e o preço que pagou para se manter ético, foi justamente a existência do próprio sistema. O socialismo não foi capaz de acompanhar essa Babel de economias, essa enxurrada de idéias e teorias econômicas, conceitos por vezes abstratos demais para um público médio que assiste atônito no noticiário todo esse repertório de informações. O socialismo pregou um sistema sem Deus. Porém se tornou um sistem com e sem um Deus, pois o Deus judaico-cristão foi substítuido por um panteão de deuses, o Zeus Karl Marx, Lênin, Trotsky, Stálin, Fidél e o martír que andava no meio dos humildes, morreu pela justiça e era barbudo, Che Guevara. O socialismo tornou-se uma religião, os sectários e simpatizantes [companheiros] os fiéis, as internacionais os cultos, o mesmo caminho cego da religião espiritual foi seguido pela religião material. Caetano Veloso traz a discussão para o Brasil e suas contradições, que acompanhando as transformações mundiais, saia de uma Idade Média [ditadura militar] mas mantinha-se em outra, os trinta milhões de meninos abandonados, crescendo e tornando-se homens – que reproduzirão e aumentarão o número de abandonados no país. Caetano aponta para um futuro do futuro, que desde pelo menos Maurício de Nassau aponta o Brasil como o país do futuro. Assim como a música [instrumental], a letra aponta para um futuro obscuro, apocaliptíco, visto nos vitrais compostos por toda essa gama de situações internadas conjuminadas com a globalização – todos sofreram com as consequências do queda do muro de Berlim. Caetano é cético e prático, aponta para apocalipses totais [falta de esperança] e para utopias radicais [esperança], enquadrada talvez numa chave de análise que vislumbra uma ressurreição do sonho socialista num futuro no futuro. O presente em 1989 era incerto, principalmente para a Alemanha. O Brasil também vivia a expectativa da retomada da democracia e das possibilidades de um projeto de Brasil mais igualitário, porém alinhado com a nova [des]ordem mundial. O futuro mostrou o efeito dominó da queda do muro, dois anos mais tarde desentegra-se a União Soviética, dos seus destroços as ex-repúblicas caminharam lentamente para o capitalismo, assim como a Alemanha unificada e a própria Rússia. Essa transformação não era prevista pela vanguarda alemã à partir da década de 60 e 70, as bandas de rock alemão, com base no Krautrock, vislumbravam uma mudança justamente contra os valores dominantes anglo-americanos. Hoje podemos situar como “novos românticos”, ou novos utópicos, filmes como Edukators, Adeus Lênin! e As Invasões Bárbaras, pois posicioanam-se como críticos a situação [do processo da mudança citado acima], vislumbram saídas radicais, utopias radicais. Nutrem a rebeldia e a revolução, com vigor, o mesmo vigor repressivo da violência dominante no Brasil, violência social, política, econômica e policial. A brado desse cinema radical é tão truculento quanto o grito das bandas alemãs e tão estridente quanto o grito de morte de Pixote. Os anjos sobre Berlim [do filme Asas do Desejo de Wim Wenders] representam a escolha entre um mundo e outro em uma cidade dividida, o dilema da resistência ou da entrega, da luta ou da renúncia, do manter a utopia ou do ser morto por ela. O mundo desde o fim [Antônio Cícero] é apenas uma licença poética, o mundo da perspectiva de seu fim, representando a idéia de transição, de um mundo para outro mundo, que Caetano confirma, “e no entanto era um sim”, era um fim do mundo sim. E não nos enganemos, um mundo acabou, deixou de existir, mas não foi dominado por um mundo melhor, nada mudou estruturalmente, pois o capitalismo não consegue atender as necessidades do mundo e se adequar dentro dos padrões do aceitável [pois se adapta, não de maneira sustentável]. E esse fim parece o destino último desse futuro tão mencionado. E se no entanto era um fim sim, “e foi, e era e é e será sim”, ou seja, foi um fim [fato consumado], era um fim [o processo] e será um fim, prenúncio de um vitral apocaliptíco projetado num futuro.

























































































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Ensaio.

Uma ironia sexista.


por Dirce Dalila & Cremilda Batista.



























Será que o Caetano virou um sexista. Logo ele, um homem tão orgulhoso de sua condição crítica e pós-moderna. Provavelmente a canção “Homem”, nona faixa do álbum Cê, deva ser uma brincadeira de mau gosto, uma ironia, acredito não se referir a visão de Caetano sobre as mulheres. Para alguém que um dia cantou “que a tigresa possa mais do que o leão”, soa até surpreendente acreditar ao contrário. Só que por outro lado, a expressão “eu sou homem”, é dúbia. Pode-se referir a uma mera questão de genêro, distintiva entre homem e mulher, ou uma certa auto-afirmação de Caetano quanto a sua sexualidade. Apesar que pode ser de fato uma ironia, uma provocação, assim como “ele me deu um beijo na boca”, ou “mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom”. Entretanto, mesmo que irônica, a letra é ofensiva, é simples, mas vai direto ao ponto, e cai em estereótipos. Fica mesmo a dúvida se Caetano se auto representa na canção, ou se representa a classe do macho, como ele cita em “O Estrangeiro”, o macho adulto branco sempre no comando. Pelo que conheço de Caetano trata-se mesmo de uma ironia, de um choque apenas, li muitas entrevistas suas e não há nenhum indício de sexismo [ou misoginia] em seu pensamento. Até porque iria contradizer parte de sua retórica, desde sua grande expansão pós-tropicalista. Caetano também é muito fã de Gal, Bethânia e de Dona Canô, sua mãe, ele em geral fala muito bem das mulheres, esse é mais um indício da ironia. O homem geralmente não inveja a mulher, essa relação de inveja se dá normalmente entre as próprias mulheres – será a face ambigua de Caetano se revelando, tal qual camaleão como Bowie? As mulheres não querem ser invejadas, e nem precisam disso, o que não se inveja nas mulheres são características que elas próprias despresam em si. Principalmente a mestruação, é horrível. A lactação não é ruim, mas é injusta, pois o homem também deveria amamentar o bebê – pois a cria é tanto da mãe, quanto do pai. Mas a inveja da longevidade dps orgasmos múltiplos é até óbvia, pois é só no prazer que as coisas se dão para o macho, uma visão epicurista da vida. A maternidade também é ambigua, tem um lado bom e outro ruim. É por um lado maldição e por outro redenção, pois é a suprema afirmação da feminilidade [no âmbito do genêro] – as feministas de plantão podem se irritar – e maldição no sentido teológico, pois na queda, Eva foi condenada a sentir as dores do parto. A intuição é outra ofensa grave as mulheres. Homens quando fazem algo bom, ou alguma descoberta, é sempre atribuido ao raciocínio e ao intelecto, agora as mulheres quando fazem algo notável, é sempre atribuido a intuição feminina. Será que Jane Austen ou Virginia Woolf quando escreveram seus grandes romances, o fizeram intuitivamente? Será que Marie Curie ganhou dois prêmios Nobel por intuição? Difícil. Pelo visto não há homens gordos, só mulheres. É bom reparmos que cresce cada vez mais o número de homens em academias, ou fazendo dietas, cuidando do corpo em geral, os metrosexuais. Ou seja, não são apenas as mulheres que são adiposas, homens também o são, e Susan Boyle está aí para comprovar o valor das cheinhas – para usar mais um termo horrível, tanto quanto, bonitinha. Uma das grandes verdades já faladas até hoje é a de que “o cinema cria mitos”. Os filmes “noir” criaram o mito da mulher fatal – de Mata Hari à Marilyn Monroe – e essa caracterização se estendeu a todas as mulheres e chega até o século XXI. Sagacidade e dissimulação não podem ser atributos universais das mulheres, de algumas mulheres sim, de todas não. Sabemos que muitas mulheres em empresas ou em governos se promovem a custa do teste do sofá, mas há muitas mulheres que chegaram [e chegam] lá [não no que você está pensando] não por esses meios. E definitivamente não acho que as mulheres são mais fiéis do que os homens. Acho que algumas mulheres chegaram num tal ponto de igualdade com os homens, que não se importam mais com o status social, ou com a má fama no bairro. Traem mesmo seus parceiros, sem dó ou culpa nenhuma. Hoje existem poucas donzelas como a de “Com açucar, com afeto” de Chico Buarque, há mais donas Norminhas da novela Caminho das Índias, boas moças em casa e liberais fora dela. O conceito de igualdade pressupõe igualdade em tudo, até em questões éticas como essa. Não apenas salários iguais que as mulheres querem, querem igualdade de direitos e nos lares, até uma visão igualitária do ponto de vista religioso – um instrumento poderoso nas mãos dos homens. Agora pergunte as mulheres hormonalmente desequilibradas se elas sentem inveja dos pêlos grossos no nariz, ou em qualquer outra parte do corpo? E também pergunte as feministas se elas sentem inveja do pênis, eu acho que não – Freud que me desculpe.





















































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