A sensibilidade e inocência do mal: Hitler, Korn e Black Box Recorder.
por Marlon Marques.

O argumento desse artigo, é que o mal pode ser sútil e sensivel. A idéia é que uma coisa ruim pode se travestir de inofensiva, como nas armadilhas dos desenhos animados, é só lembrar de Coiote e Papa-léguas, quantas vezes o Coiote montou armadilhas para o Papa-léguas lhe oferecendo alpiste [sua comida preferida]. Era uma coisa boa com uma má intenção por trás. Num mundo de aparências como o nosso, não é bom acreditarmos em tudo o que é belo e bom, quantos casos já não ouvimos de pessoas que param na estrada fingindo estar com problemas mecânicos no carro, alguém para para ajudar e é surpreedido por um assalto. Ou ainda, pessoas que se oferecem para ajudar idosos para no final assaltá-los, ou até matá-los. A beleza pode esconder muitas coisas, e a bondade muito excessiva também, afinal porque será que existem ditados como “por fora bela viola, por dentro pão bolorento” e “quando a esmola é demais o santo desconfia”. A banda norte-americana Korn e a inglesa Black Box Recorder se utilizaram desses recursos em seus discos de estréia. Da capa a algumas canções, é tudo inofensivo, há diálogos com o mundo infantil, com a inocência, para que as más intenções não sejam percebidas, pois quem irá desconfiar de algo belo e sútil como uma criança. O mesmo artifício usou a bruxa má no conto “A bela adormecida”, travestida de mendiga[1] [aparentemente inofensiva], deu a bela jovem uma maça envenenada, quem no lugar da moça iria desconfiar de uma velhinha inocente? O mal assume diversas formas, é o caso do Diabo: “a idéia de que o maligno podia assumir qualquer forma que desejasse também foi fortalecida pela comparação de Satanás com a serpente que tentou Adão e Eva”[2], porém uma das fornas mais utilizadas por Satanás é a sua original. Lúcifer foi um dos anjos mais próximos de Deus antes da queda, e o significado de Lúcifer é anjo de luz, e como diz Paulo em sua segunda epístola aos Corítios, “Satanás podia se transformar-se num anjo de luz para poder nos lubibriar”[3]. A capa do primeiro disco do Korn [homônimo], traz uma menina brincando numa balança num parque, assustada ao ver uma pessoa que segura algo na mão direita. A pessoa não aparece na fotografia, vemos apenas sua sombra projetada no chão, iluminada pelo sol, mas olhando melhor, a pessoa segura algo nas duas mãos, não apenas na direita, porém nessa mão o objeto – um estribo de montaria[4] – forma um símbolo ambigüo, que tanto significa o culto ao heavy metal, quanto ao demônio [em outras interpretações]. O ercarte do disco do Korn apresenta brinquedoa infantis – bonecas – em meio a revistas adultas, numa relação da perversidade da pedofilia, que muitas vezes ocorre de um pai ou uma mãe – figuras de quem a criança não desconfia que irá lhe fazer algo de ruim. Duas músicas em especial demonstram essa perversidade camuflada, a última faixa “Daddy”, possui alguns elementos dessa relação. O começo algo meio sacro, uma levada hipnótica, sugerindo um quarto escuro, vozes, um clima pesado, meio Roman Polanski. A música é bastante tensa, só que não é tão pesada quanto as demais, é mais climática e os vocais de Jonathan Davis são emocionais e ora sussurrados, trazendo a tona uma inocência, ou uma violação dessa inocência. A proposta é de cantar algo macabro e perveso de uma forma sútil, assim como fazem em “Shoots And Ladders”. A música é cheia de referências malignas, de fundo um canto suave, um ritmo cadenciado, levemente pesado [sic]. A letra na primeira estrofe fala de morte [Roda em volta das rosas, bolso cheio de flores, cinzas, cinzas, todo mundo cai], a composição segue a mesma estrutura dos contos infantis, numas das partes a música diz: “três, quatro, feche a porta”, e em outra, diz: “dê um osso ao cachorro, esse velho veio rolando até em casa”, seria a mesma pessoa da capa do disco, perseguindo as crianças desde o parque? Entretanto há duas partes muito sinistras nessa música – e o detalhe, quem ouve a música sem saber o que diz a letra, é levado a pensar que trata-se algo bom – logo depois da contagem, a canção prossegue com o verso: “A ponte de Londres está caindo, está caindo, está caindo, a ponte de Londres está caindo, minha bela senhorita”, não há como negar que a estrutura não é de músicas infantis. Em seguida, uma assustadora sentença: “Cantigas de crianças são ditas, versos em minha cabeça. Durante a minha infância eles foram ensinados. A violência escondida é revelada, uma obscuridade que parece real. Veja nas páginas a causa de todo esse mal”, essa mesma passagem consta no interior do encarte do disco, ao lado, vê-se um boneca sendo atacada por um escaravelho, numa referência a maldade contra crianças. Shoots And Ladders é uma música que fala sobre morte e pedofilia, sobre a forma como o mal pode estar nas coisas mais inocentes, o encarte ainda explora a faceta mais macabra dos brinquedos infantis, o olhar de assassinas ou de cúmplices das bonecas, tesouras jogadas, como quem esperando uma oportunidade para atacar, aliás, os brinquedos são os melhores amigos das crianças. O Black Box Recorder também joga com essa questão de inocência e perversidade, os instrumentais de John Moore e Luke Haines são doces e sutis, enquanto a voz de Sarah Nixey é suave como de uma criança, embala-nos em sonhos amargos e cheios sombras. Assim como o Korn, o Black Box também trouxe referências logo na capa e no encarte do primeiro disco, “England Made Me”. A capa traz um bela e doce criança deitada numa cama, porém a menina olha para baixo, parece triste, sua tristeza reflete o tom amargo e depressivo da vida do final do século [o disoc é de 1999]. No quadro na parte inferior da capa, vê-se um acidente, um avião caindo no mar – seriam as letras as recordações da caixa preta [black box] desse avião? – e ao lado um homem, provalvelmente um comissário de um trêm [se é que existe], que acabou de bater e está
[1] WARNER, Marina. Da Fera à Loira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p.255.
[2] O´GRADY, Joan. Satã, O príncipe das trevas. São Paulo: Mercuryo, 1991. p.55.
[3] Ibid.
[4] BRAGATTO, Marcos. Korn – Música nervosa para pessoas nervosas. Rock Press. Rio de Janeiro, Nº 04, p.25, abril. 2000.
[5] PLASSE, Marcel. Black Box Recorder. Showbizz. São Paulo, Nº 05, Edição 190, p.12, maio. 2001.
[6] ALVAREZ, A. O Deus selvagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p.115.
[7] PLASSE, Marcel. Idem.
[8] Quadros pintados por Hitler são leiloados no Reino Unido. O Estado de São Paulo, São Paulo, 23 de abril. 2009. Caderno 2/Variedades.



Korn - Korn [Sony, 1994].
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Black Box Recorder - England Made Me [Jet Set Records, 1999].
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