quarta-feira, 27 de maio de 2009

Ensaio.

São Paulo – Caos, Carros, Casas, Cachorros e Crise de Identidade.

por Marlon Marques, Mr. K & Dirce Dalila.


























São Paulo é uma cidade imensa. Imensamente grande, imensamente rica, imansamente pobre, imensamente desigual. É uma cidade cheia de encantos, e muito cheia de cantos de amor, de hinos apaixonados, de saudosas malocas. É um mosaico de culturas, de cores, de credos, todos se cruzam pelas ruas do centro, todos os corações batem a mil no cruzamento da São João com a Ipiranga. Penso eu deixar-te, mas amo-te, reconheço seus erros, mas sei que me acolhe em seus muitos dias de garoa e sol. É uma relação muito cheia de disparidades, de altos e baixos, de morros e asfaltos. É uma cidade muito populosa, muito cheia de pessoas, de mendigos, de pregadores evangélicos extasiados, de executivos e desempregados. É a cidade da Daslu, das concessionárias luxuosas da avenida Europa, dos cortiços da Santa Cecília, do metrô, dos muitos churrascos gregos da estação da luz. É uma vida emocionante a que se vive em São Paulo, é um caos. De fato, é um caos não muito ordenado. São muitos fatores que contribuem para essa condição, de todos os serviços públicos sem qualidade, do lixo nas ruas, das crianças cheirando cola na esquina do Andraus, de todas as pontes cheias de infiltração nas marginais, dos semáforos quebrados e dos muitos acidentes fatais na radial. É um caos por querer melhorar e não conseguir, por ver e sentir atônito a luta dos sem teto na avenida Nove de Julho, pelos milhares de limpadores de vidro nos faróis, e pelos diversos trombadinhas batedores de carteira que assaltam as madames no Jardins e as tele-operadoras na praça da República à noite. A vida é incerta, mas é certa a felicidade, sabemos que vamos sair mas não sabemos que horas vamos chegar, poderemos estar no meio do trânsito em qualquer lugar, em algum lugar. Os carros são outro problema de São Paulo, e a medida que o poder aquisitivo das pessoas aumenta, mais carros teremos. Veja, quem não tem um carro hoje, usa o transporte público, e com o aumento progressivo da ineficiência desses serviços, o desejo por um automóvel cresce. Carro é status nas sociedades modernas, é parte de um sistema de auto-realização, é um sonho americano, latino-americano. Então a partir do momento que as condições melhoram, quem não tem um carro hoje, irá comprá-lo amanhã, e sendo assim, teremos muito mais carros nas ruas do que hoje. Carros são máquinas modernas de poluição e suicídio, pois não se dirige sozinho, a direção é um conjunto, deve-se dirigir para si e para os outros, é uma equação onde a imprudência de um, pode ser a morte de outro, outros. Há tantos carros, quanto casas na cidade. O problema é o crescimento desordenado, aliás, quem disse a palavra ordem em São Paulo. Casa na verdade é onde você repousa, e pode ser de sapê, alvenaria, papelão, em baixo de uma árvore, de uma ponte ou num ônibus abandonado no meio do nada. Casas crescem nas beiras das represas, comprometem os mananciais, e todos os dejetos orgânicos e todo o lixo produzido são despejados nos arredores, muitas vezes sendo esses resíduos tóxicos e muito perigosos. Casas crescem e se esmagam nos bairros periféricos, barracos dividem os olhares com casinhas sem reboco em bairros como Cidade Tiradentes, Guaianases, Jardim Ângela, Brasilândia e Cidade D´Abril. Em todos os lugares proliferam moradias, pois a população também cresce, e como a vida segue um certo curso previsível, as pessoas se casam. “Quem casa quer casa”, diz o ditado, e isso faz com que sobradinhos subam aos céus da cidade, isso traz aquilo que traz aquilo, casas, instalações ilegais de luz e tv à cabo, fios, varais, funk, lixo e crianças. Crianças, cachorros e toda a sorte de ratos e baratas moram na cidade. Podemos dizer que essa é uma cidade canina, não sei exatamente o número de cães que vagam pela cidade. Até entre cães há desigualdade, uns moram em mansões luxuosas, tomam banho todos os dias, frequentam veterinários, comem rações caras e tem até pedigree. Já outros é como o espelho dos cidadãos comuns, moram na rua – e quando o destino lhes sorri, são adotados por famílias tão pobres quanto eles, banho, ou de chuva ou de vez enquando à base do balde e da bucha, veterinário só em casos extremos e refeições, sobras de qualquer coisa. Tem cachorro que vive melhor que gente, é como no filme “Ilha das Flores”, as pessoas ficam com o que os porcos não querem, em São Paulo é um pouco assim, cães são mais gente que a gente. Esses e muitos outros problemas provacam nas pessoas uma certa crise de identidade. Com tantos problemas perde-se a convivência, ou quando ela se dá, é por meio de tribos urbanas, que se isolam ou se degladiam. A lógica do capital acirra a competição, por emprego, por namorados, por produtos numa ponta de estoque, por órgãos em hospitais. É uma lógica tão fria, que até óbitos são comerados por quem espera um órgão. Essa lógica desumana aliena as pessoas, e Malthus se faz presente, pois há mais pessoas disputando vagas do que vagas a serem ocupadas. Não é uma desculpa, mas muitos a usam, a violência é muito impulsionada pela falta de oportunidades de viver dignamente, embora muitos nem se quer tentam. Violência gera confinamento, pobres ficam em casa, não falam se quer com o vizinho, afinal quem são eles, pensam cada um dos vizinhos. Os ricos blindam carros e vidros das casas, usam roupas a prova de bala e saem sempre acompanhados por seguranças, grandes, fortes e fortemente armados. O caos é tamanho, que o filme "21 Gramas" se repete cotidianamente em São Paulo e em muitas cidades gigantes como essa. Há um cardíaco em algum lugar esperando um órgão para transplante e voltar a viver, há um homem sem saída, sem dinheiro e com família para sustentar, em sua casa há uma arma. Do outro lado da cidade um casal rico passeia em seu belo carro até um bom e caro restaurante para um jantar romântico. Esse casal está sendo conduzido pelo seu motorista e segurança particular, ele também tem uma arma. Na entrada do restaurante ao descer, o casal é surpreendido pelo homem em desespero, esse tenta assaltar o casal, afinal, uns tem muito e o outro não tem nada. O homem saca sua arma no mesmo instante que o segurança, esse dispara e erra, todos caem ao chão, o tiro não pega em nenhum deles, mas sim no jovem garçom que acabava de chegar para mais um dia de trabalho. Ele estava no lugar errado, na hora errada, na cidade errada, morreu. Seu coração hoje bate no peito do ex-cardíaco, que hoje trabalha como segurança do casal rico, que demitiu seu segurança depois do episódio do restaurante. O homem desesperado, conseguiu um emprego de garçom, no mesmo restaurante e na vaga do jovem que morreu. A vida em São Paulo é assim, cheia de encontros e desencontros, idas e vindas, felicidades e tragédias, em doses desiguais. Muitas pessoas não se sentem parte dessa dinâmica de vida, dessa vida fria e competitiva. Muitos dizem querem sair de São Paulo e tentar a vida em outro lugar, mas há algo que nos prende aqui, algo que nos faz querer essa cidade mesmo sem querer, de ama-la incondicionalmente, paradoxalmente, um amor delicado que a própria cidade por vezes despreza.













































































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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Minha Coleção.

Adriano Monçores - "Dick".

Tudo se resume a: “Se é bom eu tenho em casa !”



por Marlon Marques.



















Se você apenas olhar pra ele, jamais irá supor que ele seja um cara tão crítico quanto é. Ele é magro, alto e extremamente simples, um cara bastante original, que não se prende a rótulos, estilos ou roupas da moda. Posso dizer que Dick é um paladino da liberdade, ouve de tudo sem se importar muito com a opinião alheia, o importante é que seja bom para os seus ouvidos. Seu nome completo é Adriano Alves de Oliveira Monçores, tem 29 anos, é quase casado, [ou é casado?], mora com os sobrinhos e com o irmão Anderson. A vida de Dick é muito musical, pois além de ouvir muito, toca e compõe de vez enquando, atualmente toca seu baixo em duas bandas, Invisible Ink e Fantastic 5. Tudo começou no ínicio dos anos 90, onde no periférico e terceiromundista Brasil não havia ainda os aparelhos compact disk, a saber, CD. Dick tinha em sua casa um bom e velho aparelho de som, e como as fitas K7 estavam no auge, o garoto na faixa dos seus dez, onze anos, gravava músicas que tocavam nas rádios. Dick confessou seu gosto na época pelo Flash House e nomes como DJ Bobo e Ace Of Base, mas a virada se deu mesmo através de sua frequência em locais mal vistos pelos pais, casas de jogos eletrônicos. Essas casas são [eram] popularmente chamadas de “fliperamas”, e uma das casas mais famosas da época no bairro Cohab II em Itaquéra, era o Fú. Assim como Lennon e McCartney se conheceram em uma festa qualquer e depois formaram a maior banda de todos os tempos [Beatles], Dick conheceu seu maior parceiro até hoje, Denis, montariam juntos uma banda, e tocam juntos até hoje. No Fú, Dick conheceu o rock´n´roll, principalmente o Hard Rock de Aerosmith, e sons mais básicos como David Bowie e Rolling Stones. Dick à partir daí navegaria em mares mais diversos, tais quais os contatos com Cranberries e Pixies, “eles me mostraram um lado mais diferente da música”, disse. O tempo passou e chegou o grunge, Dick não chegou a usar as famigeradas camisas de flanela e calças rasgadas, muito menos demonstrou tendências suicidas, mas ouviu Nirvana e Alice Chains, esse último presente em sua coleção. “O Nirvana me despertou o interesse em aprender a tocar um instrumento”, e o instrumento escolhido foi o baixo. Dick disse que na época ninguém tinha interesse pelo instrumento, e foi por conta disso que resolveu tocá-lo. Adriano se mostra muito crítico e descontente com a indústria musical. Ele reclamou muito sobre o fato de que o dinheiro impera sobre a técnica, e diz que muitas boas bandas ficam pelo caminho por não ter oportunidade de se mostrar. Dick diz que não dá muita importância para bandas, dá importância para música, a música é o que importa para ele. Seu pensamento se estrutura na seguinte frase: “por pior que seja a banda, sempre tem uma música que você gosta dela”, ou seja, não importa a banda, se a música é boa já vale, e talvez seja por isso que ele não tenha muitas camisas de bandas. Dick se posiona a favor da pirataria, pois diz que é ela quem divulga as bandas. Lembra que conheceu Pitty e CPM 22 tocando nos barraquinhas do centro, na Barão de Itapetininga, “quantas pessoas não passam por lá por dia? Muito mais do que no metrô ou no trêm!”, ele quer dizer a pirataria assim como a internet liberta a música, porque o acesso é muito mais barato. E Adriano pode dizer com propriedade porque é música da cena urderground, e não basta ser parte tem que participar, ele participa ativamente. Além de tocar com suas bandas, vai a shows [as vezes] de outras bandas que estão batalhando, e compra os discos dessas bandas também, bandas como Dilei, Fantastic 5, Sombaguá, Cracker Blues, ditas alternativas ou do underground do país que deveriam estar na mídia mostrando seu conteúdo, e não estão, tem seus lugares ocupado por emos e congêneres mercadológicos. A coleção de Dick é muito variada, há de tudo, Hard Rock, Punk, Grunge, Alternativo, MPB e Trilhas Sonoras, cds são alguns originais, Aerosmith, Faith No More, Radiohead, Zwan, e muitas coisas gravadas. Toda coleção do Cranberries está presente, assim como Strokes, Sixpence None The Richer, Placebo e Smashing Pumpkins. Dick diz odiar Madonna e U2, mas elogia as canções “Jump” e “One” desses artistas respectivamente. Em formato MP3, há muitas outras coisas, Placebo, At The Drive In, Sonic Youth, Weezer, Hole, Foo Fighters, Bjork, Nickelback e até Capital Inicial, além de coisas menos famosas como os ótimos Buffalo Tom e Black Box Recorder. De artistas nacionais, Dick cita apenas Tim Maia e Adriana Calcanhoto, mas garante gostar de artistas nacionais. Aponta como destaques de sua coleção a trilha sonora do filme “Eu, eu mesmo e Irene” e suas trilhas de animes, desenhos japoneses. Dick diz sobre essas que lhe trazem uma sensação boa, e um ímpeto de buscar coisas novas, de saber quem compôs as músicas, novos artistas, [nesse momento põe pra tocar uma música do Yu Yu Hakusho]. Demonstra afeição pela trilha sonora do filme “Cidade dos Anjos”, e em especial pela canção “Íris”, diz também que o acústico de Alanis Morissete, é o melhor disco ao vivo que lhe vem a cabeça. Dick é esse cara assim, calmo, simples e parece que não liga muito pra vida, mas tem procurado nos últimos anos crescer espiritualmente, buscando Deus de seu própria forma. É um grande baixista, um cara que gosta muito de tocar, além de ser o grande inventor de nomes para bandas, o nome Azisma é de sua autoria, e esse assunto aliás, parece incomodá-lo um pouco, não se pronununcia muito a respeito, e eu por respeito também não insisto. E antes de tudo é bom explicar, Dick e Adriano são a mesma pessoa, não há um momento em que ele é o Dick e outro que é o Adriano, e nessa matéria em um momento ou em outro ambos foram aparecendo e falando um pouco sobre si, Dick se definiu e definiu o Adriano dessa forma: “Adriano é um cara que não tem explicação do porque gosta, ele gosta, o que é bom eu tenho em casa!”, essa máxima define esse cara, alto, magro e normal, um cara normal, que apenas tenta fazer o que gosta sem atrapalhar ninguém, e isso é tão verdade, que em momento nenhum dessa matéria ele citou alguém de forma negativa ou vingativa, e é apenas nisso que ele é anormal.



















Prateleira Especial.























1. Sunny Day Real Estate - Diary. [Sub Pop, 1994]

"É bom e acabou! Não considero Sunny Day emo!"






















2. Sixpence None The Richer - Sixpence None The Richer. [Word Entertainment, 1998]

"Música sentimental. Eu gosto mais de sentimento do que de técnica na música".

























3. Smashing Pumpkins - Mellon Collie And The Infinite Sadness. [Virgin Records US, 1995]

"É bastante melancólico".
























4. Adriana Calcanhoto - Perfil. [Som Livre, 2003]

"Adriana Calcanhoto é bem melhor do que Maria Rita, além de ser mais inteligente".
























5. Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not. [Domino, 2006]

"É bastante rock, muitas guitarras".

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Fotos e Texto: Marlon Marques.
Colaboração: Leandro Borges.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009


Ensaio.

A intocabilidade dos ídolos.


por Marlon Marques.








































1.


Geralmente os ídolos são colocados em locais especiais, no coração ou em altares. Há uma relação de intocabilidade que distancia os ídolos dos mortais comuns. Num dos quadros de Delacroix na série as “estações Hartmann” [Diana e Actéon], tem-se claramente essa idéia de distância entre mortais e imortais. Actéon observa [talvez acidentalmente] Diana banhar-se, a deusa furiosa fulmina o caçador tranformando-o em uma espécie de servo do mato. Há de fato uma distância, seja com seguranças em ternos negros rodeando as celebridades, seja no auto-posicionamento do público se colocando numa condição inferioridade ante seus ídolos. Tudo isso foi dito para dizer que Ronaldo não gosta de ser marcado. Embora o seu discurso [não tão politicamente correto] seja de humildade, acredito que ele não seja tão humilde assim. Digo isso por algumas declarações do fenômeno [sic]. Se reparar bem, Ronaldo sempre que termina o primeiro tempo, diz aos repórteres que vai falar depois, além de reclamar do fato dos repórteres avançarem nele como formigas avançam em tabletes de açucar. Esse é o preço da fama, é preço de quem é e dá notícia, de quem quer ser visto, e talvez o menino de Bento Ribeiro lá no ínicio da carreira, invejava os grandes craques procurados pela imprensa ou que eram capas de jornal esportivo. Normalmente os jogadores “comuns” quando um torcedor invade o campo [errado], tentão protege-lo da truculência dos seguranças, dia desses, um torcedor foi abraçar Ronaldo, esse ignorou o torcedor – que certamente foi lá para ve-lo – e quando esse torcedor foi agarra-lo, Ronaldo se afasta como que com nojo, como que ressaltando suas condições, a nobreza e a plebe. No jogo Corinthians e Ponte Preta, Ronaldo não gostou da marcação do zagueiro Gum, disse que o jogador parecia sua mulher o agarrando o tempo todo. O que o Ronaldo quer, jogar solto e sem marcação? Um jogador de sua categoria até poderia [deveria] ser mais marcado, pois os zagueiros parecem jogar com medo de tocá-lo, pois afinal de contas é o Ronaldo. Há um certo medo de que se encostar no Ronaldo o seu nome influenciará na decisão da arbitragem, como no penalti contra o Atlético Paranaense, ou como na falta que ele cometeu em André Dias do São Paulo, ou no lance da expulsão de Domingos zagueiro do Santos. Os marcadores quase o reverenciam em campo, é como se fosse um crime ocorrer o choque corporal envolvendo Ronaldo, basta lembrar que o meia-atacante ex-Flamengo Sávio, foi o jogador que mais apanhou no futebol brasileiro nos últimos pelo menos quinze anos. Lembro-me da decisão da Liga dos Campeões da Europa de 1994 entre Milan e Barcelona. O jogo foi 4 á 0 para o Milan, no Barcelona jogava com a camisa 10 Romário. Nesse jogo o baixinho nada fez, foi marcado em cima por Baresi e Maldini, pois não sendo assim, atacantes dessa qualidade decidem os jogos. Ronaldo tem mostrado que um mínimo de espaço que tiver é gol, seja contra times menores ou em grandes clássicos, seu faro de gol e sua colocação perfeita, compensão seus quilos à mais e sua falta de mobilidade. Ronaldo não está acima de ninguém no futebol brasileiro, acho que em campo ele deve ser tratado de forma igual, por árbitros e jogadores adversários. Ronaldo mostrou que é um de nós em seus lances de dor, mostrou ao mundo que até ídolos sentem dor, sentem vontades e cometem erros, muitos erros. No último jogo do Corinthians pelo campeonato brasileiro contra o Botafgo do Rio de Janeiro, Ronaldo puxou os cabelos do volante Fahel. O jogador disse que estava marcando Ronaldo com atenção, e por levar a melhor nos lances, deve ter irritado o atacante. Para tentar sair da marcação, Ronaldo puxou seus cabelos e meteu a mão em seu rosto, agora imaginem se o lance é ao contrário? Quando Edilson fez as famigeradas embaixadas no clássico contra o Palmeiras, todos disseram que era pra dar porrada mesmo no Edilson, que era anti-jogo. Se fosse o Ronaldo era lance de gênio, imagino o Luciano do Vale narrando e dizendo, que só um gênio como Ronaldo pensaria em fazer embaixadas naquele momento do jogo e desequilibrar o adversário. Temos que parar de hipocrisia e criticar o Ronaldo quando ele merecer, afinal ele erra também. O que Ronaldo quer é jogar numa redoma de vidro e não ter contato com imprensa, marcadores e torcedores, quer viver livre das pressões que cercam os jogadores no Brasil. Embora também sejam grandes, Milan, Real Madri, Inter de Milão, não tem um terço da cobrança que os grandes daqui tem. Ronaldo cansou de fazer partidas pífias na Itália e na Espanha, o máximo que ouviu foi uma vaia de alguns poucos segundos, aqui não, o futebol é mais paixão, perder gols em duas ou três partidas seguidas, você começa a ser questionado, Kléber Pereira e Keirrison sabem bem disso. Ronaldo quer estar acima de tudo e de todos, quer fazer, mas não quer que façam a ele, quer bater, mas apanhar ele não quer, quer que lhe abram os caminhos do gol como Moisés abriu o mar vermelho. O futebol para ter emoção tem que ser sério, resultados comprados e cartolagem tiram o que o espetáculo tem de melhor, a capacidade de nos surpreender. Quero ver o Ronaldo fazer belos gols com mais méritos seus do que com o medo dos zagueiros de marcá-lo, quero ver times serem campeões por capacidade e regularidade, não por malas pretas, quero ver os estádios cheios de torcedores, bandeiras e corações apaixonados, não de reverências baratas e corrupção.


1. O Verão - Diana e Actéon. Eugéne Delacroix, 1856-1863.

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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Crônica.

Chuva, desespero, proporção, precisão, êxodo e problemas.



por Guy Anderson & Marlon Marques.

1.















































Se chove você reclama. Se não chove você também reclama. Se fraz frio você reclama, mas se faz calor também você reclama. Como é bom pra você então? A resposta é proporção. Mas vamos chegar a ela um pouco depois nesse texto. O nordeste tem sofrido bastante nos últimos tempos com as fortes chuvas [especialmente o Ceará e Alagoas] – o mesmo tendo acontecido com Minas Gerais, São Paulo e Paraná em alguns momentos – porém essa afirmação suscita uma questão, mas porque reclamar de chuva no nordeste se o nordeste é quem mais precisa dela? Depende! O nordeste também sofreu com a divisão internacional do trabalho, só que aqui é a divisão nacional, onde o sul e o sudeste ficou com a indústria e o nordeste mais agrícola. Então, fortes chuvas prejudicam as plantações, ao passo que sem chuva não há como essa plantação progredir, por isso é necessário proporcionalidade. As chuvas causam alagamentos, e consequentemente proporcionam desabrigados, perda de móveis e desespero. A falta de chuvas também causa desespero, e traz como consequência o êxodo. Milhares e milhares de famílias dependetes da agricultura abandonam suas terras por falta de perspectivas, pois até quando esperar a chuva aparecer, pois só as lágrimas derramadas não são suficientes. O melhor retrato pintado [cantado] dessa situação é “Paraíba” de Luiz Gonzaga. “Quando a lama virou pedra e mandacaru secou – quando o ribaçã de sede bateu asas e voou – foi aí que eu vim me embora, carregando a minha dor”. Gonzaga desconstrói a situação mostrando o ápice dessa calamidade, o rio quando seca deixa apenas lama no lugar da água – agora quando a lama vira pedra, é porque realmente a esperança está no fim – outro inidício é quando o mandacaru [planta] amarela, trasmuta-se do verde para o amarelo, perdendo a vida. Da mesma forma que no gênesis bíblico, uma pássaro anúnciou o fim do dilúvio, a seca nordestina é anunciada por um pássaro, o ribaça, decretanto o fim de um ciclo, onde a contínuidade é um mixto de ato de fé, desespero e suicídio. Gonzaga talvez não previu que essa situação fosse se estender para além do século XXI, causando graves problemas de densidade populacional. Esse problema se dá de duas formas, ou se migra do agreste para a cidade [no mesmo estado], ou para outro estado. Nos dois casos ocorrerá inchaço populacional – disputa de emprego, de recursos básicos, infraestrutura – gerando má prestação de serviço na tentativa de atender a todos, ou deixando muitos sem o serviço. No caso do nordeste, as cidades possuem menos poder econômico e os estados recebem menos verba da união, então, mesmo as capitais [grandes cidades por sinal] não conseguem dar conta dos migrantes do interior. No sudeste o problema ganha dimensões diferentes, pois mesmo os empregos menor remunerados ou menos prestigiados são pleitados por todos, e quando alguém de outro estado consegue a vaga [geralmente do nordeste], ocorrem manisfetações de revolta como as dos movimentos dos carecas ou dos boneheads, culpando esses migrantes de roubarem os empregos dos naturais desse estado. Esse problema poderia ser resolvido caso a chuva ocorresse nos lugares certos [não ocorreira o êxodo]. É bom que chova no nordeste, porém de preferência nas áreas que mais carecem da chuva, como o interior e no alto sertão. Ou seja, é uma questão de precisão, de chover no lugar certo e na proporção certa, pois nem mesmo no sertão deve chover tanto, pois há consequências também no excesso de chuva. Agora o homem reclama de tudo e põe a culpa na chuva – ora porque é forte demais e vem acompanhada de ventos, ora porque não veio no lugar certo, na proporção certa, ora porque não veio, ou porque já está tempo demais sem aparecer – se esquecendo que a culpa na verdade é dele, que provocou todas essas mudanças no clima. O homem só comprova que em tudo que põe a mão ou ele destrói ou transforma para pior – e que no caso das fortes chuvas ou da secas, o homem pode mudar de lugar, mas no caso das alterações do clima não, é um problema uniforme. Uniforme no sentido de que é um problema em escala global, onde cada lugar sofrerá de acordo com suas características específicas, e não adiantará muito fugir de um lugar para outro em busca de condições melhores, ou o homem viverá fugindo de suas próprias fugas, como em Vidas Secas de Graciliano Ramos, ou viverá esperando da natureza precisão e proporção com o mesmo sucesso que Didi, Gogô, Pozzo e Lucky esperaram Godot na obra de Samuel Beckett. Basta agora escolher o que é menos pior, correr, cansar e ser pego pelo bicho, ou ficar e deixar o bicho facilmente, o certo mesmo é que o homem é o lobo do homem, não é mesmo Thomas Hobbes.

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Luiz Gonzag - Prêmio Shell Para a Música Brasileira [1984]

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Notas.

1 - Retirantes - Rodrigo Carvalho.

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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Crônica.

O intercessor do Parque Antártica.


por Marlon Marques.




















São Marcos o envagelista é o padroeiro de Veneza, e nessa cidade está enterrado em baixo da catedral que leva seu nome. Marcos, o santo goleiro do Palmeiras, também deverá permanecer eternamente no solo alviverde por tudo o que já fez com essa camisa. O símbolo de São Marcos é o leão, e o santo do parque antártica derrotou o leão. Se São Jorge matou o dragão, São Marcos matou o leão, um bravo leão diga-se de passagem. O leão é o símbolo do Sport Clube Recife, que tentou mas não conseguiu matar o porco, numa zooanalogia. Santos são homens diferentes, mas são homens, possuem suas fragilidades, lembrem-se que em território japonês há dez anos atrás, São Marcos, foi apenas Marcos, o homem, pois falhou no gol feito pelo Manchester United na final do mundial interclubes. Porém seu processo de beatificação e posterior canonização se deu na taça libertadores da América no ano de 1999 – a mesma que levou o Palmeiras a final do mundial de clubes. Nessa Libertadores Palmeiras e Corinthians se enfrentaram, na decisão por penaltis nas quartas-de-final, Vampeta bateu o penalti e Marcos fez seu primeiro milagre. O Palmeiras foi o campeão dessa edição da Libertadores, porém os grandes milagres começariam mesmo no ano seguinte. O Palmeiras cruzou novamente com o Corinthians na semi-final da Libertadores de 2000. Esse seria apenas mais um Derby, mas não foi, foi o Derby. Foram dois jogos de gigantes, ambos do mesmo tamanho, embora os dois times fossem compátiveis [e o Corinthians tendo jogado melhor nos dois jogos], o que diferenciava os dois times era que um deles tinha um santo. Esse time era o verde, e isso fez toda a diferença. Em uma das cenas mais marcantes da história do futebol brasileiro, estavam frente a frente no último penalti da primeira seqüência Marcos e Marcelinho Carioca, dois craques. “ – Lá vai Marcelinho com o pé direito, Marcelinho e Marcos. Partiu Marcelinho bateu, Marcos pegou”, narrou Galvão Bueno – já que a Globo detém sozinha os direitos de transmissão da Libertadores. A partir desse milagre, vieram outros grandes milagres, na Copa do Mundo de 2002 na Coréia do Sul e no mesmo Japão onde Marcos falhou, fez defesas decisivas durante toda competição, mas se os dois gols de Ronaldo selaram o penta campeonato, a defesa de Marcos no chute de Neville iniciaram a conquista. Marcos além de ser um grande jogador, o craque do gol, é bastante elogiado como pessoa por jogadores, jornalistas, treinadores, e pessoas do meio esportivo. Foram poucas as vezes que Marcos se meteu em confusão, houve uma situação em que o santo saiu de seu corpo, e agrediu um jogador adversário, mas logo se desculpou e continuou a construir a imagem de ídolo do Palmeiras e porque não do Brasil. Marcos é dos poucos jogares admirados por todas as torcidas, e a exemplo de Ronaldo, também sofreu lesões seguidas, passou por fases ruins, muitas falhas e chegou a ser questionado, mas se recuperou, deu a volta por cima, e hoje volta a viver uma grande fase. O jogo que corrobora com essa afirmativa é o segundo jogo das oitavas-de-final contra o Sport. Na edição da Libertadores de 2009, o Palmeiras não estava bem. Fez um campanha muito ruim na primeira fase, se classificando no último jogo no último minuto contra o Colo Colo com um golaço de Cleiton Xavier. Pelo retrospecto e pelo momento na competição dos dois times, o Sport foi apontado por 9 entre 10 jornalistas ou cidadãos como o grande favorito a vaga. Desde 2007, foram dois empates, duas derrotas e seis vitórias do Sport em dez confrontos, entre Libertadores, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. O Palmeiras sofreu uma pressão violenta, quase não foi ao gol do Sport, que dominou a partida inteira, durante os 90 minutos. Porém entraram em campo na Ilha do Retiro para esse jogo, 21 jogadores e um santo. E isso fez a diferença mais uma vez. São Marcos fez várias defesas, com as mãos e com os pés, no primeiro e no segundo tempo. Literalmente baixou o santo em Marcos, fez defesas quase impossíveis, ou melhor, impossíveis para os homens, mas possíveis para os santos, estava realmente numa noite iluminada, mesmo tendo tomado um gol. O Sport precisava de mais um gol, e foi atrás, mas Marcos se encarregou de construir um muro abençoado no gol verde não deixando nada passar. A concretização de sua santidade nesse jogo foi na decisão por penaltis. No mesmo lado do jogo contra o Corinthians, na mesma Libertadores da América, contra um time que jogou melhor [assim como o Corinthians], São Marcos brilhou de novo. Marcos pegou três penaltis, e de jogadores destaque do time do Sport, Luciano Henrique, Fumagalli e Dutra, que por coincidência são ex-jogadores do rival do Palmeiras, Santos. O último penalti batido por Dutra, foi batido no mesmo canto de Marcelinho, e foram essas as cobranças que definiram as vitórias do Palmeiras nessas duas ocasiões tão semelhantes. São Marcos mais uma vez superou as contusões e voltou a sua melhor forma, física e técnica, e mesmo estando com 36 anos, provou mais uma vez que é um grande goleiro ainda, e um grande santo, capaz de fazer milagres quando mais se precisa.


foto: Otávio de Souza - Futura Press.


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